{"id":3361,"date":"2012-01-31T19:56:39","date_gmt":"2012-01-31T21:56:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3361"},"modified":"2012-01-31T19:56:39","modified_gmt":"2012-01-31T21:56:39","slug":"a-separacao-o-nucleo-indissoluvel-da-justica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-separacao-o-nucleo-indissoluvel-da-justica","title":{"rendered":"A SEPARA\u00c7\u00c3O: O N\u00daCLEO INDISSOL\u00daVEL DA JUSTI\u00c7A"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Todos mentem em A Separa\u00e7\u00e3o (2011), filme iraniano de Asghar Farhadi, at\u00e9 que a verdade vem \u00e0 tona. Mas ela n\u00e3o se circunscreve \u00e0 Justi\u00e7a e sim ao foro \u00edntimo. \u00c9 no indiv\u00edduo que est\u00e1 a clareza sobre o que \u00e9 certo e errado, independente de posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou pol\u00edtica, atividade profissional, religi\u00e3o. O indiv\u00edduo sabe, mesmo que ele se envolva com todos os erros do processo que coloca duas classes sociais em oposi\u00e7\u00e3o. O patr\u00e3o da classe m\u00e9dia que contrata a gr\u00e1vida, a empurra e \u00e9 acusado de matar o beb\u00ea, enfrenta o marido endividado da sua empregada que quer coloc\u00e1-lo na pris\u00e3o e exige uma indeniza\u00e7\u00e3o pelo filho morto. Ambos enfrentam problemas conjugais e familiares, que explodem nas mulheres.<\/p>\n<p>Do lado do acusado (interpretado por Peyman Moadi), que n\u00e3o quer sair do pa\u00eds alegando que tem pai com Alzheimer \u2013 uma representa\u00e7\u00e3o do estado terminal do pa\u00eds obsoleto e fundamentalista \u2013 est\u00e1 a esposa (Leila Hatami ) que quer ir embora e levar a filha adolescente (Sarina Farhadi )para ter uma educa\u00e7\u00e3o melhor. No col\u00e9gio, a mo\u00e7a aprende que existe a elite e as pessoais \u201cnormais\u201d, para esc\u00e2ndalo da m\u00e3e progressista. E tamb\u00e9m lhe ensinam as palavras de um dialeto que s\u00e3o atribu\u00eddos a outro pelos professores, para esc\u00e2ndalo do pai tradicionalista.<\/p>\n<p>Do lado do acusador, que tinha sido preso pelos credores e v\u00ea no processo uma chance de sair do buraco, est\u00e1 a gr\u00e1vida (Sareh Bayat), que decide trabalhar escondida, j\u00e1 que o marido n\u00e3o coloca mais dinheiro em casa. Ao entrar em conflito com seu empregador, ela \u00e9 obrigada a falar tudo para o marido, que entra em parafuso de viol\u00eancia. Tudo acaba nas m\u00e3os de um juiz indiferente e ao mesmo tempo minucioso, numa interpreta\u00e7\u00e3o did\u00e1tica de como funciona o sistema judici\u00e1rio no varej\u00e3o do Ir\u00e3.<\/p>\n<p>O acusado mente que desconhecia a gravidez da empregada, esta mente dizendo que o empregador provocou o aborto, a professora mente que ele n\u00e3o sabia de nada, a filha \u00e9 obrigada a mentir para evitar que o pai pegue tr\u00eas anos de pris\u00e3o. \u00c9 nessa filha adolescente que se concentra o drama. Ela fica com o pai enquanto a m\u00e3e volta para a casa materna. Seu objetivo \u00e9 manter a fam\u00edlia unida, pois sabe que m\u00e3e jamais a abandonar\u00e1. Mas esse v\u00ednculo se rompe quando v\u00ea a mentira tomar conta do depoimento paterno.<\/p>\n<p>Cabe a ela decidir se fica com o pai ou a m\u00e3e. Se ela se decidir pelo pai, optar\u00e1 pela tradi\u00e7\u00e3o e o pa\u00eds. Se for pela m\u00e3e, ser\u00e1 mais uma migrante. O filme termina sem dizer com quem ela fica, mas est\u00e1 claro que o pai, abandonado num banco do f\u00f3rum, fica para tr\u00e1s nesse processo radical de transforma\u00e7\u00e3o do mundo que o Ir\u00e3 teima em n\u00e3o aceitar. L\u00e1, \u00e9 proibido mulher dirigir, mas a esposa que se separa e quer ir embora dirige. \u00c9 proibido mulher gr\u00e1vida trabalhar ou limpar idoso doente, pois a religi\u00e3o pro\u00edbe, mas na hora do aperto as regras s\u00e3o transgredidas.<\/p>\n<p>\u00c9 fora do f\u00f3rum que se procura uma solu\u00e7\u00e3o para o caso. Em v\u00e3o, pois a proposta emperra nos princ\u00edpios religiosos. Resta ent\u00e3o a luz interior de cada um: todos enxergam claramente o que aconteceu e qual a culpa que carregam. Mas as conting\u00eancias, as amea\u00e7as, as d\u00favidas, as press\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas acabam colocando tudo a perder. A esperan\u00e7a est\u00e1 em quem sofre o impacto desse sufoco mas mant\u00e9m a lucidez.<\/p>\n<p>Mulheres de burka desde meninas at\u00e9 as mais idosas. Homens de barba obrigat\u00f3ria. O Deus oficial sendo citado a todo momento. \u00c9 esse Ir\u00e3 medieval ambientado nas demandas da modernidade que o filme falado de Asghar Farhadi mostra por meio de um duplo processo: de um lado a separa\u00e7\u00e3o do casal e do outro a acusa\u00e7\u00e3o de assassinato. Em nenhum deles est\u00e1 a verdade, mas sim no cora\u00e7\u00e3o devastado da jovem que v\u00ea seu pa\u00eds partido numa \u00e9poca de ruptura. Nela reside a fragilidade extrema da situa\u00e7\u00e3o. Ao escolher a fuga ela rompe com o sufoco a que \u00e9 submetida a popula\u00e7\u00e3o. Voa para a incerteza, mas s\u00f3 lhe resta a coragem de uma decis\u00e3o fundada no seu esp\u00edrito comovente, \u00e9tico e natural ditado pela consci\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Todos mentem em A Separa\u00e7\u00e3o (2011), filme iraniano de Asghar Farhadi, at\u00e9 que a verdade vem \u00e0 tona. Mas ela n\u00e3o se circunscreve \u00e0 Justi\u00e7a e sim ao foro \u00edntimo. \u00c9 no indiv\u00edduo que est\u00e1 a clareza sobre o que \u00e9 certo e errado, independente de posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou pol\u00edtica, atividade profissional, religi\u00e3o. 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