{"id":34,"date":"2005-05-13T21:27:37","date_gmt":"2005-05-13T23:27:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=34"},"modified":"2009-12-21T00:54:49","modified_gmt":"2009-12-21T02:54:49","slug":"john-reed-influencia-chaplin","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/john-reed-influencia-chaplin","title":{"rendered":"John Reed influencia Chaplin"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><img src=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/imagens\/icons\/reed.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Certamente Charles Chaplin leu o conto O Capitalista, de John Reed, e nele encontrou o personagem que fez sua fama. O texto foi publicado no jornal The Masses, editado pelo amigo de ambos, Max Eastman. A hist\u00f3ria do desempregado de roupa pu\u00edda e ar distinto &#8211; denominado William Booth Wrenn &#8211; faz parte da colet\u00e2nea <a href=\"http:\/\/www.conradeditora.com.br\/reed\">A Filha da Revolu\u00e7\u00e3o<\/a> (Conrad do Brasil, 2001) e foi publicado em 1912, dois anos antes de Chaplin criar o seu vagabundo.<\/p>\n<p>O personagem est\u00e1 l\u00e1, inteiro, pronto para influir na hist\u00f3ria do cinema. Todos os tra\u00e7os do futuro Little Tramp est\u00e3o nesse conto. Primeiro, ele vai de &#8220;algum lugar a lugar nenhum&#8221;, ou seja, anda a esmo, vagueia pelo pa\u00eds de desempregados (tramp significa tamb\u00e9m andarilho). A hist\u00f3ria ambienta-se na Nova York de novembro, \u00famida e fria, com ruas onde est\u00e3o, al\u00e9m de William, um guarda, e um casal de velhos, b\u00eabados e mendigos. William distingue-se desses mendigos pela maneira como se veste e pelo ar de dignidade. Ele n\u00e3o pede esmolas, vive de bicos &#8211; no in\u00edcio da hist\u00f3ria, ele conta sua fortuna (65 centavos) que ganhou fazendo &#8220;n\u00e3o importa o qu\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 impressionante as coincid\u00eancias em tudo, a come\u00e7ar na descri\u00e7\u00e3o f\u00edsica do personagem. Segundo Reed, William poderia enganar o observador desatento, pois parecia ser um jovem comum em ascens\u00e3o. Usava sapatos de couro que davam a impress\u00e3o de terem sido engraxados recentemente, um chap\u00e9u velho, na apar\u00eancia, brit\u00e2nico e uma capa de chuva no comprimento correto. Era, segundo Reed, uma esp\u00e9cie de uniforme para quem procurava emprego em Nova York. Mas a proximidade revela o colarinho pu\u00eddo e sujo, ligado a um &#8220;trapo sem mangas que n\u00e3o era uma camisa&#8221;. Os sapatos tinham dois buracos nas solas e as meias, encharcadas, estavam aparecendo.<\/p>\n<p>Outra coincid\u00eancia \u00e9 o comportamento. O desempregado sem rumo de Reed \u00e9 como o andarilho de Chaplin: balan\u00e7a as moedas alegremente no bolso, atira uma para o alto para decidir qual rumo tomar e vira-se de maneira cort\u00eas quando \u00e9 chamado. E mais: \u00e9 confundido, pelo povo da rua, com os capitalistas de verdade (como Chaplin em Luzes da Cidade, quando a vendedora de flores, cega, o imagina rico). Mas \u00e9 solid\u00e1rio com os despossu\u00eddos e desamparados, como o personagem de Chaplin. Chegamos a pensar que ele tem um lugar para ficar \u00e0 noite, j\u00e1 que oferece essa alternativa para uma velha mendiga. Mas o guarda entrega tudo:<\/p>\n<p>&#8211; Meu senhor, voc\u00ea sabe quem eu sou? pergunta William.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, respondeu o guarda. Voc\u00ea \u00e9 o cara que eu expulsei duas vezes daqui ontem \u00e0 noite. Agora v\u00e1, ou eu acabo com voc\u00ea.<\/p>\n<p>Temos ent\u00e3o todo o perfil do personagem, iguais no conto e nos filmes: os gestos, a apar\u00eancia, as roupas, o comportamento e os relacionamentos &#8211; de solidariedade com os necessitados e de oposi\u00e7\u00e3o com os guardas. Vemos na autobiografia de Chaplin sua sintonia com o socialismo, o que gerou problemas com o FBI, principalmente depois de Tempos Modernos (quando o andarilho enfim consegue emprego &#8211; e n\u00e3o se adapta ao sistema).<\/p>\n<p>Reed \u00e9 um escritor estupendo e m\u00e3o merece ser chamado de &#8220;play-boy da revolu\u00e7\u00e3o&#8221;, como foi escrito quando o livro foi lan\u00e7ado no Brasil o ano passado. Seus contos s\u00e3o sobre a aliena\u00e7\u00e3o de opressores e oprimidos e sua lucidez ultrapassa o c\u00edrculo de giz do engajamento datado. S\u00e3o contos que cruzam o tempo intactos, abordando a prostituta que pensa ser livre depois de sofrer com a fam\u00edlia retr\u00f3grada e militante de esquerda; os jovens combatentes americanos irrespons\u00e1veis que s\u00e3o expulsos do ex\u00e9rcito de Pancho Villa; o ex-comunista s\u00e9rvio que adota o manejo com armas e tropas como express\u00e3o da sua estupidez; o ingl\u00eas esnobe e o ingl\u00eas bronco, que v\u00e3o para a guerra porque se alinham com a tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas na aliena\u00e7\u00e3o existem tamb\u00e9m pessoas encantadoras, como o m\u00e9dico da fronteira que \u00e9 respeitado pelos mexicanos, ou a prostituta que correu o mundo e voltou para a pista de dan\u00e7a porque nele definiu seu lar. Reed \u00e9 imbat\u00edvel no texto que sugere muito mais do que est\u00e1 escrito, na concis\u00e3o que se d\u00e1 o luxo de demorar sobre detalhes, na vida que salta de corpos e rostos enrugados, sujos, fedidos, nas luzes e cores de vida mundana e na aspereza da guerra permanente.<\/p>\n<p>\u00c9 um escritor obrigat\u00f3rio, que morreu de tanta luta, ou talvez de excesso de lucidez e talento, que explodem em seu trabalho de jornalista e escritor itinerante, notadamente neste livro e no seu cl\u00e1ssico Os Dez dias que Abalaram o Mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certamente Charles Chaplin leu o conto O Capitalista, de John Reed, e nele encontrou o personagem que fez sua fama. O texto foi publicado no jornal The Masses, editado pelo amigo de ambos, Max Eastman. A hist\u00f3ria do desempregado de roupa pu\u00edda e ar distinto &#8211; denominado William Booth Wrenn &#8211; faz parte da colet\u00e2nea A Filha da Revolu\u00e7\u00e3o (Conrad do Brasil, 2001) e foi publicado em 1912, dois anos antes de Chaplin criar o seu vagabundo.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1537,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34\/revisions\/1537"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}