{"id":340,"date":"2009-12-10T12:53:47","date_gmt":"2009-12-10T14:53:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=340"},"modified":"2009-12-22T03:07:03","modified_gmt":"2009-12-22T05:07:03","slug":"salinha-de-shopping-e-ergastulo-de-escravo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/salinha-de-shopping-e-ergastulo-de-escravo","title":{"rendered":"SALINHA DE SHOPPING \u00c9 ERG\u00c1STULO DE ESCRAVO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Um seguran\u00e7a negro foi com a fam\u00edlia num mega-supermercado e ficou no estacionamento cuidando da sua nen\u00e9m enquanto a mulher e filhos faziam compras. Tinha acabado de adquirir seu EcoSport de IPI reduzido e em infinitas presta\u00e7\u00f5es. Desconfiado de uns motoqueiros, saiu do carro para ver o que acontecia. Imediatamente foi rodeado pelos seguran\u00e7as, certos de que o negro n\u00e3o teria cacife e fatalmente estaria roubando o carro. Surrado, humilhado, quase morreu, mas conseguiu convencer os algozes de que era um homem s\u00e9rio e honesto. Foi salvo quando voltou ao estacionamento e l\u00e1 estava a fam\u00edlia toda, esperando, preocupada, pois a nen\u00e9m continuava dentro, dormindo, sozinha.<\/p>\n<p>Vimos isso a toda hora, virou moda. Um vendedor que estava dentro de um shopping n\u00e3o teve a mesma sorte e foi assassinado pelos seguran\u00e7as. Onde? No erg\u00e1stulo do shopping. Aprendi a palavra erg\u00e1stulo em O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco, livro fundamental do Brasil lan\u00e7ado nos anos 80 do s\u00e9culo 19. Eram pris\u00f5es onde se colocavam os escravos. Hoje, a democratiza\u00e7\u00e3o da tortura colocou os erg\u00e1stulos nas famigeradas salinhas dos shopping centers, onde os suspeitos s\u00e3o torturados e mortos, e depois jogados fora em carrinhos de supermercado e embrulhados em sacos de lixo.<\/p>\n<p>Os seguran\u00e7as dos shoppings s\u00e3o a encarna\u00e7\u00e3o dos feitores antigos e est\u00e3o ali colocados exatamente para erradicar as amea\u00e7as da escravaria naquele tipo de estabelecimento, que, sob todos os aspectos, representa a ostenta\u00e7\u00e3o da Casa Grande das velhas fazendas coloniais. N\u00e3o \u00e9 de admirar que aconte\u00e7a isso. Os shoppings do Brasil, pelo menos os mais not\u00f3rios e pioneiros, foram implantados pelos neo-coron\u00e9is de uma fam\u00edlia nordestina (poderia ser de S\u00e3o Paulo, onde a escravid\u00e3o pegou fundo, ou de Minas, ou de qualquer lugar do Brasil). Eles adaptaram uma id\u00e9ia americana e trouxeram dos engenhos seculares toda a concep\u00e7\u00e3o da sociedade de colonial de classes, com um centro irradiador e poderoso (a mega-loja, ou o mega-supermercado) e seu entorno (as boutiques de luxo, o fast-food, o lazer supercaro).<\/p>\n<p>Para que desse certo, era preciso que a situa\u00e7\u00e3o brasileira se mantivesse intacta na sua divis\u00e3o entre a superconcentra\u00e7\u00e3o de renda e a escravid\u00e3o. Nabuco prova em seu livro que a escravid\u00e3o \u201cenerva\u201d toda a sociedade, ou seja, \u00e9 o im\u00e3 que une (ou desune) todos numa s\u00f3 na\u00e7\u00e3o. Ser propriet\u00e1rio do alheio \u00e9 o que pega em todas as atividades, nichos e classes. O que dizem os bandidos no assalto? \u201cOnde est\u00e1 o MEU dinheiro?\u201d Ou seja, eles s\u00e3o propriet\u00e1rios do dinheiro dos outros, basta que se lembrem disso. Na pol\u00edtica, sabemos do que se trata. Como a sociedade assim contaminada pela escravid\u00e3o continua marcando passo, \u00e9 preciso que se cerquem de muros e guardas os lugares das compras, pois na rua \u00e9 um perigo.<\/p>\n<p>Todas as amea\u00e7as existentes numa sociedade que confina a maior parte da popula\u00e7\u00e3o aos ferros e ao a\u00e7oite se debru\u00e7am sobre o shopping center, que atrai a cobi\u00e7a de quem nada tem, ou quer ter mais, ou simplesmente gosta de exercer seu of\u00edcio de ladr\u00e3o. Os seguran\u00e7as servem para colocar todo mundo nos eixos. Por meio do terror, obrigam a massa a se comportar e a consumir sem tugir nem mugir (de prefer\u00eancia, que sejam todos brancos). Os donos das lojas, que pagam fortunas para os maganos tubar\u00f5es dos shoppings, tamb\u00e9m precisam desse servi\u00e7o, sen\u00e3o acham que ser\u00e3o destru\u00eddos pela escravaria enfurecida (era o mesmo argumento dos velhos senhores que n\u00e3o queriam o fim da escravid\u00e3o). E quem for identificado como amea\u00e7a, dan\u00e7a. \u00c9 a lei do c\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas tudo isso \u00e9 apar\u00eancia, claro. Sabemos que a modernidade chegou ao Brasil e ningu\u00e9m deve ser t\u00e3o pessimista. E que o privil\u00e9gio ampliou seu espectro. Hoje, um seguran\u00e7a pode comprar um EcoSport. Isso \u00e9 sinal que o atual governo inclui as massas desfavorecidas na sociedade de classes. N\u00e3o \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o? No lugar de eliminar as diferen\u00e7as, o governo inclui mais gente no sistema de privil\u00e9gios. Em conseq\u00fc\u00eancia a repress\u00e3o, como nos prova os shoppings, continua intacta.<\/p>\n<p>Qual a solu\u00e7\u00e3o? Distribuir renda e n\u00e3o aprofundar o endividamento das classes menos favorecidas. Em O Abolicionismo, Nabuco nos fala de uma lei de \u201capoio \u00e0 lavoura\u201d de 1875 que transformava a propriedade escrava em pap\u00e9is especulativos (letras) para circularem na Europa. Id\u00eantico aos famosos cr\u00e9ditos podres que provocou a atual crise financeira. Ah, esqueci. A crise \u201cacabou\u201d. Ent\u00e3o, t\u00e1, conta outra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os seguran\u00e7as dos shoppings s\u00e3o a encarna\u00e7\u00e3o dos feitores antigos e est\u00e3o ali colocados exatamente para erradicar as amea\u00e7as da escravaria naquele tipo de estabelecimento, que, sob todos os aspectos, representa a ostenta\u00e7\u00e3o da Casa Grande das velhas fazendas coloniais. N\u00e3o \u00e9 de admirar que aconte\u00e7a isso. 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