{"id":342,"date":"2009-12-10T12:54:29","date_gmt":"2009-12-10T14:54:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=342"},"modified":"2010-09-07T16:40:12","modified_gmt":"2010-09-07T19:40:12","slug":"mar-de-cecilia-espelho-sonoro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/mar-de-cecilia-espelho-sonoro","title":{"rendered":"MAR DE CEC\u00cdLIA, ESPELHO SONORO"},"content":{"rendered":"<p><em>Vi\u00fava aos 34 anos, com tr\u00eas filhas para criar, a poeta maior do Brasil estava no mundo em um permanente e l\u00facido exerc\u00edcio de fuga, guardando o poder de sua poesia, sem se furtar a nada<br \/>\n<\/em><strong><span style=\"text-decoration: underline;\"><br \/>\nNei Ducl\u00f3s<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Foi na poesia, espelho da vida inteira, que Cec\u00edlia Meireles deixou perdida a sua face. Como ach\u00e1-la na leitura, se na sua cria\u00e7\u00e3o \u00e9 posta como enigma, pergunta, busca? Talvez de ouvido possamos resgat\u00e1-la, j\u00e1 que antes de tudo ela \u00e9 sinfonia, cantata, quarteto de cordas, coral. Mas \u00e9 imposs\u00edvel aprision\u00e1-la nos olhos sem treino, identific\u00e1-la com o faro cego, enxerg\u00e1-la com o tato morto. Mesmo que estiv\u00e9ssemos a pleno com os cinco sentidos, seria in\u00fatil toc\u00e1-la, j\u00e1 que aprendeu cedo a inventar ou descobrir mundos por meio da solid\u00e3o e da proximidade com a morte. \u201cQue mal faz esta cor fingida do meu cabelo, e do meu rosto, se tudo \u00e9 tinta: o mundo, a vida, o contentamento, o desgosto?\u201d (Mulher ao espelho)<\/p>\n<p>L\u00e1 ela se recolheu, transparente como uma criatura das profundezas do mar, dessas que n\u00e3o se revelam e jamais v\u00eam \u00e0 tona, j\u00e1 que encerram em seus movimentos a comunh\u00e3o de tudo o que vemos e que para ela s\u00e3o apenas ru\u00ednas. Sua miss\u00e3o \u00e9 outra, n\u00e3o a de nos encantar ou exercer seu brilho. Se a deix\u00e1ssemos l\u00e1, onde se oculta de modo permanente, apesar de sua notoriedade, continuaria a mesma, a duelar com correntes mar\u00edtimas vindas do magma e a buscar repouso em flores abandonadas. Ela quer nos dizer algo sobre o que somos, abismos. Poderemos, ent\u00e3o, ser salvos de n\u00f3s mesmos, passageiros potenciais de uma viagem \u00e0 eternidade. \u201cLonge, longe&#8230; Deus te guarde sobre o seu lado direito, como eu te guardava do outro, noite e dia, Amor-Perfeito\u201d (Improviso do amor perfeito)<\/p>\n<p>Serena e sonora, Cec\u00edlia procura esse rosto que contraria todas as conven\u00e7\u00f5es, as personas que assumiu, formatado palavra por palavra, cevado na solid\u00e3o de quem perdeu o pai antes de nascer, a m\u00e3e aos tr\u00eas anos, foi criada pela av\u00f3 portuguesa e perdeu o marido suicida, que a deixou com tr\u00eas filhas. Cec\u00edlia manteve-se no mundo irreal da vida prosaica, onde casou de novo, foi professora, pedagoga influente, autora de livros infantis e fundadora da primeira biblioteca especializada para crian\u00e7as no Brasil. Mas seu territ\u00f3rio \u00e9 a poesia, mar absoluto, espelho sonoro onde procuramos em v\u00e3o sua identidade, guardada n\u00e3o num cofre, mas nesse movimento perene das \u00e1guas, embalado pela mais alta m\u00fasica e inspirado nas ra\u00edzes profundas da terra brasilis, a qual dedica todos os seus versos. \u201cEm praias de indiferen\u00e7a navega o meu cora\u00e7\u00e3o. Venho desde a adolesc\u00eancia na mesma navega\u00e7\u00e3o\u201d (Const\u00e2ncia do deserto).<\/p>\n<p>Tudo na poeta maior \u00e9 aparente. Sua entrega \u00e9, no fundo, condena\u00e7\u00e3o, sua alegria \u00e9 proje\u00e7\u00e3o de uma tristeza infinita, seus la\u00e7os s\u00e3o fr\u00e1geis, feitos de vestidos, l\u00e1grimas, estrelas, ondas, ventos e verdades que ningu\u00e9m aceita. Pelo menos n\u00e3o nesta vida, onde esquecemos de nos debru\u00e7ar sobre as coisas, como faziam os antigos diante das amuradas, janelas, penhascos, g\u00e1veas. Somos bons em nos defender de acusa\u00e7\u00f5es sobre comportamentos e h\u00e1bitos, mas deixamos ao largo, passando indiferente, a necessidade de semear o cora\u00e7\u00e3o com algo que n\u00e3o seja ru\u00eddo in\u00fatil ou deserto. \u201cAqui est\u00e1 meu rosto verdadeiro, defronte do crep\u00fasculo que n\u00e3o alcan\u00e7aste. Abre o t\u00famulo, e olha-me: dize-me qual de n\u00f3s morreu mais?\u201d (Canto 7 de Elegia).<\/p>\n<p>Seu estar no mundo \u00e9 um exerc\u00edcio permanente de fuga, promovido pela lucidez. A obra, que tem em Mar Absoluto e Retrato Natural, lan\u00e7ados em 1945 e 1949, respectivamente, uma s\u00edntese suprema, \u00e9 teia tecida de enredar, seduzir e nos puxar para o fundo, l\u00e1 onde mora a chama capaz de incendiar o esp\u00edrito desabitado pela inc\u00faria do desconhecimento e da deslembran\u00e7a. Os dois livros n\u00e3o cobrem a grande diversidade das manifesta\u00e7\u00f5es do g\u00eanio da poeta nascida em 1901 e que se foi em 1964. Mas indica uma luz n\u00e3o para compreend\u00ea-la, mas para respeit\u00e1-la como fazemos diante das grandes tormentas, as que oferecem, antes da inunda\u00e7\u00e3o, a face grave do calor e a leve agita\u00e7\u00e3o das folhas ainda desavisadas. \u201cPasseio no gume de estradas t\u00e3o graves que afligem o pr\u00f3prio inimigo. A mim, que me importam esp\u00e9cies de instantes, se existo infinita?\u201d (Inscri\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Podemos cit\u00e1-la sem cessar, por d\u00e9cadas, e jamais chegaremos a um porto seguro, pois a cada abordagem nosso navio sente-se impulsionado para longe: \u201cRastro de flor e estrela, nuvem e mar. Meu destino \u00e9 mais longe e meu passo mais r\u00e1pido: a sombra \u00e9 que vai devagar\u201d. Ler Cec\u00edlia Meireles \u00e9 evitar equ\u00edvocos como o que vemos atualmente, em que se aposta na brutalidade das mensagens, a aridez das palavras, na pseudo-ousadia dos temas. N\u00e3o existe nada mais radical sobre as mulheres do que seu grande poema Balada das dez bailarinas do cassino: \u201cAndam as dez bailarinas sem voz, em redor das mesas. H\u00e1 m\u00e3os sobre facas, dentes sobre flores e os charutos toldam as luzes acesas. Entre a m\u00fasica e dan\u00e7a escorre uma sedosa escada de vileza(&#8230;) V\u00e3o perpassando como dez m\u00famias, as bailarinas fatigadas. Ramo de nardos inclinando flores azuis, brancas, verdes, douradas. Dez m\u00e3es chorariam, se vissem as bailarinas de m\u00e3os dadas\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio uma s\u00f3 palavra pretensamente violenta. A viol\u00eancia vem da arma\u00e7\u00e3o da poesia, do que se diz por meio de deslizamentos e sussurros, numa delicadeza que perdemos miseravelmente. Temos muitas justificativas para sermos brutos. Mas Cec\u00edlia viveu duas grandes guerras e fala com serenidade tocante sobre a mortandade, construindo baladas para soldados mortos, para vi\u00favas e m\u00e3es que aguardam em s\u00fabito desespero. Ela viveu num mundo mais transtornado e confuso do que o nosso. Mas soube guardar o poder de sua poesia, sem se furtar a nada. Ela j\u00e1 tinha provado o sal das suas grandes perdas familiares, em que a morte da av\u00f3 que a criou foi sua grande dor.<\/p>\n<p>\u00c9 quando ela chora sobre a pessoa querida que jaz \u00e0 sua frente: \u201cMinha primeira l\u00e1grima caiu dentro dos teus olhos. Tive medo de a enxugar: para n\u00e3o saberes que havia ca\u00eddo. No dia seguinte, estavas im\u00f3vel, na tua forma definitiva, modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas m\u00e3os. Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua\u201d.<\/p>\n<p>Revisitar Cec\u00edlia, naveg\u00e1-la, rel\u00ea-la, rememorar, comemorar novamente seu nascimento e sua obra, eis um evento fundamental para quem quer a alma ancorada em algo que nos sustenta e transcende. Temos fome de transcend\u00eancia, n\u00f3s, os deserdados desta terra. Precisamos do que possu\u00edmos de melhor, porque o tempo jamais decide ser mais ameno e existem poucas chances de recuperar o que perdemos. A tr\u00e1gica aventura da na\u00e7\u00e3o fez com que volt\u00e1ssemos as costas para o que pode nos salvar da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Com Cec\u00edlia talvez n\u00e3o encontremos seu rosto, submerso em tanta grandeza e talento. Mas podemos olhar pelo seu espelho, o poema sem m\u00e1cula, e v\u00ea-la a sorrir seu desafio feito p\u00f3len, sua m\u00e1scara m\u00faltipla, seus pertences girando na tarde que cai na montanha, onde as estrelas formam a margem prateada de uma revela\u00e7\u00e3o: \u201cE este mar vis\u00edvel levanta para mim uma face espantosa. E retrai-se, ao dizer-me o que preciso. E \u00e9 logo uma pequena concha fervilhante, n\u00f3doa l\u00edquida e inst\u00e1vel, c\u00e9lula azul sumindo-se no reino de um outro mar: ah! Do Mar Absoluto.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi na poesia, espelho da vida inteira, que Cec\u00edlia Meireles deixou perdida a sua face. 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