{"id":344,"date":"2009-12-10T12:55:10","date_gmt":"2009-12-10T14:55:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=344"},"modified":"2009-12-21T23:40:32","modified_gmt":"2009-12-22T01:40:32","slug":"poucas-palavras-em-manuel-bandeira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/poucas-palavras-em-manuel-bandeira","title":{"rendered":"POUCAS PALAVRAS EM MANUEL BANDEIRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA poesia \u00e9 a arte das poucas palavras. N\u00e3o das palavras escassas, enxutas, \u00e1ridas, secas, torcidas como arame farpado e expostas nos eventos suntuosos que celebram os talentos m\u00ednimos. N\u00e3o das palavras \u00famidas e sebosas que comp\u00f5em a redund\u00e2ncia do sentimentalismo industrial. Mas das palavras como pontas de iceberg, para usar uma imagem comum, mas clara. Como b\u00f3ia de gigantescas redes submersas, que ao serem vistas na madrugada dizem tudo sobre o que trazem no ventre, se peixes ou sarga\u00e7os.<\/p>\n<p>S\u00e3o como estrelas solit\u00e1rias antes das tormentas, que representam todo o c\u00e9u ainda encoberto, promessa do que vir\u00e1 na bonan\u00e7a. Palavras precisas, mas sem precis\u00e3o cir\u00fargica, j\u00e1 que a poesia n\u00e3o serve para retalhos, cortes superficiais ou profundos, sangramentos ou costuras. Mas com grandeza suficiente para resumir uma legi\u00e3o num gesto, uma civiliza\u00e7\u00e3o num jarro, uma guerra perdida ao longo de dez continentes, representada por um \u00fanico funeral, chorado por quem n\u00e3o deveria ter sobrevivido.<\/p>\n<p>Para o poeta que analisa poesia, a exegese tamb\u00e9m obedece a esse sum\u00e1rio de necessidades fundamentais. Basta uma frase, um par\u00e1grafo, uma cita\u00e7\u00e3o para Manuel Bandeira chegar ao n\u00facleo do poeta abordado em sua Apresenta\u00e7\u00e3o da poesia brasileira. O livro, relan\u00e7ado pela CosacNaify dentro das comemora\u00e7\u00f5es do ano dedicado a Bandeira, contem, em sua cara-metade, uma antologia primorosa dos principais poetas brasileiros desde a proto-Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Portuguesa at\u00e9 os movimentos de vanguarda como Modernismo, Concretismo e Praxis. Nascido cl\u00e1ssico, por ter sido criado por um Mestre que teve a paci\u00eancia de militar no grande varejo da cultura liter\u00e1ria do pa\u00eds, a obra abrange muito sem utilizar p\u00e1ginas em demasia. Por isso tornou-se refer\u00eancia de todos os manuais sobre o tema, j\u00e1 que, al\u00e9m dos movimentos liter\u00e1rios e dos seus principais destaques, o autor cuida tamb\u00e9m de incluir algumas poucas palavras dos seus pares, cr\u00edticos selecionados e obrigat\u00f3rios, que tamb\u00e9m se debru\u00e7aram sobre o que est\u00e1 sendo apresentado.<\/p>\n<p>A primorosa edi\u00e7\u00e3o teve quase que s\u00f3 qualidades, como o volume de grande esmero visual e gr\u00e1fico, a reprodu\u00e7\u00e3o cuidadosa de capas originais dos livros citados e um posf\u00e1cio decisivo de Otto Maria Carpeaux, que coloca na roda, num texto de erudita simplicidade e clareza, o mais importante poeta praticamente ignorado na antologia, ou seja, o pr\u00f3prio Manuel Bandeira. Mas cont\u00e9m alguns pecados, como destacar as boutades de Bandeira contra algumas vacas sagradas da poesia, no trecho de Alcides Villa\u00e7a na contracapa do livro. Dizer que Bandeira foi, al\u00e9m de &#8220;sutil e sugestivo&#8221; em &#8220;cada inspirado approach&#8221;, tamb\u00e9m &#8220;curto e grosso&#8221;, n\u00e3o leva em conta o essencial da obra. Pois n\u00e3o se trata de de elencar curiosidades &#8211; as den\u00fancias contra alguns c\u00e2nones &#8211; mas exatamente a de poder dizer muito com poucas palavras.<\/p>\n<p>Rastrear as origens da inspira\u00e7\u00e3o de grandes poetas, como Bandeira faz especialmente nos autores at\u00e9 o s\u00e9culo 19, \u00e9, mais do que provoca\u00e7\u00f5es, um sincero relato das ra\u00edzes de nossa literatura, que, como o pa\u00eds, come\u00e7ou com a clonagem e foi se desdobrando e ganhando originalidade com o tempo, n\u00e3o apenas com o tempo da na\u00e7\u00e3o, mas com o espa\u00e7o de vida dos autores, que come\u00e7am plagiando e acabam adquirindo voz pr\u00f3pria. Fica, portanto, incompleto o ju\u00edzo sugerido pela apresenta\u00e7\u00e3o de Villa\u00e7a, pois algumas coloca\u00e7\u00f5es fortes de Bandeira, desprovidos do seu contexto e pin\u00e7ados como a forma de atrair a aten\u00e7\u00e3o dos compradores do livro, acabam resvalando para a injusti\u00e7a. Ele disse realmente que alguns versos oswaldianos s\u00e3o de um romancista em f\u00e9rias, mas isso n\u00e3o mostra a grandeza atribu\u00edda por Bandeira ao mais representativo poeta modernista. O mesmo sobre Mario de Andrade, com quem Bandeira manteve extensa correspond\u00eancia por 22 anos e que na contracapa acaba sofrendo mutila\u00e7\u00e3o provocado por aspas s\u00fabitas.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda, agora na pr\u00f3pria obra, a ressalva do voo superficial sobre muitos autores e fases da poesia brasileira, o que \u00e9 de se esperar num manual que tenta abarcar tr\u00eas s\u00e9culos de produ\u00e7\u00e3o em mais de 200 p\u00e1ginas de an\u00e1lise e 250 de poemas selecionados. Isso nada tem a ver com a s\u00edntese celebrada no in\u00edcio desta resenha, j\u00e1 que o tiro certeiro do poeta sobre seus destaques jamais peca pela ligeireza ou superficialidade. O que falta \u00e9 mais paci\u00eancia para tratar muitos poetas com a mesma desenvoltura com que ele trata os de sua prefer\u00eancia. Mas isso seria pedir demais, j\u00e1 que, se deixou praticamente de lado Mario Quintana, dedicou-se com gosto a Cec\u00edlia Meirelles e Augusto Frederico Schmidt.<\/p>\n<p>Mas o forte da sua antologia s\u00e3o os primeiros tempos da saga po\u00e9tica brasileira, ou melhor, a \u00e9poca que vai do ber\u00e7o at\u00e9 os simbolistas. S\u00e3o p\u00e1ginas antol\u00f3gicas e esclarecedoras sobre os gongorizantes e \u00e1rcades, rom\u00e2nticos e parnasianos, num balan\u00e7o que sabe ser, \u00e0 luz desse enfoque das poucas palavras, minucioso e abrangente. Em cada item analisado, h\u00e1 sempre a contribui\u00e7\u00e3o oportuna tanto do exegeta brilhante, como do estudioso \u00e9tico, que cita os cr\u00edticos que ajudam a lan\u00e7ar luzes sobre os temas.<\/p>\n<p>Ler Manuel Bandeira, \u00e9 recuperar o gosto n\u00e3o s\u00f3 pela Hist\u00f3ria da literatura brasileira, mas tamb\u00e9m mergulhar em obras que fazem parte do nosso imagin\u00e1rio e que est\u00e1 dispersa na atual vida nacional, em que perdemos a pista dos nossos par\u00e2metros e ficamos esquecidos da nossa forma\u00e7\u00e3o, fruto talvez do excesso do consumo desses tipo de cultura em \u00e9pocas passadas.<\/p>\n<p>Quando Bandeira chega no modernismo, fica claro essa exaust\u00e3o verde-amarela do pensar o Brasil de todas as formas, de tentar desengessar o pa\u00eds de suas amarras, de propor sa\u00eddas para a percep\u00e7\u00e3o coletiva do que somos, de onde viemos e para onde vamos. Mesmo os autores que ficaram \u00e0 parte da febre, exibem na sua solid\u00e3o a postura expl\u00edcita de confronto ao que ocupava as mentes nacionais na primeira metade do s\u00e9culo vinte, pelo menos at\u00e9 os anos 1940. Eis a\u00ed a import\u00e2ncia desta obra, pois ao resgatar o sabor do Brasil e sua grande e secular poesia, Manuel Bandeira nos entrega uma obra arejada, sem os v\u00edcios t\u00e3o combatidos pelos modernistas como ele, e que possuem essa capacidade de servir de refer\u00eancia para a quantidade de informa\u00e7\u00f5es e arte que circula ao redor de palavras escolhidas.<\/p>\n<p>\u00c9 uma farta sementeira contida em alguns esbo\u00e7os, p\u00e1ginas, par\u00e1grafos e cap\u00edtulos. N\u00e3o que Bandeira nos empurre para o passado, ao contr\u00e1rio. Ele nos conquista para as ocupa\u00e7\u00f5es dos nosso grandes poetas, para a atualidade de recados que ganharam a perman\u00eancia, para a for\u00e7a de obras que foram geradas no ventre do pa\u00eds complicado.<\/p>\n<p>\u00c9 tocante revisitar n\u00e3o apenas o trabalho cr\u00edtico do poeta eterno da Evoca\u00e7\u00e3o do Recife e de tantos outros poemas inesquec\u00edveis. Mas tamb\u00e9m ouvir a voz novamente de Gon\u00e7alves Dias, Castro Alves, Alphonsus de Guimaraes, Olavo Bilac, Cec\u00edlia Meireles, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, entre tantos outros. Ficamos encantados com esse tesouro que redescobrimos. Temos assim a chance de lembrar o pa\u00eds que fomos e que, se a continuidade da poesia permitir, sempre seremos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Basta uma frase, um par\u00e1grafo, uma cita\u00e7\u00e3o para Manuel Bandeira chegar ao n\u00facleo do poeta abordado em sua Apresenta\u00e7\u00e3o da poesia brasileira. 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