{"id":3441,"date":"2012-02-11T16:45:46","date_gmt":"2012-02-11T18:45:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3441"},"modified":"2012-02-11T16:45:46","modified_gmt":"2012-02-11T18:45:46","slug":"the-help-e-the-flowers-of-war-o-cliche-funciona","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/the-help-e-the-flowers-of-war-o-cliche-funciona","title":{"rendered":"THE HELP E THE FLOWERS OF WAR: O CLICH\u00ca FUNCIONA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Dois filmes diferentes \u2013 The Flowers of War, do bom Yimou Zhang e The Help, da estreante Tate Taylor, ambos de 2011 &#8211; se identificam no uso do clich\u00ea, recurso quase obrigat\u00f3rio na narrativa da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, que depende do sucesso para sustentar sua car\u00edssima produ\u00e7\u00e3o. O clich\u00ea funciona e por isso \u00e9 t\u00e3o usado. Yimou Zhang, que j\u00e1 nos deus grandes filmes quando n\u00e3o estava a servi\u00e7o do imp\u00e9rio predador chin\u00eas e do lucro americano, oferece a cl\u00e1ssica situa\u00e7\u00e3o do sujeito meio bruto e desqualificado que se humaniza ao assumir um papel her\u00f3ico, o de salvar meninas adolescentes de um convento em Nanking na guerra contra o Jap\u00e3o nos anos 30. J\u00e1 vimos isso em v\u00e1rios filmes, inumer\u00e1veis, desde a \u00e9poca em que Robert Mitchum salvava Debora Kerr nos confins do Pac\u00edfico em Heaven Knows, Mr. Allison (1957).<\/p>\n<p>Ymou mostra como os japoneses s\u00e3o malvad\u00edssimos e os chineses essas flores que se cheiram, desde o soldado que se sacrifica at\u00e9 as prostitutas que adquirem virtude ao se entregarem para o inimigo e assim salvarem vidas. A China tocou o puteiro da carnificina no Tibet e em outros lugares, mas no seu cinema s\u00e3o essas preciosidades milenares que todos conhecem. O filme escorrega para o dramalh\u00e3o com cenas arrastadas de choro diante da presen\u00e7a nefasta dos inimigos, destacando as qualidades de car\u00e1ter dos protagonistas. Christian Bale, como sempre, convence no papel do maquiador profissional e falso padre. Ator de talento e gana, carrega o filme, com ajuda de excelentes coadjuvantes, como a bela o Ni Ni no papel da prostituta Yu Mo.<\/p>\n<p>Em The Help, todas as mulheres brancas do Mississipi dos anos 60 s\u00e3o horrorosas megeras falsas e coquetes que torturam suas exemplares, s\u00e1bias e magn\u00edficas empregadas dom\u00e9sticas negras \u2013 ou afro-americanas, como quer o vocabul\u00e1rio politicamente correta. S\u00f3 se salva a aspirante a escritora e jornalista Skeeter Phelan interpretada por Emma Stone. Viola Davis no papel da empregada Aibileen Clark e Octavia Spencer como Minny Jackson detonam protagonizando as fontes de uma hist\u00f3ria de crueldade e que vira best-seller. O filme \u00e9 uma esp\u00e9cie de Casa Grande e Senzala americana, pois os gringos enfim admitem que foram criados por suas escravas dom\u00e9sticas, como sempre soubemos por aqui desde Gilberto Freyre.<\/p>\n<p>Por que o clich\u00ea funciona? Porque \u00e9 preciso marcar no espectador as balizas da hist\u00f3ria para que n\u00e3o haja confus\u00e3o. V\u00e1rias vezes noto, em filmes de emergentes, o problema de saber exatamente quem estava fazendo o que, por falta exatamente dos recursos consagrados do cinema. Devem ser usados, mas n\u00e3o podem contaminar totalmente a narrativa como nessas duas obras. Somos levados \u00e0 emo\u00e7\u00e3o plantada, t\u00e3o evidente e expl\u00edcita que chega a ser desdram\u00e1tica, pois sabemos que produ\u00e7\u00e3o e a dire\u00e7\u00e3o est\u00e3o dizendo: agora chorem, trouxas. S\u00f3 um grande texto e uma grande interpreta\u00e7\u00e3o poder\u00e3o salvar o clich\u00ea, como acontece na antol\u00f3gica despedida de George Clooney da mulher em coma em os Descendentes, de 2011 e j\u00e1 abordado aqui.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma cena especial em Flores da Guerra, gra\u00e7as ao script. Vou te levar para casa depois que tudo isso acabar, diz o americano. Meu corpo n\u00e3o vai mais me pertencer a partir de amanh\u00e3 quando eu for distrair os japoneses, diz a prostituta. Leve-me para casa agora. E come\u00e7a a cena de amor e sexo. Maravilhoso. Mas o resto s\u00e3o o sangue espirrando por todo lado (cenas sensacionais de guerra), adolescentes sendo estupradas brutalmente e momentos po\u00e9ticos sussurrados. Clich\u00eas que fazem do filme um bom espet\u00e1culo, mas n\u00e3o sobrevivem a um olhar mais exigente.<\/p>\n<p>The Help escolhe um foco raro no cinema americano, o da vida dom\u00e9stica sendo protagonista da cidadania (normalmente \u00e9 a vida exterior que determina as a\u00e7\u00f5es e os sentimentos). Inova quando destaca as bab\u00e1s negras e seu universo cr\u00edtico e sofrido. Poderia ser um grande filme se evitasse ser t\u00e3o marcado em suas inten\u00e7\u00f5es de manipula\u00e7\u00e3o do espectador. \u00c9 dif\u00edcil sugerir sem mostrar com clareza. Isso quem sabe fazer s\u00e3o os g\u00eanios da S\u00e9tima Arte, que n\u00e3o existem mais. M\u00e1 not\u00edcia para os comerciantes: n\u00f3s n\u00e3o esquecemos e fomos formados pelos mestres. Seremos sempre assim duros na hora de ver, com par\u00e2metros de infinita compet\u00eancia, que colocam no chinelo o que se faz em massa hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Dois filmes diferentes \u2013 The Flowers of War, do bom Yimou Zhang e The Help, da estreante Tate Taylor, ambos de 2011 &#8211; se identificam no uso do clich\u00ea, recurso quase obrigat\u00f3rio na narrativa da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica, que depende do sucesso para sustentar sua car\u00edssima produ\u00e7\u00e3o. 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