{"id":3449,"date":"2012-02-11T16:50:49","date_gmt":"2012-02-11T18:50:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3449"},"modified":"2012-02-11T16:50:49","modified_gmt":"2012-02-11T18:50:49","slug":"choro-de-pedras","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/choro-de-pedras","title":{"rendered":"CHORO DE PEDRAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Sigo os russos do s\u00e9culo 19, a era do esplendor da literatura e das artes, t\u00e3o vilipendiada pelo s\u00e9culo 20, irm\u00e3o mais novo e cheio de inveja. Na seleta que tenho comentado aqui, lan\u00e7ado pela Martins Editora em 1964, seleciono mais duas obras primas. Uma delas \u00e9 de Tchirikov, \u201cFausto\u201d, sobre o casal pequeno burgu\u00eas que vive vida vegetativa , ele banc\u00e1rio viciado em jogo de cartas que odeia sua casa, ela a esposa ressentida e frustrada que lamenta a perda da juventude e da beleza. Mas ao quebrarem a rotina e irem ao teatro ver a pe\u00e7a de Charles Gounod sobre o homem que vendeu sua alma, eles recuperam o vi\u00e7o e resgatam a emo\u00e7\u00e3o de viver. Descobrem que s\u00e3o invejados pelos amigos e se flagram mais pr\u00f3ximos do que nunca.<\/p>\n<p>O teatro que reaproxima o casal por meio do drama e da m\u00fasica \u00e9 um dos fundamentos da civiliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode viver sem ele. H\u00e1 d\u00e9cadas que n\u00e3o vou a um, mas houve uma \u00e9poca em que eu viajava sem dinheiro e de carona s\u00f3 para assistir as grandes pe\u00e7as de S\u00e3o Paulo e Rio. Foi assim que vi Cemit\u00e9rio de Autom\u00f3veis, Gracias Se\u00f1or, O casamento do pequeno Burgu\u00eas, Mockinpott (que deu pr\u00eamio de revela\u00e7\u00e3o da APCA para nosso Miguel Ramos), entre outras preciosidades. Manter um teatro permanente, como t\u00ednhamos no s\u00e9culo 19 em Uruguaiana, o Carlos Gomes, que trazia espet\u00e1culos de Buenos Aires, Montevid\u00e9u e das capitais brasileiras e europ\u00e9ias, \u00e9 um luxo que hoje n\u00e3o dispomos. Por que?<\/p>\n<p>O outro conto tamb\u00e9m tem a ver com Uruguaiana, pois fala de via f\u00e9rrea. Assistir \u00e0 derrocada da estrada de ferro no pa\u00eds continental, ao contr\u00e1rio de outros pa\u00edses que transformaram o trem no mais moderno meio de transporte do mundo, \u00e9 de uma tristeza s\u00f3. Nossa cidade tinha o perfil definido pelos trilhos. Era nosso contato com o mundo, viajamos para terras importantes vendo pela janela o esplendor do pampa. Foi pela via f\u00e9rrea que conheci Porto Alegre e todas as outras cidades do caminho. Destru\u00edram tudo por burrice e trai\u00e7\u00e3o \u00e0 p\u00e1tria. Mas eu falava do conto O Sinal, de Garshin, autor que morreu cedo demais, com 33 anos.<\/p>\n<p>Ele conta a hist\u00f3ria de um campon\u00eas que foi pra a guerra e l\u00e1 exercia atividade subalterna de servir samovar para os oficiais. Pegou reumatismo nos rigores da campanha e n\u00e3o podia mais lavrar a terra. Saiu pela estrada de ferro afora atr\u00e1s de emprego e encontrou um veterano a quem servia no front, que lhe deu o emprego de guarda-trilhos. Uma cabana onde poderia plantar e viver com a mulher e enfrentar o inverno e pronto, l\u00e1 estava ele feliz e orgulhoso com sua lanterna e suas ferramentas. Quis fazer amizade com vizinho, que era muito revoltado e acabou cometendo um crime: arrancou um trilho na imin\u00eancia da chegada de um trem cheio de fam\u00edlias pobres.<\/p>\n<p>Nosso her\u00f3i foi para o meio da estrada e como n\u00e3o tinha jeito de avisar a tempo, cortou profundamente o bra\u00e7o e embebeu um pano de seu sangue e o colocou na ponta de um mastro como bandeira. O maquinista viu e freou. Como saiu muito sangue, ele desmaiou no meio da sua a\u00e7\u00e3o, mas a bandeira foi assumida pelo pr\u00f3prio criminoso. \u201cAmarrem-me. Eu arranquei um trilho\u201d, disse o culpado.<\/p>\n<p>Grande literatura. Faz chorar as pedras.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Sigo os russos do s\u00e9culo 19, a era do esplendor da literatura e das artes, t\u00e3o vilipendiada pelo s\u00e9culo 20, irm\u00e3o mais novo e cheio de inveja. 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