{"id":346,"date":"2009-12-10T12:56:01","date_gmt":"2009-12-10T14:56:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=346"},"modified":"2009-12-22T00:29:48","modified_gmt":"2009-12-22T02:29:48","slug":"raymundo-faoro-e-o-anacronismo-tres-ensaios-exemplares","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/raymundo-faoro-e-o-anacronismo-tres-ensaios-exemplares","title":{"rendered":"RAYMUNDO FAORO E O ANACRONISMO: TR\u00caS ENSAIOS EXEMPLARES"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Anacronismo \u00e9 a palavra chave dos tr\u00eas ensaios de Raymundo Faoro, enfeixados num s\u00f3 volume publicado pela Atica em 1994 e que leva o t\u00edtulo de um deles Existe um pensamento pol\u00edtico brasileiro? Neste texto principal, o Mestre analisa a osmose entre Portugal e Brasil nas a\u00e7\u00f5es do poder, consolidadas num acervo pragm\u00e1tico de princ\u00edpios que se adaptam \u00e0s circunst\u00e2ncias. O segundo \u00e9 A Moderniza\u00e7\u00e3o Nacional, onde aborda as diferen\u00e7as entre modernidade, a evolu\u00e7\u00e3o social equilibrada e dentro de um cronograma &#8220;natural&#8221;, e a moderniza\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o as interven\u00e7\u00f5es feitas aos arranques, na base do f\u00f3rceps e que deixam um rastro de ruinas. E o terceiro \u00e9 A Ponte Suspensa, sobre a a natureza e a influ\u00eancia na vida brasileira da biografia que Joaquim Nabuco fez sobre seu pai, &#8220;Um estadista no Imp\u00e9rio&#8221;, lan\u00e7ado no final do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Anacronismo vem do grego e significa &#8220;contra o tempo&#8221;. No caso dos ensaios citados, \u00e9 a sobreviv\u00eancia de esquemas ultrapassados no presente como fonte das trag\u00e9dias nacionais. O que deveria estar morto e enterrado continua dando as cartas, pois o poder n\u00e3o se transforma com as press\u00f5es da realidade, antes faz concess\u00f5es para se manter intacto. Isso provoca um c\u00edrculo vicioso, um tempo c\u00edclico que volta sempre ao ponto de partida, sem jamais ir em frente, amarrando o pa\u00eds a anacronismos e asfixiando a evolu\u00e7\u00e3o social. Como acontece esse fen\u00f4meno, na vis\u00e3o de Faoro? Por meio do pensamento pol\u00edtico, que \u00e9 uma praxis, \u00e9 a pr\u00f3pria pol\u00edtica, diferente da filosofia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Por exemplo, o liberalismo. Faoro coloca o paradigma ingl\u00eas e americano em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 gest\u00e3o do Marqu\u00eas de Pombal, no final do s\u00e9culo 18, que, aproveitando o grande terremoto em Lisboa, desengessou Portugal do Absolutismo sem abrir m\u00e3o dele. No lugar da livrre circula\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias e da desenvoltura dos atores sociais por meio da representa\u00e7\u00e3o e da a\u00e7\u00e3o, tivemos a continuidade do realismo, constitucional s\u00f3 na apar\u00eancia, com a preval\u00eancia do Rei sobre as Cortes, que existiam pr\u00f3-forma e poucas vezes eram convocadas &#8211; e quando isso acontecia, era para reafirmar a vopntade do trono. O processo se intensificou at\u00e9 a ruptura na Revolu\u00e7\u00e3o do Porto em 1820, em que Portugal, inconformado com a transfer\u00eancia do Reino para o Brasil, exigiu a volta de suas prerrogativas.<\/p>\n<p>O pensamento pol\u00edtico que se desenvolveu nesse per\u00edodo, segundo Faoro, acabou marcando definitivamente o pensamento pol\u00edtico nos dois lados do Atl\u00e2ntico. A partir dessa situa\u00e7\u00e3o, come\u00e7aram a conviver dois tipos de for\u00e7as: o liberalismo consentido e org\u00e2nico do Rei e seus \u00e1ulicos, e um liberalismo subeterr\u00e2neo, potencial, que jamais se imp\u00f4s e que a toda hora ressurge com grande poder de desarticula\u00e7\u00e3o, obrigando o poder a rearrumar a casa para continuar imperando. Essa pulsa\u00e7\u00e3o doentia do projeto pol\u00edtico fracassado, alimentado pelas circunst\u00e2ncias reais, confronta ciciclamente a artimanha oficial e faz com que o pa\u00eds continue marcando passo, sem jamais chegar a um desenlace.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o pessimista do Brasil, de uma obra que n\u00e3o reconhece aqui a exist\u00eancia de um verdadeiro capitalismo, quando nem temos uma sociedade de classes cl\u00e1ssica, j\u00e1 que o topo da pir\u00e2mide \u00e9 ocupada sempre pelo estamento pol\u00edtico e burocr\u00e1tico, tem grande margem de acerto, apesar de ser contestada por outras correntes do pensamento brasileiro. Os marxistas n\u00e3o toleram esse foco weberiano da an\u00e1lise de Faoro, j\u00e1 que eles acreditam na sociedade de classes tradicional e acham at\u00e9 que a Revolu\u00e7\u00e3o de 30 foi uma &#8220;revolu\u00e7\u00e3o burguesa&#8221; e que os oper\u00e1rios e camponeses, como aconteceu na R\u00fassia, deveriam tomar o poder. Mas o que vimos com Lula, num processo posterior \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o da tese de Faoro, \u00e9 que o pretenso oper\u00e1rio virou parte do estamento e tudo continuou como antes.<\/p>\n<p>Vejo o seguinte furo: Faoro faz tabula rasa da Era Vargas, colocando-a ao lado, em sintonia com sua demoli\u00e7\u00e3o, 1964. N\u00e3o poderia haver rela\u00e7\u00e3o em 1930 e 1964, ou entre 1937 e 64, como sustenta Faoro, j\u00e1 que 37 foi a implanta\u00e7\u00e3o de uma economia que viabilizou o pa\u00eds soberano (vit\u00f3ria colhida mais tarde por JK) enquanto 64 foi exatamente o contr\u00e1rio. Ambos se parecem pelas interven\u00e7\u00f5es do Estado, mas os objetivos se apartam radicalmente. Mas essa \u00e9 a vis\u00e3o que tenho hoje, lendo o mestre e sua brilhante an\u00e1lise do pensamento pol\u00edtico brasileiro.<\/p>\n<p>O segundo ensaio do livro, ou Segunda Parte, &#8220;A Moderniza\u00e7\u00e3o Nacional&#8221;, aprofunda o mesmo tom de lamento. Nossa moderniza\u00e7\u00e3o \u00e9 a anti-modernidade. Ou seja, as interven\u00e7\u00f5es estatais para queimar etapas e fazer do Brasil uma na\u00e7\u00e3o desenvolvida, como quis Vargas e JK, ou uma pot\u00eancia, como quiseram os militares em 1964, acaba gerando inseguran\u00e7a e ruina por n\u00e3o se sustentar em bases s\u00f3lidas. S\u00e3o fases que sofrem de ultrapassagem permanente do tempo, como aconteceu nos planos econ\u00f4micos da chamada Nova Rep\u00fablica na \u00e9poca de Sarney, citados por Faoro como exempolo desses arranques perniciosos (outro foi a implanta\u00e7\u00e3o do sistema ferrovi\u00e1rio no tempo do Imp\u00e9rio e outro o Encilhamento, a grande festa financiera da Primeira Rep\u00fablica). No lugar de gerar o que se chama hoje de desenvolvimento sustent\u00e1vel (que n\u00e3o era moda quando o livro foi escrito), opta-se pelas m\u00e1gicas salvadoras. Vemos isso na atual febre do pr\u00e9-sal, panac\u00e9ia para todos os nossos pronblemas.<\/p>\n<p>Na Terceira Parte, &#8220;A Ponte Suspensa&#8221;, Faoro coloca o livro de Nabuco sobre seu pai como exemplo dessa falta de sintonia entre uma base podre e uma supperestrutura equivocada. No caso, o perfil dos estadistas de inspira\u00e7\u00e3o francesa, como Nabuco e o pai, e que refor\u00e7am a necessidade de um poder sem povo, mas de apar\u00eancia moderna. Resgatar a perman\u00eancia das atitudes e pensamentos do Segundo Imp\u00e9rio, como faz Nabuco, tanto nessa biografia quanto no seu cl\u00e1ssico &#8220;O Abolicionismo&#8221;, segundo Faoro, acaba infletindo sobre o pensamento pol\u00edtico da Rep\u00fablica. O anacronismo \u00e9 o alerta de Faoro, ao explicar que a excel\u00eancia do estilo esconde no fundo um projeto de poder que pretende se manter eternamente assentado sob mesmas colunas do passado.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a s\u00edntese, a v\u00f4o de p\u00e1ssaro, que fa\u00e7o dessa leitura gratificante do Mestre Raymundo Faoro, que sempre nos torna melhores quando o lemos. Ele nos desperta e, muitas vezes, nos obriga a contest\u00e1-lo, n\u00e3o porque tenha dito algo sem consist\u00eancia, mas porque sua argumenta\u00e7\u00e3o s\u00f3lida e brilhante pode nos contrariar, e revidar \u00e9 sempre um esfor\u00e7o que contribui para a auto-supera\u00e7\u00e3o. Somos n\u00f3s, cidad\u00e3os brasileiros, estudantes diante dos Mestres: assim , aprendemos a lidar com a produ\u00e7\u00e3o de pensamento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anacronismo \u00e9 a palavra chave dos tr\u00eas ensaios de Raymundo Faoro, enfeixados num s\u00f3 volume publicado pela Atica em 1994 e que leva o t\u00edtulo de um deles Existe um pensamento pol\u00edtico brasileiro? Neste texto principal, o Mestre analisa a osmose entre Portugal e Brasil nas a\u00e7\u00f5es do poder, consolidadas num acervo pragm\u00e1tico de princ\u00edpios que se adaptam \u00e0s circunst\u00e2ncias. O segundo \u00e9 A Moderniza\u00e7\u00e3o Nacional, onde aborda as diferen\u00e7as entre modernidade, a evolu\u00e7\u00e3o social equilibrada e dentro de um cronograma &#8220;natural&#8221;, e a moderniza\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o as interven\u00e7\u00f5es feitas aos arranques, na base do f\u00f3rceps e que deixam um rastro de ruinas. 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