{"id":3464,"date":"2012-02-22T16:36:13","date_gmt":"2012-02-22T18:36:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3464"},"modified":"2012-02-22T16:36:13","modified_gmt":"2012-02-22T18:36:13","slug":"gary-oldman-como-espiao-o-ator-que-sabe-demais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/gary-oldman-como-espiao-o-ator-que-sabe-demais","title":{"rendered":"GARY OLDMAN COMO ESPI\u00c3O: O ATOR QUE SABE DEMAIS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Cinema \u00e9 para ser visto, n\u00e3o analisado. \u00c9 como um documento de fonte prim\u00e1ria: voc\u00ea v\u00ea apenas o que est\u00e1 colocado ali para poder saber o que ele registra de fato. No fundo, n\u00e3o existe conte\u00fado em nenhum lugar, apenas linguagem. Vamos pegar esse admir\u00e1vel filme <strong>Tinker Tailor Soldier spy<\/strong> (O Espi\u00e3o que Sabia Demais, diz o t\u00edtulo brasileiro, que sabe de menos), dirigido por Tomas Alfredson e com roteiro de Bridget O&#8217;Connor e Peter Straughan, baseado em novela de John Le Carr\u00e9, de 1974.<\/p>\n<p>Gary Oldman, o espi\u00e3o militante com talento para a costura e a funilaria, como sugere o t\u00edtulo original, que tamb\u00e9m \u00e9 uma refer\u00eancia aos c\u00f3digos de tratamento entre os profissionais da informa\u00e7\u00e3o, comp\u00f5e o design imut\u00e1vel de rosto, corpo, postura e roupas que \u00e9 uma s\u00edntese de todas as suas emo\u00e7\u00f5es, expectativas, determina\u00e7\u00f5es e surpresas. Como ele faz isso?<\/p>\n<p>Costumo dizer que n\u00e3o existe reconstitui\u00e7\u00e3o de \u00e9poca e sim a disposi\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio em fun\u00e7\u00e3o da narrativa. O filme \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o de elementos anal\u00f3gicos num mundo impens\u00e1vel hoje, sem a interfer\u00eancia radical da digitaliza\u00e7\u00e3o. Procurar o nome do agente duplo infiltrado num ag\u00eancia ultra secreta brit\u00e2nica pesquisando arquivos de papel em arm\u00e1rios de metal, gravando conversas naquelas fitas gigantescas por meio de esten\u00f3grafas diligentes parece ser um surto de imagina\u00e7\u00e3o de um mundo morto. Mas ele funcionava assim e n\u00e3o faz muito tempo. Deixou in\u00fameras pistas, seguidas pelo filme.<\/p>\n<p>Gary Oldman, meu atual candidato ao Oscar de melhor ator 2012, est\u00e1 bem cercado do que h\u00e1 de melhor: o veterano genial John Hurt, que recentemente detonou em <em>Melancolia<\/em>, de Lars Von Trier, quando fez o ex-marido cercado de amantes gordinhas, todas com o mesmo nome, e que neste assume a cadeira de chefe dos espi\u00f5es; Colin Firth, que sempre est\u00e1 bem mesmo num filme errado como <em>O Discurso do Rei<\/em>, agora num papel decisivo ; Toby Jones , que fez um Truman Capote magn\u00edfico mas foi sufocado pelo outro Capote do oscarizado Phillipe Seymor Hoffmann, e que aqui faz um asqueroso burocrata da espionagem com rabo preso; e o jovem ator Benedict Cumberbatch que interpreta um calado e convincente Peter Guillam, o bra\u00e7o direito de Smiley, o espi\u00e3o aposentado que volta \u00e0 cena para decifrar o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Smiley \u00e9, claro, Oldman. Como ele faz isso? Come\u00e7a com as linhas do rosto, sempre as mesmas. N\u00e3o s\u00e3o apenas rugas, s\u00e3o roteiros definidos de uma soma de express\u00f5es, mascaradas numa s\u00f3. Com essa persona ele enfrenta seus inimigos com a frieza de um expert, a sabedoria de um paciente ca\u00e7ador, o tiroc\u00ednio de um veterano. Ele encara, desconfia, sofre, se surpreende, amea\u00e7a, vence, ironiza, tudo com essas linhas do rosto que comp\u00f4s uma vez s\u00f3 e chega. Trata-se de um trabalho de g\u00eanio, n\u00e3o da maquiagem, mas da concentra\u00e7\u00e3o, mat\u00e9ria prima da interpreta\u00e7\u00e3o. Ao redor desse rosto, como moldura, o cabelo aprumado para jamais sair do lugar. Essa imobilidade capilar representa a forma imut\u00e1vel do investigador sem cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas tem mais. Ele usa sempre o mesmo tipo de terno e gravata, o mesmo capote, o cl\u00e1ssico gabardine, a pasta de couro, o andar com um tranco meio sonso. Seu andar faz parte da paisagem, \u00e9 um dos elementos dessa disposi\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio a que me referi acima. Quando tira a roupa para andar um pouco no clube, ele mant\u00e9m \u00e0 tona a rotina dos \u00f3culos muito largos, que amplia seu olhar de coruja nos interlocutores que aos poucos se desarmam e se apavoram. Smiley \u00e9 o \u00e2ncora da hist\u00f3ria que se apresenta complicada, mas que no fundo \u00e9 simples, trata-se de um corte na idiotia humana cacifada pelas pot\u00eancias.<\/p>\n<p>O filme foi acusado de confuso porque espica\u00e7a a pregui\u00e7a de ver. Precisamos abrir os olhos para o cinema e n\u00e3o esperar entretenimento ou qualquer outra baboseira. \u00c9 Arte, n\u00e3o brincadeira. Os atores se matam para mostrar o que sabem. O espectador precisa estar \u00e0 altura desses monstros (os que encarnam os personagens, como Oldman) ou cavaleiros (os que conduzem o personagem pela m\u00e3o, como Colin Firth). Mantenha a postura na cadeira. Cinema n\u00e3o \u00e9 para passar o tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Cinema \u00e9 para ser visto, n\u00e3o analisado. \u00c9 como um documento de fonte prim\u00e1ria: voc\u00ea v\u00ea apenas o que est\u00e1 colocado ali para poder saber o que ele registra de fato. No fundo, n\u00e3o existe conte\u00fado em nenhum lugar, apenas linguagem. 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