{"id":3466,"date":"2012-02-23T12:14:53","date_gmt":"2012-02-23T14:14:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3466"},"modified":"2012-02-23T12:14:53","modified_gmt":"2012-02-23T14:14:53","slug":"scorsese-e-a-segunda-morte-do-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/scorsese-e-a-segunda-morte-do-cinema","title":{"rendered":"SCORSESE E A SEGUNDA MORTE DO CINEMA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Desprovido de imagina\u00e7\u00e3o, Martin Scorsese se notabilizou por filmes apelativos e violentos, conhecidos por todos. Cavou uma grande margem entre sua obra e sua ambi\u00e7\u00e3o, pois sempre quis ser o maior cineasta do seu tempo. Como jamais vai ser, inventou uma hist\u00f3ria do cinema em que ele \u00e9 o receptor, o herdeiro. Inventou seus predecessores, como disse uma vez Borges dos escritores e colocou-se como estu\u00e1rio do g\u00eanio da S\u00e9tima Arte.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o sabe nem dirigir atores \u2013 chegou a desperdi\u00e7ar Matt Damon depois de inventar o canastr\u00e3o Robert de Niro \u2013 seu passivo ficou expl\u00edcito demais quando fez um balan\u00e7o e notou que n\u00e3o tinha criado nada \u201cencantador\u201d. Sua boa biografia de Howard Hughes com Leonardo de Caprio n\u00e3o \u00e9 suficiente diante da avalanche de coisas ruins que fez. Por isso resolveu dirigir <strong>A Inven\u00e7\u00e3o de Hugo Cabret<\/strong> (2011), uma falsa hist\u00f3ria sobre a origem da fic\u00e7\u00e3o no cinema, encarnada na vida do cineasta George M\u00e8lies, m\u00e1gico e relojoeiro.<\/p>\n<p>Como o sujeito desastrado que resolve desmontar o mecanismo para saber o que tem dentro e como funciona, Scorsese filma as entranhas das m\u00e1quinas que deslumbram as pessoas, como os brinquedos, os rel\u00f3gios ou os rob\u00f4s. Baseado no livro de Brian Selznick, usou exatamente o mesmo mote do filme T\u00e3o Forte e T\u00e3o Perto, tamb\u00e9m de 2011, por sua vez ancorado em livro de Jonathan Safran Foer, sobre o garoto que perde o pai e tenta decifrar a mensagem deixada como heran\u00e7a por meio de uma charada \u2013 a busca de uma chave perdida que faria funcionar um rob\u00f4. N\u00e3o sei quem fez antes, mas o mote \u00e9 id\u00eantico,apesar dos filmes diferentes, mais um sinal de que existe falta de id\u00e9ias originais hoje em Hollywood.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que Scorsese nos aborrece com o longo dramalh\u00e3o de um \u00f3rf\u00e3o chupado das hist\u00f3rias de Dickens que resgata a gl\u00f3ria do cineasta ca\u00eddo em desgra\u00e7a. \u00c9 de uma simplicidade rastaq\u00fcera. A malvada I Guerra acabou com a magia dos primeiros anos her\u00f3icos do cinema, j\u00e1 que o p\u00fablico queria ent\u00e3o \u201crealidade\u201d. Nada mais falso, pois o cinema se notabilizou na imagina\u00e7\u00e3o exatamente quando o pau comeu no mundo. Mas Scorsese faz tudo \u00e0 sua maneira, falsa.<\/p>\n<p>Os pobres atores mirins, o casal Asa Butterfield e Chlo\u00eb Grace Moretz, fazem uma performance asm\u00e1tica, pois \u00e9 com a respira\u00e7\u00e3o truncada que eles demonstram emo\u00e7\u00e3o, certamente orientados pelo diretor, que n\u00e3o \u00e9 do ramo. Vemos ent\u00e3o sorrisos fora de ordem, suspiros profundos, olhares significativos de teatro amador, entre outras barbaridades. Como o chamado Marty (para os \u00edntimos) n\u00e3o consegue acabar com tudo, salva-se Ben Kingsley, no papel de M\u00e8lies, e Sacha Baron Cohen, no de Inspetor da esta\u00e7\u00e3o de trem, mas eles n\u00e3o salvam o filme, que naufraga.<\/p>\n<p>Feito sob encomenda para celebrar a si mesmo, sob o \u00e1libi que est\u00e1 homenageado a S\u00e9tima Arte, Scorsese em Hugo Cabret preenche as necessidades de lugar comum da Academia e foi indicado para in\u00fameros Oscar. N\u00e3o vale nenhum. O rob\u00f4 que desenha a Lua atingida por um b\u00f3lido, como no filme de M\u00e8lies que sobreviveu, faz parte de uma obviedade metaf\u00f3rica de fazer d\u00f3. O \u00f3rf\u00e3o foge se dependurando no rel\u00f3gio da Torre como Harold Lloyd, na manjada cena de todos os balan\u00e7os da hist\u00f3ria do cinema. O contraponto entre livros e filmes exposto como algo empolgante, quando n\u00e3o passa de lugar comum. O desencanto do velho cineasta com a malvadeza do mundo, ele que era t\u00e3o m\u00e1gico e ilusionista. Ora&#8230;<\/p>\n<p>A homenagem final ao artista que tinha sido dado como morto na I Guerra imita a do filme Chaplin de Richard Attenborough. \u00c9 o mesmo cl\u00edmax, a mesma cena, com as mesmas express\u00f5es. Marty n\u00e3o tem vergonha de chupar, pois \u00e9 desprovido de emo\u00e7\u00f5es. Sabe que existem e procura ger\u00e1-las, mas n\u00e3o consegue. Seu alcance \u00e9 de um jab do touro indom\u00e1vel ou um surto do motorista de Taxi Driver, ou um clima mal copiado de Coppola de Os Bons Companheiros.<\/p>\n<p>Gosto de desancar Scorsese porque ele \u00e9 o gr\u00e3o sacerdote de uma religi\u00e3o, a de eternizar o presente e ficar a cavaleiro do passado, como se este tivesse existido s\u00f3 para alimentar o ego dos fals\u00e1rios de hoje. \u00c9 poss\u00edvel que leve um monte estatuetas. N\u00e3o deveria, tem concorrentes que o deixam no chinelo. O cinema foi assassinado a primeira vez com o macartismo e hoje com os desvirtuadores de sua hist\u00f3ria. Mas ele ressuscita sempre que um cineasta de primeiro time consegue fazer um filme.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Desprovido de imagina\u00e7\u00e3o, Martin Scorsese se notabilizou por filmes apelativos e violentos, conhecidos por todos. 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