{"id":3468,"date":"2012-02-26T07:36:57","date_gmt":"2012-02-26T10:36:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3468"},"modified":"2012-02-26T07:36:57","modified_gmt":"2012-02-26T10:36:57","slug":"tintin-uma-antologia-do-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/tintin-uma-antologia-do-cinema","title":{"rendered":"TINTIN: UMA ANTOLOGIA DO CINEMA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Para justificar o t\u00edtulo, vou citar as cenas de filmes cl\u00e1ssicos inclu\u00eddas em <strong>As Aventuras de Tintin<\/strong> (2011), de Steven Spielberg, para ningu\u00e9m achar que \u00e9 exagero. O pequeno avi\u00e3o que tenta bater nas pessoas, de <em>Intriga Internacional<\/em> de Hitchcock, a dupla de aventureiros do deserto que chega na cidade do oriente \u00e0 beira mar, de <em>Lawrence da Arabia<\/em>, a persegui\u00e7\u00e3o por cima dos telhados do amigo seq\u00fcestrado, de <em>O garoto<\/em>, de Chaplin, a busca de algo precioso no mercado de pulgas, como em Charada, de Stanley Donen, as lutas de capa e espada protagonizadas desde Douglas Fairbanks at\u00e9 Stewart Granger, a alucinada corrida atr\u00e1s dos fac\u00ednoras de Em Busca da Arca Perdida , do pr\u00f3prio Spielberg, a busca do tesouro por meio de uma charada decifrada pelo palimpsesto (o texto oculto no pergaminho que s\u00f3 se revela no fogo), de tantos filmes baseados no conto famoso de Edgard Alan Poe, o Crime da Rua Morgue. Est\u00e1 de bom tamanho? Falta o principal.<\/p>\n<p>Spielberg nasceu em 1948 e portanto posso dizer, j\u00e1 que fa\u00e7o parte exatamente da mesma gera\u00e7\u00e3o, como \u00e9 que se manifestava nossa paix\u00e3o pelo cinema. Primeiro, era uma obriga\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o vai jogar futebol? perguntavam escandalizados. N\u00e3o, eu respondia, eu TENHO que ir ao cinema. E cinema era domingo, pois o resto da semana era dedicado aos estudos. Qual o card\u00e1pio? Come\u00e7avam \u00e0s dez da manh\u00e3 com desenhos de Tom e Jerry e faroestes de Roy Rogers, Gene Autry e Rocky Lane. \u00c0 tarde, era a vez de um filme de aventura, pirata normalmente, e uma com\u00e9dia, quase obrigatoriamente uma chanchada brasileira, mas havia tamb\u00e9m muito Gordo e Magro, Fernandel (comediante franc\u00eas), Cantinflas, etc. Era uma sess\u00e3o dupla, muito valorizada.<\/p>\n<p>\u00c0s quatro da tarde vinha o fil\u00e9 da programa\u00e7\u00e3o, os grandes faroestes, com John Wayne, Victor Macture, Henry Fonda. Havia tamb\u00e9m os de guerra e os \u00e9picos b\u00edblicos de Cecil B de Mille, mas isso era mais para a sess\u00e3o das seis, que tamb\u00e9m freq\u00fcent\u00e1vamos, e a das oito, s\u00f3 dos adultos. Mas o que quero destacar \u00e9 um detalhe importante na sess\u00e3o do in\u00edcio da tarde, \u00e0s 13 horas, quando, ante dos filmes, passavam os seriados. Sim, seriados de fic\u00e7\u00e3o e aventura, de Capit\u00e3o Marvel entre outros. Cada domingo havia um epis\u00f3dio, que durava meia hora, e acabava com grande perigo para o mocinho, salvo na sess\u00e3o da semana seguinte. Pois bem, Tintin \u00e9 a soma de toda essa programa\u00e7\u00e3o. \u00c9 seriado (promete continua\u00e7\u00e3o), \u00e9 pirata, aventura, a\u00e7\u00e3o, com\u00e9dia, desenho etc.<\/p>\n<p>Qual a diferen\u00e7a entre essa soma\/s\u00edntese da S\u00e9tima Arte costurada num trabalho primoroso de anima\u00e7\u00e3o, dos outros, que tentam ser encantadores com foco na Hist\u00f3ria do cinema e que n\u00e3o funcionam, como acontece com Hugo, de Scorsese? \u00c9 porque em Spielberg o amor pelo cinema \u00e9 leg\u00edtimo e est\u00e1 fundado em quil\u00f4metros de sess\u00f5es e n\u00e3o na cerebra\u00e7\u00e3o apenas. Gostamos dos filmes e pensamos conforme o nosso gosto. N\u00e3o h\u00e1 defasagem entre amor e racioc\u00ednio, muito menos mistifica\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, a turma do Spielberg, que podemos incluir todos nossos camaradas da fronteira enlouquecidos por cinema, n\u00e3o fomos essencialmente &#8220;especialistas&#8221;. Tomamos conhecimento da vanguarda e de grandes outros cl\u00e1ssicos. Mas \u00e9ramos apenas on\u00edvoros. Gost\u00e1vamos de tudo. Nossa mitologia \u00e9 mais ampla.<\/p>\n<p>E tudo \u00e9 o que \u00e9 Tintin, visto por Spielberg, inclusive desenho. No in\u00edcio do filme, h\u00e1 um toque magistral de metalinguagem: um desenhista pinta na pra\u00e7a um rosto do Tintin do filme e o que aparece no quadro? O personagem desenhado de Herg\u00e9. Acho que captei a sua ess\u00eancia diz o pintor. Genial. O \u201cverdadeiro\u201d Tintin \u00e9 o que vemos na anima\u00e7\u00e3o (pelo menos essa \u00e9 a vers\u00e3o de Spielberg). Que, por sua vez, \u00e9 representado pelo outro Tintin, o que n\u00f3s conhecemos das hist\u00f3rias em quadrinhos. Todos sabem que o \u201cverdadeiro\u201d Tintin \u00e9 esse desenhado e n\u00e3o o que existe na anima\u00e7\u00e3o. Mas quem pode com o cinema, a arte sempre voltada para si mesma?<\/p>\n<p>Se gostei? Ainda pergunta? Saltei da cadeira, cara. Fui em busca do tesouro de Hackham o Terr\u00edvel e lutei junto com o capit\u00e3o Haddock. Vibrei com Milu e o rep\u00f3rter que faz cole\u00e7\u00f5es de antigas m\u00e1quinas de escrever em seu apartamento. O rep\u00f3rter que todos sonham ser, que vive suas aventuras. No fundo, o rep\u00f3rter \u00e9 o criador que segue as pegadas do seu genial personagem. Nesse rastro seguimos decifrando pergaminhos, n\u00f3s os loucos por cinema. Por isso digo: Spielberg sabe o que faz, acerta sempre. \u00c9 o que temos de melhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Para justificar o t\u00edtulo, vou citar as cenas de filmes cl\u00e1ssicos inclu\u00eddas em As Aventuras de Tintin (2011), de Steven Spielberg, para ningu\u00e9m achar que \u00e9 exagero. 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