{"id":3473,"date":"2012-03-06T18:08:23","date_gmt":"2012-03-06T21:08:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3473"},"modified":"2012-03-06T18:08:23","modified_gmt":"2012-03-06T21:08:23","slug":"mais-russos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/mais-russos","title":{"rendered":"MAIS RUSSOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Insisto no tema porque a antologia que estou lendo prazerosamente de contos russos tem in\u00fameras revela\u00e7\u00f5es. A come\u00e7ar por diversos autores que eu desconhecia e que s\u00e3o importantes, como B\u00fanin (1870-1944). No conto A Gl\u00f3ria ele fala do fasc\u00ednio que seu povo tem pelos patifes. Uma das coisas que me impressionam na realidade da R\u00fassia da virada do s\u00e9culo 19 para o 20 s\u00e3o as sintonias com o Brasil profundo. J\u00e1 fiz uma resenha intitulada Tolst\u00f3i no Brazils\u00e3o Tzarista. Mas n\u00e3o \u00e9 por isso que essa literatura se imp\u00f5e e sim pela qualidade dos seus narradores.<\/p>\n<p>No caso do conto de B\u00fanin, ele aborda os enganadores seguidos por multid\u00f5es apenas pelo fato de exibirem um comportamento bizarro confundido com sagrado. B\u00fanin sabia abordar o povo e era um dos escritores favoritos de um especialista nesse assunto, M\u00e1ximo Gorki, tema de cr\u00f4nica recente aqui neste espa\u00e7o. O mujique que gostava de tomar litros de ch\u00e1 a\u00e7ucarado e que nem sabia ler cartas, mas era convocado para consultas de todo o tipo; o limpador de latrinas que cantava em eventos religiosos e sociais e que vivia recebendo presentes, doces e dinheiro; o campon\u00eas que decidiu ser um pregador e saiu em andrajos e causou grande impress\u00e3o ao mugir em missas e funerais; o porteiro que um dia resolveu profetizar e que causava grande venera\u00e7\u00e3o popular; e o homem que dava cambalhotas nas peregrina\u00e7\u00f5es provocando alvoro\u00e7o.Todos s\u00e3o personagens dessa galeria impressionante.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembra alguma coisa? Ligamos a televis\u00e3o e l\u00e1 vemos os falsos profetas a catequizar o povar\u00e9u e a cantar (s\u00f3 faltam as cambalhotas); os catequistas que vivem olhando para as c\u00e2maras dando conselhos fajutos de auto-ajuda; os pol\u00edticos que falam em \u00e9tica, democracia e direitos humanos e que s\u00e3o flagrados com a boca na botija. Vivemos num ambiente parecido, favor\u00e1vel \u00e0 mistifica\u00e7\u00e3o. Engana-se o povo com todo tipo de expediente. Nada mais atual do que esse conto de B\u00fanin.<\/p>\n<p>Em outro conto, O Grande Slam, sobre um grupo de quatro pessoas que se reuniam metodicamente para jogar cartas, de autoria de Andreiev (1871- 1919), o texto nos leva para um desfecho tr\u00e1gico depois de descrever uma rotina que deveria ser de lazer. Mas \u00e9 apenas formalidade, vazio de vida, pessoas que ficaram pr\u00f3ximas durante anos e n\u00e3o sabiam nada uma das outras, nem onde moravam. O autor descreve magistralmente as contradi\u00e7\u00f5es do comportamento social falso, quando, por exemplo, a mulher do grupo se atrapalha e \u00e9 aparentemente tolerada pelos seus parceiros de jogo. Eles fazem as honras da masculinidade para os caprichos da mulher, mas n\u00e3o escondem a irrita\u00e7\u00e3o por ela ser t\u00e3o desastrada.<\/p>\n<p>O conto tamb\u00e9m \u00e9 um toque sobre o objetivo principal do evento, que seria conseguir o grande lance, o que jamais ocorre, pois a expectativa, a ansiedade e a frustra\u00e7\u00e3o impedem que um dos jogadores, card\u00edaco, chegue ao final. Conviver com o corpo inerte em cima da mesa onde se distribu\u00edam as cartas \u00e9 um detalhe sinistro deste brilhante conto de mais um autor russo, que nos deslumbra pela sua capacidade de exercer um of\u00edcio t\u00e3o complicado como \u00e9 a literatura.<\/p>\n<p>. Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Insisto no tema porque a antologia que estou lendo prazerosamente de contos russos tem in\u00fameras revela\u00e7\u00f5es. A come\u00e7ar por diversos autores que eu desconhecia e que s\u00e3o importantes, como B\u00fanin (1870-1944). No conto A Gl\u00f3ria ele fala do fasc\u00ednio que seu povo tem pelos patifes. 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