{"id":3477,"date":"2012-03-06T18:10:34","date_gmt":"2012-03-06T21:10:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3477"},"modified":"2012-03-06T18:10:34","modified_gmt":"2012-03-06T21:10:34","slug":"sereno","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/sereno","title":{"rendered":"SERENO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>T\u00e3o bom quando nos entendemos. \u00c9 quando o conflito universal respira, aliviado. Desse momento nascem os mais belos p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>Cada novo amor \u00e9 assim: parece infinito o acervo de revela\u00e7\u00f5es. Mas ele est\u00e1 gasto de uso. Melhor esquecer e imitar a gota de sereno antes de sumir diante da imensid\u00e3o do amanhecer.<\/p>\n<p>Cansei de n\u00e3o ser nada esperando tudo. Agora ser\u00e1 ao contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Posso viver sem voc\u00ea. Assim como o dia n\u00e3o precisa do sol.<\/p>\n<p>N\u00e3o suporto nada que n\u00e3o te traga de volta. Minha teimosia. Minha vontade de brigar. Os navios que partem em vez de chegar.<\/p>\n<p>O tempo indiferente nos trata mal. Inviabiliza o sentimento. Imagino economizar para o futuro, quando nos batermos de frente.<\/p>\n<p>Diga, poema, o que falta para o sonho. Fa\u00e7o qualquer coisa. Quer que eu plante bananeira?<\/p>\n<p>Passei a tarde toda esperando. Nenhuma palavra de alento. Por isso caio como um p\u00e1ssaro abatido pelos rifles do escuro.<\/p>\n<p>Sem o visgo n\u00e3o h\u00e1 cora\u00e7\u00e3o que aguente. Tudo fica gelado como um vento vindo da montanha.<\/p>\n<p>O dia se fechou at\u00e9 se extinguir sob a capa da noite, que se aproximou cinza e caiu como neblina sobre o corpo ardido de sol e poesia.<\/p>\n<p>E voc\u00ea muda, musa silente. Nos ferimos no duelo, quem costura?<\/p>\n<p>N\u00e3o posso falar da gra\u00e7a das tuas meias, do cora\u00e7\u00e3o tatuado na coxa, do teu nome molhado. Seria muita bandeira. Melhor ficar quieto, como sempre<\/p>\n<p>Deixe o amor livre para ele encontrar teu rumo todos os dias.<\/p>\n<p>No fim n\u00e3o \u00e9 nem o toque que importa, mas a expectativa do estrago condensado numa fantasia que se realiza.<\/p>\n<p>Sinto falta mesmo de passar de leve os dedos nas rendas da tua blusa. Quando sorrias arrepiada imaginando o resto.<\/p>\n<p>Se voltarmos, a terra se cobrir\u00e1 novamente daquela vegeta\u00e7\u00e3o condenada, flor.<\/p>\n<p>Te mandei embora. Embarquei no trem das 6.<\/p>\n<p>Ok, vou fazer um torniquete no cora\u00e7\u00e3o para parar de sangrar. N\u00e3o tente ajudar, \u00e9 pior.<\/p>\n<p><strong>P\u00caSSEGO<\/strong><\/p>\n<p>Mar\u00e7o come\u00e7a a soprar um vento morno. Mistura de ver\u00e3o terminal com rebentos de outono. O corpo se mexe com desconforto. N\u00e3o aguardo mais nada, minha flor.<\/p>\n<p>Aquela regi\u00e3o do joelho que parece feita de alabastro e p\u00eassego e que vi a dist\u00e2ncia, eu poderia tocar, sem arranhar, com minha pata de le\u00e3o?<\/p>\n<p>Venha onde estou, me disse ela. N\u00e3o se recolha aos portais do nada. Conviva com a ilus\u00e3o de devorar o tempo. Esteja atento \u00e0 dor de ser eterno. N\u00e3o morra com a poesia montando guarda. N\u00e3o posso, respondi. Preciso todas as manh\u00e3s colocar a carruagem do Sol em movimento.<\/p>\n<p>Querias que eu fosse suave, se sou urso. Que fosse fr\u00e1gil se sou susto. Que eu fosse mar\u00e7o, mas sou outubro.<\/p>\n<p>Chegaste atrasada, esbaforida, ansiosa, com a pele morena de ver\u00e3o brotando suor sobre a lentes escuras. Quem mandou se trancar no tr\u00e2nsito? Na pr\u00f3xima vez solto os cachorros, imprescind\u00edvel<\/p>\n<p>N\u00e3o perdeste teu tempo procurando sintonias. Vieste de chofre no entardecer de ru\u00eddos. E prometeste um beijo no primeiro minuto, s\u00f3 me olhando de alto a baixo.<\/p>\n<p>Apenas duas estrelas como pingos de metal no veludo. Desejos que se completam ditos em segredo. Quero voc\u00ea e o primeiro selo entre corpos que se procuram<\/p>\n<p>E se acontecer uma troca de sorrisos, o que fazer no momento seguinte? N\u00e3o temos para onde ir, as paisagens est\u00e3o todas ocupadas com o fato de n\u00e3o terem nascido para n\u00f3s, peregrina.<\/p>\n<p>Nenhuma palavra trocada, nem sequer flerte. Devo ter enlouquecido. Fadas invis\u00edveis riem. Duendes fazem apostas. Querem ver quando pagarei o mico de te dizer bom dia.<\/p>\n<p>Pensei que nem eras assim t\u00e3o atrativa. Talvez eu esteja enganado, procurando o que n\u00e3o devo em criatura t\u00e3o remota. Mas basta te ver que todas as evid\u00eancias caem de quatro.<\/p>\n<p>E imposs\u00edvel desistir desse visgo, que se manifesta sem base ou objetivo. Pura fantasia, feita de cinzas. \u00c9s a neblina do acaso, magn\u00edfica.<\/p>\n<p>Desse jeito vou desencanar de voc\u00ea. Colocar viseiras. Olhar para o ch\u00e3o, correndo o risco de seguir teu rastro, insubstitu\u00edvel.<\/p>\n<p>Dias e dias sem te ver. At\u00e9 que notei a defasagem de hor\u00e1rios. N\u00e3o faz sentido. Teu andar, teu requebro \u00fanico, teu rosto que finge ser impass\u00edvel n\u00e3o me avisaram nada.<\/p>\n<p><strong>CRESCENTE, QUASE CHEIA<\/strong><\/p>\n<p>Afastei amores com minha teimosia. Depois pastei no ermo junto com as feras. A Lua veio em meu socorro e me soprou o verbo. Mas desperdicei contigo, minha bela.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o estou Cheia, disse a Lua. Espere a mudan\u00e7a que ela ser\u00e1 tua.<\/p>\n<p>N\u00e3o cansa de falar na Lua? disse ela. Sim, respondi. Vamos falar de ti.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o conselhos, a Lua reage. N\u00e3o basta o meu brilho? diz. A forma redonda boiando no c\u00e9u sem fim? Queres mais? Que eu des\u00e7a a\u00ed e te diga que ela est\u00e1 a fim? Folgado.<\/p>\n<p>Tem algo sobrando em mim, o cora\u00e7\u00e3o que te quis loucamente e agora vaga pela cal\u00e7ada fria da Lua que se esconde.<\/p>\n<p>Por isso me recolho \u00e0 poesia, reduto da solid\u00e3o de olho de vidro. Vejo a Lua, quase cheia no final da tarde. Ela ri, a malvada.<\/p>\n<p>Quando as nuvens escuras rodeiam a Lua, parece que ela nos faz uma advert\u00eancia antes de sumir por um tempo. O que nos diz, suprema?<\/p>\n<p>\u00c9 ilus\u00e3o.Achamos que a Noite impera em todos os sentidos, mas ela \u00e9 apenas a corte da Lua, rainha de verdade nesta vida bruta.<\/p>\n<p>Melhorei. Sa\u00ed l\u00e1 fora e vi o brilho da Crescente inundar o crep\u00fasculo. Imaginei essa luz no teu vestido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s T\u00e3o bom quando nos entendemos. \u00c9 quando o conflito universal respira, aliviado. Desse momento nascem os mais belos p\u00e1ssaros. 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