{"id":3512,"date":"2012-03-06T18:32:03","date_gmt":"2012-03-06T21:32:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3512"},"modified":"2012-03-06T18:32:03","modified_gmt":"2012-03-06T21:32:03","slug":"pluma","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/pluma","title":{"rendered":"PLUMA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Ela me pegou no pulo. Acho que foi o andar. Um jeito de jogar tudo para um lado, sem ser um requebro. \u00c9 mais que um charme, \u00e9 uma decis\u00e3o do corpo que me ca\u00e7a.<\/p>\n<p>O p\u00e9 que sobra, do outro lado desse jogo que envolve algo mais do que a cintura, mal toca no ch\u00e3o, pois \u00e9 feito de pluma. Ela ro\u00e7a o ar rarefeito da minha g\u00e1vea.<\/p>\n<p>As pernas n\u00e3o se ocupam do resto, n\u00e3o fazem parte do conjunto. Tem vida pr\u00f3pria e balan\u00e7am o vestido sem alarde. Tudo o mais que \u00e9 dela caminha baixando a guarda. Finge que se resguarda, como se fosse poss\u00edvel, com aquela gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Todo dia a mesma hora. Uma boca quase sem batom, parece. Ma\u00e7\u00e3s salientes de um rosto antol\u00f3gico. Nada em especial, claro. N\u00e3o chama aten\u00e7\u00e3o, a beldade. A n\u00e3o ser a minha, grogue.<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o reparto o que me mata. Passo lotado, sento de costas. E espero que suma, a fant\u00e1stica.<\/p>\n<p>Costumam ver a beleza se houver destaque. Sair na foto, publicidade. Se for tela ou palco. Jamais quando passa por um \u00e1timo e nos derruba virando a cara.<\/p>\n<p>Pior que n\u00e3o h\u00e1 como chegar, nem mesmo comentando o tempo. \u00c9 inacess\u00edvel, a que est\u00e1 ao lado. Voc\u00ea aposta: pronto, foi embora. Tenta se recompor, mas \u00e9 tarde. Foste fisgado, pandorga.<\/p>\n<p>De que falas? pergunta o vento. Dos amores que n\u00e3o alcan\u00e7o, explico. \u00c9 minha especialidade, disse ele. Sopro na janela dela, em v\u00e3o, h\u00e1 s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Sua blusa escassa, sua saia s\u00f3bria e curta, tudo nela \u00e9 de uma prudente beleza, daquelas que te pegam sem querer e depois perguntam, inocentes, o motivo de tanta paix\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei para que tanto esfor\u00e7o se \u00e9 para ser devorada, disse ele, cansado de esperar o fim da sess\u00e3o de maquiagem. Essa \u00e9 a id\u00e9ia, disse ela, batendo a porta na cara.<\/p>\n<p>\u00c9 compuls\u00f3rio o encontro, pois temos compromissos que se cruzam. Tentei at\u00e9 mudar de corredor. Mas debru\u00e7ada na grande janela de vidro,l\u00e1 estava ela, sendo refletida como miragem no outro lado da cidade.<\/p>\n<p>Que me adianta mudar de pa\u00eds se verei sempre seu andar de gar\u00e7a, seu respirar de f\u00eamea, oculta em seus modelos beges, a jogar lances mudos sobre os ombros de escultura cl\u00e1ssica?<\/p>\n<p>Quando me dei conta, estava me olhando, a danada. E eu sonhando acordado, estava cego para o pr\u00f3ximo xeque mate.<\/p>\n<p>Assim fica dif\u00edcil, malvada. Levo tiro antes de sacar a arma.<\/p>\n<p>De repente, por for\u00e7a de sua presen\u00e7a, fui a nocaute. Acordei no para\u00edso, sendo sacudido. Era ela.<\/p>\n<p>Noto o esfor\u00e7o que ela faz para chamar a aten\u00e7\u00e3o de um sujeito indiferente. Por que ocupo o \u00faltimo lugar da fila? Talvez pelo meu corpo de barro, rosto de pedras, olhar bizarro.<\/p>\n<p>Fiquei sentado com meu embrulho de p\u00e1ssaros no colo. Ela olhava o horizonte, onde eu n\u00e3o me situava. Tentei assobiar, mas um avi\u00e3o rumo ao Nepal passou na mesma hora.<\/p>\n<p>Ela acorda e vai direto ao poema. L\u00e1 encontra meu impulso e bebe sem que eu veja. Mostre o arrepio de teu bra\u00e7o, tonta de tanta beleza.<\/p>\n<p>Voc\u00ea acha cedo? Pergunte ao sol quanto tempo esperou para inventar este dia. Pergunte \u00e0 nuvem quanto demorou para dar o passeio. Cedo \u00e9 voc\u00ea, estupenda.<\/p>\n<p>Quando venho aqui j\u00e1 estou impregnado do teu beijo. Nas\u00e7o toda vez que acordas. Sou teu jarro de flor, que regas de olhos quase adormecidos.<\/p>\n<p>Passaste batom com firmeza, de uma cor impercept\u00edvel. Isso te deu um ar de mist\u00e9rio. Sabia que estavas diferente, mas achei que era outra coisa e elogiei o cabelo, que n\u00e3o cortas h\u00e1 s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Bem mulherzinha, disse ela, fazendo chover. E eu acredito? Sim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Ela me pegou no pulo. Acho que foi o andar. Um jeito de jogar tudo para um lado, sem ser um requebro. \u00c9 mais que um charme, \u00e9 uma decis\u00e3o do corpo que me ca\u00e7a. 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