{"id":352,"date":"2009-12-10T12:58:25","date_gmt":"2009-12-10T14:58:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=352"},"modified":"2009-12-10T12:58:25","modified_gmt":"2009-12-10T14:58:25","slug":"origens-da-mae-gentil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/origens-da-mae-gentil","title":{"rendered":"ORIGENS DA M\u00c3E GENTIL"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: x-small;\"><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Versos e frases c\u00e9lebres dos poetas e prosadores rom\u00e2nticos da literatura brasileira foram incorporados aos nossos hinos. No Hino Nacional, trecho da Can\u00e7\u00e3o do Ex\u00edlio, de Gon\u00e7alves Dias, est\u00e1 grafado entre aspas. \u00c9 o que fala dos campo (v\u00e1rzeas, no poema) com mais flores, bosques com mais vida e vida com mais amores. No Hino do Expedicion\u00e1rio, outro verso da can\u00e7\u00e3o de Gon\u00e7alves Dias, escrita no s\u00e9culo 19, est\u00e1 na letra do poeta Guilherme de Almeida (o mesmo da Revolu\u00e7\u00e3o paulista de 1932), que \u00e9 &#8220;n\u00e3o permita Deus que eu morra sem que eu volte para l\u00e1&#8221;. Nesse caso, n\u00e3o est\u00e1 entre aspas. E &#8220;verdes mares bravios&#8221; da minha terra natal, tamb\u00e9m do hino da FEB, veio de Iracema, de Jos\u00e9 de Alencar. H\u00e1 mais.<\/p>\n<p>A figura da mulher como um cisne branco, met\u00e1fora principal do Hino da Marinha, veio de um soneto e de uma elegia de Fagundes Varela (os americanos tratam seus navios de &#8220;ela). Entre a m\u00e3e gentil e a mulher amorosa, a p\u00e1tria \u00e9 representada nos autores rom\u00e2nticos e essa representa\u00e7\u00e3o \u00e9 incorporada nos s\u00edmbolos nacionais. Qual outro movimento teve essa import\u00e2ncia? Nenhum, porque exatamente n\u00e3o quiseram. No fundo, todos os outros &#8211; simbolismo, parnasianismo, modernismo &#8211; s\u00e3o uma insurg\u00eancia contra o romantismo. Romper com a ingenuidade \u00e9 o objetivo das rupturas, que preferem algo mais cru (ou verdadeiro), tanto para as letras quanto para a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o problema n\u00e3o \u00e9 a verdade, \u00e9 a vers\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o lida com s\u00edmbolos dizendo &#8220;verdades&#8221;, mas criando vers\u00f5es. Elas mudam ao longo do tempo, at\u00e9 mesmo para os mesmos hinos. A letra original do Hino da Independ\u00eancia, por exemplo, \u00e9 de extrema crueza. Vejam esses versos, que foram subsitu\u00eddos por outros, mais amenos, em 1922, por Evaristo da Veiga, por ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio da Independ\u00eancia: &#8220;Os grilh\u00f5es que nos forjava \/ Da perf\u00eddia astuto ardil:\/ Houve m\u00e3o mais poderosa,\/ Zombou deles o Brasil.\/ Brava gente, brasileira&#8230;\/ N\u00e3o temais \u00edmpias falanges \/ Que apresentam face hostil:\/ Vossos peitos, vossos bra\u00e7os \/ S\u00e3o muralhas do Brasil.&#8221; Esse tom hostil foi mantido nos hinos das na\u00e7\u00f5es hisp\u00e2nicas, mas por aqui colocamos a\u00e7\u00facar na id\u00e9ia da P\u00e1tria. Falamos em clava forte, jamais em cr\u00e2nios rolando ou corpos esquartejados.<\/p>\n<p>Por n\u00e3o ter concorr\u00eancia \u00e0 altura nas representa\u00e7\u00f5es da P\u00e1tria, o romantismo teve vida longa e chegou ao s\u00e9culo vinte praticamente intacto, pelo menos at\u00e9 os anos 60, quando ainda os estudantes memorizavam as letras e cantavam nas solenidades patri\u00f3ticas. O modernismo, com Oswald de Andrade, um poeta que mais parece &#8220;um romancista em f\u00e9rias&#8221;, segundo a vis\u00e3o c\u00e1ustica de Manuel Bandeira, debochou de todo acervo rom\u00e2ntico, que tinha criado uma vers\u00e3o ideal desde o descobrimento, passando pela Independ\u00eancia e a Rep\u00fablica. Essa avers\u00e3o se aprofundou com o tempo, at\u00e9 chegarmos ao auge, que \u00e9 a Vanusa trocando a letra do Hino Nacional de maneira desafinada. N\u00e3o que ela tenha culpa, pois estava sob efeito de um rem\u00e9dio. Mas isso revela a indiferen\u00e7a e a falta de sintonia entre o cidad\u00e3o e o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica substituiu o poema do Hino Nacional, que vinha do Imp\u00e9rio, al\u00e9m de tornar menos agressivo o Hino da Independ\u00eancia. Hoje, costumam implicar com a frase &#8220;deitado eternamente em ber\u00e7o espl\u00eandido&#8221;, que eu acho \u00f3tima, pois se refere \u00e0 soberania conquistada e perene. Mas a verdade \u00e9 que, atacando os ideais rom\u00e2nticos da m\u00e3e gentil, que com a ditadura se revelou malvada, ainda estamos marcando passo em termos de representa\u00e7\u00e3o da P\u00e1tria.<\/p>\n<p>O que fazer? Insistir no Romantismo? Acho tanto a letra de Cisne Branco quanto a do Os\u00f3rio Duque Estrada maravilhosas. A longa saga do Hino do Expedicion\u00e1rio \u00e9 uma pe\u00e7a da vis\u00e3o do para\u00edso que nos acompanha desde o ber\u00e7o, pois pega emprestado todas as imagens criadas pelas can\u00e7\u00f5es populares e os escritores rom\u00e2nticos: &#8220;Voc\u00ea sabe de onde eu venho?\/ Venho do morro, do Engenho,\/ Das selvas, dos cafezais,\/ Da boa terra do coco,\/ Da choupana onde um \u00e9 pouco,\/ Dois \u00e9 bom, tr\u00eas \u00e9 demais,\/ Venho das praias sedosas,\/ Das montanhas alterosas,\/ Dos pampas, do seringal,\/ Das margens crespas dos rios, Dos verdes mares bravios\/ Da minha terra natal&#8221;.<\/p>\n<p>Muito suave para quem iria matar inimigos? &#8220;Por mais terras que eu percorra,\/ N\u00e3o permita Deus que eu morra\/ Sem que volte para l\u00e1;\/ Sem que leve por divisa\/ Esse &#8220;V&#8221; que simboliza\/ A vit\u00f3ria que vir\u00e1:\/ Nossa vit\u00f3ria final,\/ Que \u00e9 a mira do meu fuzil,\/ A ra\u00e7\u00e3o do meu bornal,\/ A \u00e1gua do meu cantil,\/ As asas do meu ideal,\/ A gl\u00f3ria do meu Brasil.&#8221; Eis o cidad\u00e3o armado, nas asas de um ideal, partindo para a matan\u00e7a. Ele tem o peito &#8220;juvenil&#8221;, como diz a letra do Hino \u00e0 Bandeira e que por um tempo foi trocado por varonil. Mas o Ex\u00e9rcito fez uma pesquisa e descobriu que o original \u00e9 juvenil.<\/p>\n<p>O povo mo\u00e7o como o pa\u00eds, nos bra\u00e7os da m\u00e3e gentil: o romantismo surgiu praticamente junto com a Independ\u00eancia e op\u00f4s a id\u00e9ia de uma na\u00e7\u00e3o madrasta, ruim, exploradora, que era Portugal, a outra doce, gentil, justa e acolhedora, o Brasil. Quando Portugal maltrata os brasileiros emigrados, como vemos no notici\u00e1rio, lembramos dessa id\u00e9ia perversa de uma metr\u00f3pole carrancuda e escravista. O romantismo brasileiro lutou pela liberta\u00e7\u00e3o dos escravos e quis fazer daqui o ideal de uma terra de paz e harmonia. N\u00e3o deu certo, a humanidade \u00e9 puro conflito.<\/p>\n<p>Mas estamos a bra\u00e7os com um problema: quem somos n\u00f3s? Filhos juvenis da m\u00e3e gentil, mas rosnando uns para os outros? Ou uma na\u00e7\u00e3o madura que procura um caminho menos idealizado e mais respons\u00e1vel? O certo \u00e9 que precisamos das nossas representa\u00e7\u00f5es. Isso se faz com soma. N\u00e3o podemos jogar a crian\u00e7a fora junto com a \u00e1gua suja, precisamos manter o que conquistamos e partir para frente. Temos um acervo patri\u00f3tico de n\u00edvel, com fundas ra\u00edzes na nacionalidade. Sim, sabemos do que se trata. Chamam de aliena\u00e7\u00e3o, manipula\u00e7\u00e3o. Vejo diferente. Vejo o pa\u00eds consolidado, que se apresenta ao mundo com o &#8220;Virand\u00f4&#8221; que todos conhecem pelo menos uma parte e vibra ao cantar &#8220;brava gente brasileira&#8221;.<\/p>\n<p>Por mais que a gente sofra, nossa vida tem mais amores. Acreditamos nisso. \u00c9 nosso objetivo. Terra adorada.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> Versos e frases c\u00e9lebres dos poetas e prosadores rom\u00e2nticos da literatura brasileira foram incorporados aos nossos hinos. No Hino Nacional, trecho da Can\u00e7\u00e3o do Ex\u00edlio, de Gon\u00e7alves Dias, est\u00e1 grafado entre aspas. \u00c9 o que fala dos campo (v\u00e1rzeas, no poema) com mais flores, bosques com mais vida e vida com mais amores. No Hino do Expedicion\u00e1rio, outro verso da can\u00e7\u00e3o de Gon\u00e7alves Dias, escrita no s\u00e9culo 19, est\u00e1 na letra do poeta Guilherme de Almeida (o mesmo da Revolu\u00e7\u00e3o paulista de 1932), que \u00e9 &#8220;n\u00e3o permita Deus que eu morra sem que eu volte para l\u00e1&#8221;. Nesse caso, n\u00e3o est\u00e1 entre aspas. E &#8220;verdes mares bravios&#8221; da minha terra natal, tamb\u00e9m do hino da FEB, veio de Iracema, de Jos\u00e9 de Alencar. 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