{"id":3550,"date":"2012-03-06T18:53:54","date_gmt":"2012-03-06T21:53:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3550"},"modified":"2012-03-06T18:53:54","modified_gmt":"2012-03-06T21:53:54","slug":"gorki-e-o-povo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/gorki-e-o-povo","title":{"rendered":"GORKI E O POVO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Duc\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Povo \u00e9 uma palavra complicada no Brasil. Em ingl\u00eas people significa povo e gente. N\u00e3o existe essa diferen\u00e7a entre \u201cn\u00f3s\u201d e \u201cessa gente\u201d, o pov\u00e3o velho de guerra. Fez-se toda uma pol\u00edtica equivocada a partir do conceito de povo. Pa\u00eds de escravos, todo mundo se acha senhor. Identificamos as pessoas pela exclus\u00e3o. Governava-se para os ricos no Imp\u00e9rio e na Rep\u00fablica Velha. Na era Vargas, o governo em tese era voltado para os trabalhadores. A intensifica\u00e7\u00e3o dos conflitos levou \u00e0 ruptura de 1964, num golpe dado para evitar uma rep\u00fablica popular ala Cuba. Foi o que se disse, pelo menos.<\/p>\n<p>A partir da anistia em 1979, os intelectuais org\u00e2nicos (aparelhados pelos partidos emergentes) inventaram o termo populismo para afastar a amea\u00e7a da volta do varguismo via Brizola. Seria governar falsamente para o povo, traindo-o. A fonte era Get\u00falio, mas o fato \u00e9 que o populismo surgiu com J\u00e2nio Quadros, um clone desastrado de Getulio que inclusive escandia as s\u00edlabas como no sotaque ga\u00facho. J\u00e2nio foi um l\u00edder de massas que surgiu sob medida para o anti-getulismo. Acirrou os \u00e2nimos por pura irresponsabilidade e \u00e2nsia de poder. Mas fal\u00e1vamos do povo.<\/p>\n<p>Na literatura temos a explos\u00e3o do romance dos anos 30, que at\u00e9 hoje imp\u00f5e o imagin\u00e1rio do pa\u00eds, ou pelo menos impunha at\u00e9 a chegada da Tropa de Elite e Cidade de Deus, que explodiram a id\u00e9ia de um pa\u00eds rural. O pa\u00eds daquele romance regional logo ap\u00f3s a subida de Getulio ao poder em 1930 ainda sobrevive nas novelas das seis, mas nos livros deu lugar a uma mistura de tipos de todas as escalas sociais. Temos desde a classe m\u00e9dia baixa e devassa em Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, at\u00e9 a explos\u00e3o a partir dos anos 90, em que o caos urbano \u00e9 representado pela mix\u00f3rdia humana de todas as taras e dessintonias nos autores mais recentes.<\/p>\n<p>Na R\u00fassia do s\u00e9culo 19, havia essa postura bem pensante dos intelectuais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 grande massa de camponeses e marginalizados das cidades, at\u00e9 que chegou Maximo,o Amargo, ou Gorki, que veio da R\u00fassia profunda, do povo mesmo e mostrou que a humanidade a qual pertencia nada tinha de cavalheiresco ou nobre ou desprez\u00edvel. Eram brutos, geniais, soberbos, mesquinhos. Humanos por toda a conta. No livro que estou comentando aqui, uma seleta de contos russos do s\u00e9culo 19 publicado em 1964 pela Martins Editora, Gorki comparece com o conto O Acidente, que faz parte de sua brilhante memorial\u00edstica.<\/p>\n<p>Tive o privil\u00e9gio de ler e fazer um ensaio sobre os tr\u00eas tomos das mem\u00f3rias desse escritor n\u00famero 1 que s\u00e3o Inf\u00e2ncia, Ganhando Meu P\u00e3o e Minhas Universidades. Texto magistral e enxuto, Gorki neste conto mostra como tr\u00eas rapazes embrutecidos fazem servi\u00e7os pesados e caem na tenta\u00e7\u00e3o do roubo e da mentira. E como expressam sua espiritualidade pelo avesso, ao serem contratados pela velha carola que l\u00ea a B\u00edblia enquanto eles pegam no pesado.<\/p>\n<p>O narrador \u00e9 o pr\u00f3prio Gorki, que sofreu horrores at\u00e9 ser aclamado como um g\u00eanio liter\u00e1rio pelo povo russo. H\u00e1 ainda o debochado e o ing\u00eanuo, ambos v\u00edtimas das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia. Gorki mostra tudo sem fazer firulas. Precisamos desse exemplo para entendermos que fazemos parte do povo e n\u00e3o nos destacamos dele como se f\u00f4ssemos os eleitos.<\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nica publicada no jornal Momento de Uruguaiana<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Duc\u00f3s Povo \u00e9 uma palavra complicada no Brasil. Em ingl\u00eas people significa povo e gente. N\u00e3o existe essa diferen\u00e7a entre \u201cn\u00f3s\u201d e \u201cessa gente\u201d, o pov\u00e3o velho de guerra. Fez-se toda uma pol\u00edtica equivocada a partir do conceito de povo. Pa\u00eds de escravos, todo mundo se acha senhor. Identificamos as pessoas pela exclus\u00e3o. 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