{"id":356,"date":"2009-12-10T13:00:37","date_gmt":"2009-12-10T15:00:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=356"},"modified":"2009-12-21T22:17:37","modified_gmt":"2009-12-22T00:17:37","slug":"villa-lobos-e-as-criancas-na-era-vargas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/villa-lobos-e-as-criancas-na-era-vargas","title":{"rendered":"VILLA-LOBOS E AS CRIAN\u00c7AS NA ERA VARGAS"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: x-small;\"><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O megaespet\u00e1culo do Crian\u00e7a Esperan\u00e7a na Globo come\u00e7ou com o Trenzinho Caipira, de Heitor Villa-Lobos. O evento privatiza Villa-Lobos, o maestro educador de crian\u00e7as dos governos Vargas, de 1930 a 1945. E serve para arrancar dinheiro dos contribuintes, quando o trabalho de Villa, na era Vargas, foi todo feito com dinheiro p\u00fablico, dos impostos, que para isso servia. Por ter atuado tanto no Governo Provis\u00f3rio (1930-33), quanto no Governo Constituinte (1934-1937) quanto no Estado Novo (1937-45), Villa, o g\u00eanio, foi por muito tempo acusado de fascista e nazista (a mediocridade fareja o talento), j\u00e1 que ele pegou a rebarba da grande cal\u00fania hist\u00f3rica promovida pelo lacerdismo \u2013 o macartismo brasileiro \u2013 e que at\u00e9 hoje funciona.<\/p>\n<p>Basta ver as fotos selecionadas de Vargas com a proximidade do 24 de agosto, data do suic\u00eddio do grande presidente. Sempre com cara de mau, para que a marca do &#8220;ditador&#8221; continue colando. Mas como a mentira, de t\u00e3o longeva, cai de velha, \u00e9 moda agora fazer uma revis\u00f5es e dizer que Villa at\u00e9 que era um nacionalista e n\u00e3o um nazista como o governo ao qual servia. Haja paci\u00eancia para esses criminosos. Mas a sorte \u00e9 que v\u00e1rios estudiosos levantam o trabalho do maestro como educador na era Vargas, e n\u00e3o como um coadjuvante de ditador nenhum. Falta reconhecer o \u00f3bvio: a de que essa obra foi que gerou uma quantidade gigantesca de g\u00eanios musicais do Brasil (Tom Jobim era aluno confesso de Villa-Lobos), j\u00e1 que o ensino obrigat\u00f3rio de m\u00fasica foi decretado pelo Governo Vargas no ensino p\u00fablico em 1932. Sabiam disso? Pois saibam ou lembrem.<\/p>\n<p>Vamos agora passar a palavra para duas professoras, Priscila Paglia e sua orientadora Marlete dos Anjos S. Schaffrath, com o trabalho &#8220;Heitor Villa-Lobos E A Forma\u00e7\u00e3o Moral Do Povo Brasileiro: O Canto Orfe\u00f4nico&#8221;. Elas insistem no enfoque tradicional do nacionalismo autorit\u00e1rio e a desconfian\u00e7a geral em rela\u00e7\u00e3o a Get\u00falio. Mas tamb\u00e9m apresentam fatos:<\/p>\n<p>&#8220;Heitor Villa-Lobos foi convidado a assumir cargo p\u00fablico na SEMA (Superintend\u00eancia Educacional e Art\u00edstica). Atrav\u00e9s deste \u00f3rg\u00e3o ele teve a oportunidade de implantar seu projeto de Educa\u00e7\u00e3o Musical, baseado na pr\u00e1tica de canto orfe\u00f4nico, de modo a torn\u00e1-la disciplina obrigat\u00f3ria no curr\u00edculo das escolas, de ensino regular, brasileiras de acordo com o Decreto de n. 19890 de 18 de abril de 1931, que contemplava as escolas do Rio de Janeiro (antigo Distrito Federal) e o decreto n. 24794, de 14 de julho de 1934 que estendia o ensino a todos os estabelecimentos prim\u00e1rio e secund\u00e1rio do pa\u00eds, permanecendo assim at\u00e9 a promulga\u00e7\u00e3o da lei n. 5692, de 1971.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Segundo Gu\u00e9rios (2003) dois foram os motivos levaram Villa-Lobos a assumir este cargo. Primeiro, pela quest\u00e3o financeira, pois mesmo j\u00e1 sendo um compositor de renome internacional ele ainda n\u00e3o dispunha de uma fonte de sustento, portanto, um cargo p\u00fablico era uma boa oportunidade para que pudesse melhorar financeiramente. Segundo, pelo poder que lhe garantiria esta fun\u00e7\u00e3o, tendo a seu dispor o apoio do governo para a implementa\u00e7\u00e3o de projetos culturais.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Entretanto, de acordo com Souza (2005) dois fatos foram fundamentais para que Heitor Villa-Lobos conseguisse implantar seu projeto de educa\u00e7\u00e3o musical, primeiro, o fato de ter influ\u00eancia junto ao Interventor paulista, Jo\u00e3o Alberto, homem que apoiou e patrocinou Villa-Lobos para que este pudesse realizar concertos populares promovendo m\u00fasica nacionalista em 54 cidades do interior do Estado de S\u00e3o Paulo no per\u00edodo entre janeiro e abril de 1931. Al\u00e9m do apoio e patroc\u00ednio para a realiza\u00e7\u00e3o de uma concentra\u00e7\u00e3o c\u00edvico-art\u00edstico dia 3 de maio do ano de 1931 no parque Ant\u00e1rtica em S\u00e3o Paulo onde, segundo Gu\u00e9rios (2003), Villa-Lobos percebeu as possibilidades que estavam se abrindo com o regime. O autor tamb\u00e9m sup\u00f5e que este evento c\u00edvico-art\u00edstico tenha marcado um desvio na trajet\u00f3ria do compositor.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Segundo fato ter escrito a Get\u00falio Vargas uma carta intitulada &#8220;Apelo ao Chefe Provis\u00f3rio da Rep\u00fablica Brasileira&#8221;. Esta carta (nota: trechos reproduzidos abaixo)foi enviada a Get\u00falio Vargas e chegou a ser reproduzida no Jornal do Brasil do dia 12 de fevereiro de 1932. Villa-Lobos revela nesta carta que o estado em que se encontra o cen\u00e1rio art\u00edstico Brasileiro \u00e9 horr\u00edvel, por\u00e9m, afirma ter encontrado a solu\u00e7\u00e3o para o problema e, de acordo com (GU\u00c9RIOS, 2003, p. 177): &#8220;(&#8230;) aproveitou a oportunidade para deixar claro que estava a disposi\u00e7\u00e3o do governo, (&#8230;)&#8221;. A impress\u00e3o que se tem \u00e9 que como resposta \u00e9 criada, no m\u00eas seguinte, a SEMA. &#8221;<\/p>\n<p>&#8220;(&#8230;)Acabou por apresentar seu plano de Educa\u00e7\u00e3o Musical \u00e0 Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado de S\u00e3o Paulo. Em 1931, o maestro organizou uma concentra\u00e7\u00e3o orfe\u00f4nica chamada &#8220;Exorta\u00e7\u00e3o C\u00edvica&#8221;, com 12 mil vozes. Ap\u00f3s dois anos assumiu a dire\u00e7\u00e3o da Superintend\u00eancia de Educa\u00e7\u00e3o Musical e Art\u00edstica. A partir de ent\u00e3o, a maioria de suas composi\u00e7\u00f5es se voltou para a educa\u00e7\u00e3o musical. Em 1932, o presidente Vargas tornou obrigat\u00f3rio o ensino de canto nas escolas e criou o Curso de Pedagogia de M\u00fasica e Canto. Em 1933, foi organizada a Orquestra Villa-Lobos.&#8221;<\/p>\n<p>Mirele Ferreira Borges tamb\u00e9m aborda o tema em &#8220;Heitor Villa-Lobos, o m\u00fasico educador&#8221;.<\/p>\n<p>Como disse o poeta Carlos Drummond de Andrade, que por muitos anos foi Chefe de Gabinete do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade do governo Vargas: &#8220;Quem o viu um dia comandando o coro de 40 mil vozes adolescentes, no est\u00e1dio do Vasco da Gama, n\u00e3o pode esquec\u00ea-lo nunca. Era a f\u00faria organizando-se em ritmo, tornando-se melodia e criando a comunh\u00e3o mais generosa, ardente e purificadora que seria poss\u00edvel conceber&#8221;<\/p>\n<p>Ou seja, quando acusarem Get\u00falio Vargas disto e daquilo, lembre em qual governo foi poss\u00edvel fazer um trabalho dessa envergadura. Quem pontificava era Villa-Lobos, Drummond. Hoje quem pontifica \u00e9 Luciano Huck, Didi. Eu tive sorte: participei do canto orfe\u00f4nico do col\u00e9gio p\u00fablico onde fiz o prim\u00e1rio, o Romaguera Correa, de Uruguaiana, e tive aulas de m\u00fasica no curr\u00edculo normal. Faz\u00edamos a clave de sol em cadernos pautados e copi\u00e1vamos melodias. Fui alfabetizado em m\u00fasica. Assim como aprend\u00edamos letras e n\u00fameros, aprend\u00edamos notas. Simples assim. Tudo isso foi destru\u00eddo a partir de 1964. Entendeu agora porque os gritalh\u00f5es sertanojos, o baticum e o pagode repetitivo tomaram conta do ouvido musical da na\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>CARTA DE VILLA-LOBOS A GET\u00daLIO VARGAS<\/p>\n<p>&#8220;Pe\u00e7o permiss\u00e3o para lembrar a Vossa Excel\u00eancia que \u00e9 incontestavelmente a m\u00fasica, como linguagem universal, que melhor poder\u00e1 fazer a mais eficaz propaganda do Brasil no estrangeiro, sobretudo se for lan\u00e7ada por elementos genuinamente brasileiros, porque desta forma ficar\u00e1 gravada a personalidade nacional, processo este que melhor define uma ra\u00e7a, mesmo que esta seja mista e n\u00e3o tenha tido uma velha tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De modo que hoje, dia 1o. de fevereiro de 1932, espero que Vossa Excel\u00eancia ir\u00e1 decidir, com acerto, a verdadeira situa\u00e7\u00e3o dos artistas no Brasil. [&#8230;]<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, ou Vossa Excel\u00eancia ser\u00e1 al\u00e9m de grande e benem\u00e9rito Homem P\u00fablico e estadista arguto, o amigo leal das artes e dos artistas da nossa P\u00e1tria, colaborador de um dos maiores monumentos art\u00edsticos que o mundo produziu e que a Hist\u00f3ria Universal das Artes inscrever\u00e1 como um dos seus cap\u00edtulos mais interessantes, ou somente o grande e en\u00e9rgico Chefe do Governo Provis\u00f3rio da Rep\u00fablica Brasileira, o invicto patriota que sacudiu o jugo atroz das rotinas pol\u00edticas passadas que pesavam sobre o povo brasileiro, cujos filhos s\u00e3o \u00e0 Vossa Excel\u00eancia reconhecidos e que n\u00e3o cansam de exaltar Vossa Excel\u00eancia nesta ascens\u00e3o. [&#8230;]<\/p>\n<p>E com isso Vossa Excel\u00eancia ter\u00e1 salvo nossas artes e nossos artistas que bendir\u00e3o toda a exist\u00eancia de Vossa Excel\u00eancia. Seu humilde patr\u00edcio, (a) H. Villa-Lobos. &#8221;<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Pe\u00e7o permiss\u00e3o para lembrar a Vossa Excel\u00eancia que \u00e9 incontestavelmente a m\u00fasica, como linguagem universal, que melhor poder\u00e1 fazer a mais eficaz propaganda do Brasil no estrangeiro, sobretudo se for lan\u00e7ada por elementos genuinamente brasileiros, porque desta forma ficar\u00e1 gravada a personalidade nacional, processo este que melhor define uma ra\u00e7a, mesmo que esta seja mista e n\u00e3o tenha tido uma velha tradi\u00e7\u00e3o\u201d. (Trecho da carta do maestro Heitor-Villa-Lobos a Get\u00falio Vargas em 01\/02\/1932). <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[14],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/356"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=356"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/356\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1698,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/356\/revisions\/1698"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}