{"id":3564,"date":"2012-03-16T16:11:45","date_gmt":"2012-03-16T19:11:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3564"},"modified":"2012-03-16T16:12:24","modified_gmt":"2012-03-16T19:12:24","slug":"a-sombra-da-metastase-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-sombra-da-metastase-do-capitalismo","title":{"rendered":"\u00c0 SOMBRA DA MET\u00c1STASE DO CAPITALISMO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Capitalismo nasceu de uma rea\u00e7\u00e3o ao engessamento econ\u00f4mico e social promovido pelo absolutismo e o poder clerical. Mudou o paradigma das a\u00e7\u00f5es ao aproveitar a sem cerim\u00f4nia das pot\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o ao resto do mundo e eliminou as fronteiras para desencadear o que interessava, o lucro. Mas desde sua origem oferece uma dupla face do mesmo rosto. Para se justificar diante dos poderes tradicionais imperiais, precisava de uma \u00e9tica, largamente estudada e de maneira brilhante por Max Weber. E para ser fiel \u00e0 sua natureza agiu por met\u00e1stase, o crescimento geom\u00e9trico da explora\u00e7\u00e3o e da riqueza, detectados por Karl Marx no s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>A \u00c9tica Protestante e o Esp\u00edrito do Capitalismo, o cl\u00e1ssico livro de Max Weber, tem como contraponto a obra de Marx, notada mente seus dois p\u00f3los complementares, o popular (O Manifesto do Partido Comunista de 1848) e sua intrincada b\u00edblia, O Capital. O que Weber v\u00ea como um conjunto de princ\u00edpios que levam ao equil\u00edbrio social e \u00e0 riqueza, Marx v\u00ea como uma corrida em dire\u00e7\u00e3o ao abismo. Talvez ambos tenha eliminado uma das faces do rosto \u00fanico. Para efeitos deste ensaio, Weber n\u00e3o apontou o desvirtuamento do capitalismo e Marx n\u00e3o celebrou seus princ\u00edpios,apesar de sua grande admira\u00e7\u00e3o pelo assunto, como j\u00e1 notaram in\u00fameros autores, que colocam o Manifesto como o maior elogio \u00e0 burguesia.<\/p>\n<p>Mas seria muito raso achar que dois g\u00eanios tenha se atrapalhado em algo t\u00e3o simples. O argumento est\u00e1 aqui para criar um tipo ideal para a an\u00e1lise, onde cada um expressa um lado dessa contradi\u00e7\u00e3o entre o capitalismo que gera a democracia e o que gera a tirania. S\u00e3o duas personalidades distintas do mesmo processo, uma esquizofrenia expl\u00edcita, em que os dois lados invadem o territ\u00f3rio do outro, mas mant\u00e9m suas respectivas identidades. O capitalismo que gera riquezas e diversidade pol\u00edtica se op\u00f5e \u00e0 sua tend\u00eancia ao monop\u00f3lio ao imperialismo. Para ser \u00e9tico, o capitalismo precisa ser nacional, com moedas nacionais, parques industriais pr\u00f3prios, fronteiras fechadas e atividades internacionais negociadas caso a caso. Isso o aproxima das teses do socialismo e o do Estado do bem Estar.<\/p>\n<p>Mas esse quadro entra em contradi\u00e7\u00e3o com a met\u00e1stase, o desvirtuamento \u00e9tico que \u00e9 a exacerba\u00e7\u00e3o dos instrumentos do capitalismo, como acontece com a ind\u00fastria financeira. Marx via as crises sucessivas como algo inerente ao capitalismo, que cava sua pr\u00f3pria sepultura. Mas sabemos que a grande crise de 1929 foi provocada pela ind\u00fastria financeira que destruiu 16 mil bancos e gerou o monop\u00f3lio financeiro. Este continua intacto, com grandes fus\u00f5es cada vez mais intensas.<\/p>\n<p>A partir da d\u00e9cada seguinte, anos 1930, foi retirado gradualmente o peso ouro do dinheiro, que virou uma entidade \u00e0 parte, com direito ao crescimento desordenado e sem os freios da economia real. Isso se consolidou com Nixon, que sucateou o d\u00f3lar como moeda paradigm\u00e1tica e com Reagan e Tatcher, que promoveram a desregulamenta\u00e7\u00e3o do mercado financeiro, ou seja, tudo podia. Esse foi o instrumento mais poderoso da chamada globaliza\u00e7\u00e3o, que destruiu as moedas nacionais, transformando libra e marco em papel pintado (euro), intensificada pela cria\u00e7\u00e3o de novos produtos financeiros que aprofundaram a desregulamenta\u00e7\u00e3o, principalmente na partir dos Bush.<\/p>\n<p>O resultado todos viram em 2008, quando descobrimos que milhares de hipotecas inadimplentes eram vendidas como pacotes lucrativos e negociadas no carrossel da jogatina das Bolsas, transformadas em cassinos. Como a ind\u00fastria financeira tem a economia real como ref\u00e9m, obrigou os governos a raspar os cofres da na\u00e7\u00e3o para manter o equilibro das finan\u00e7as. Mas era tarde demais. Os bandidos tinham provado o suco do roubo e n\u00e3o iriam parar mais. Vimos ent\u00e3o como a Gr\u00e9cia, Espanha e outros pa\u00edses entraram pelo cano.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 uma reserva de mercado da especula\u00e7\u00e3o internacional, pois n\u00e3o tem economia nacional e deve quase dois trilh\u00f5es entre d\u00edvida externa e p\u00fablica. Somos o ambiente ideal para o anti-capitalismo, pois n\u00e3o chegamos a ele (ao capitalismo de princ\u00edpios, da origem weberiana). Somos ainda pr\u00e9 capitalistas, pois n\u00e3o temos um empreendedorismo s\u00f3lido (o sucateamento das pequenas e m\u00e9dias empresas \u00e9 um fato), n\u00e3o temos mais moeda, destru\u00edda pelos planos cruzados no queixo, e temos uma longa hist\u00f3ria de colonialismo pol\u00edtico, social e financeiro.<\/p>\n<p>No fundo, a met\u00e1stase desse anti-capitalismo, confundido com o pr\u00f3prio, \u00e9 a volta do velho absolutismo. Trata-se de uma reencena\u00e7\u00e3o dos grandes monop\u00f3lios, em que a concorr\u00eancia \u00e9 destru\u00edda, as na\u00e7\u00f5es ficam sob servid\u00e3o absoluta e o poder \u00e9 exercido por imp\u00e9rios superconcentrados. N\u00e3o termos capitalismo e portanto n\u00e3o termos burguesia (Eike Batista \u00e9 um empreiteiro) alia-se ao fato de n\u00e3o termos operariados, apenas uma contrafa\u00e7\u00e3o nas multinacionais, de onde saiu o ilusionista mor, criado pelos bandidos que trabalham na sombra. Mestre Raymundo Faoro j\u00e1 tinha denunciado em Os Donos do Poder a hegemonia do Estamento, a burocracia estatal que historicamente domina o pa\u00eds. Aliada ao poder total das finan\u00e7as, temos a atual ditadura civil no Brasil, a que se livrou da farda para continuar pontificando, j\u00e1 que entramos nesse processo para valer a partir de 1964, quando foi iniciado o sucateamento do Brasil soberano.<\/p>\n<p>Ou seja, para debater \u00e9 preciso enxergar o processo inteiro com o esp\u00edrito livre. O marxismo-leninismo, que no in\u00edcio levava em conta a advert\u00eancia de Marx de que o socialismo s\u00f3 seria alcan\u00e7ado depois que todas as for\u00e7as econ\u00f4micas e sociais desencadeadas pelo capitalismo atingissem determinado n\u00edvel , trope\u00e7ou no fosso do stalinismo burocr\u00e1tico, exatamente o poder absolutista de Estado que o capitalismo tinha enterrado. Seus ep\u00edgonos, da Guerra Fria \u00e0 guerrilha, s\u00f3 serviram para alimentar a gula da met\u00e1stase, que aproveitou a desmoraliza\u00e7\u00e3o do socialismo para vencer as barreiras \u00e9ticas engendradas na luta contra o absolutismo reinol do s\u00e9culo 18.<\/p>\n<p>Vivemos \u00e0 sombra dessa derrota. Abrimos um neg\u00f3cio para o Estado nos devorar com tributos e tudo cair na m\u00e3o dos chineses, que s\u00e3o tamb\u00e9m absolutistas de Estado. As atividades econ\u00f4micas s\u00e3o vilanizadas pelo pragmatismo do voto contaminado. Celebram-se os grandes projetos, distribui-se esmolas, premia-se os empreiteiros, mas jamais deixam que as for\u00e7as econ\u00f4micas sociais, norteadas por uma \u00e9tica, ou seja, um estado democr\u00e1tico esclarecido, promovam o bem estar e o desenvolvimento.No brasil, empres\u00e1rio ainda \u00e9 nome feio.<\/p>\n<p>As recentes manifesta\u00e7\u00f5es anti-Wall Street n\u00e3o s\u00e3o contra o capitalismo, mas contra a met\u00e1stase, contra a ind\u00fastria financeira sem limites e superconcentradora de renda. N\u00e3o \u00e9, portanto, de esquerda. Nem de direita, pois quer equil\u00edbrio e \u00e9tica nos neg\u00f3cios, e isso implica o bem estar de todos, n\u00e3o apenas do topo da pir\u00e2mide. Romper a l\u00f3gica do domin\u00f3 sinistro, em que a met\u00e1stase vampiriza a sobreviv\u00eancia das na\u00e7\u00f5es, e que come\u00e7a na especula\u00e7\u00e3o e acaba no desemprego, \u00e9 tarefa que se imp\u00f5e nesta segunda metade do s\u00e9culo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Capitalismo nasceu de uma rea\u00e7\u00e3o ao engessamento econ\u00f4mico e social promovido pelo absolutismo e o poder clerical. Mudou o paradigma das a\u00e7\u00f5es ao aproveitar a sem cerim\u00f4nia das pot\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o ao resto do mundo e eliminou as fronteiras para desencadear o que interessava, o lucro. 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