{"id":3587,"date":"2012-04-03T20:19:42","date_gmt":"2012-04-03T23:19:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3587"},"modified":"2012-04-03T20:19:42","modified_gmt":"2012-04-03T23:19:42","slug":"my-joy-surto-na-russia-profunda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/my-joy-surto-na-russia-profunda","title":{"rendered":"MY JOY: SURTO NA R\u00daSSIA PROFUNDA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Minha Felicidade (My Joy, 2010, ou Schastye moe, no original), de Sergei Loznitsa, com Viktor Nemets no papel do caminhoneiro que leva uma pancada na cabe\u00e7a e surta na R\u00fassia profunda, foi um dos destaques de Cannes em 2010. O filme, que tem muito da experi\u00eancia do diretor com document\u00e1rios, \u00e9 aterrador. Um exemplo de como o tecido social se esgar\u00e7a e nos fios rotos e pu\u00eddos das rela\u00e7\u00f5es sociais destru\u00eddas medra a brutalidade policial, a a\u00e7\u00e3o das m\u00e1fias em todas as atividades, a destrui\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, a pedofilia, a prostitui\u00e7\u00e3o, a mis\u00e9ria, o vazio, a vingan\u00e7a, o obscurantismo. A solidariedade e a boa vontade dan\u00e7am na m\u00e3o dos fac\u00ednoras.<\/p>\n<p>A fonte do horror \u00e9 o stalinismo, a burocratiza\u00e7\u00e3o do sistema social plantada sobre os despojos de sucessivas guerras, e seu desdobramento, a R\u00fassia p\u00f3s queda do Muro dominada pelos bandidos em toda pir\u00e2mide social. O soldado que traz o belo vestido para a noiva que enfim vai reencontrar, uma m\u00e1quina fotogr\u00e1fica Leica e um casaco de inverno, atira no algoz que rouba seus pertences e por isso perambula at\u00e9 a velhice sem identidade. O filme \u00e9 uma viagem da ex-URSS her\u00f3ica (quando o caminhoneiro come\u00e7a sua viagem ao som de um hino patri\u00f3tico) em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s ru\u00ednas, ao esp\u00f3lio do stalinismo, ao sumi\u00e7o dos corpos assassinados numa terra sem lei onde todos querem tirar proveito e as crian\u00e7as, velhos e mulheres dan\u00e7am na m\u00e3o da marmanjada bruta com ou sem farda.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito de document\u00e1rio: as figuras populares detonadas que se re\u00fanem na pra\u00e7a em torno da pr\u00f3pria pobreza n\u00e3o fazem parte da interpreta\u00e7\u00e3o, est\u00e3o l\u00e1 com toda a sua verdade. A jovem prostituta que n\u00e3o aceita esmolas e diz que se sustenta com seu of\u00edcio \u00e9 olhado com estupor pelas mulheres veteranas da aldeia, que observam a conduta da minoridade corrompida, mas querendo ser independente. O filme reporta o orgulho nacional sufocado pela barb\u00e1rie: os soldados desertores matam o professor adepto dos alem\u00e3es, que os considera cultos e, portanto, ir\u00e3o beneficiar o ensino.<\/p>\n<p>Mas o diretor peca pela falta de continuidade. O que \u00e9 admir\u00e1vel nos americanos \u00e9 que eles n\u00e3o repassam enigmas para o espectador. Exageram no tom did\u00e1tico, mas tamb\u00e9m n\u00e3o permitem que voc\u00ea confunda personagens. O caminhoneiro que leva uma pancada na cabe\u00e7a e fica mudo e catat\u00f4nico se parece com o companheiro de assaltos de uma dupla de mendigos. Ambos se confundem numa narrativa que n\u00e3o mostra a passagem do jovem motorista cheio de f\u00e9 para o desesperado homem barbudo (portanto, irreconhec\u00edvel) que perambula pela neve e acaba cometendo crimes.<\/p>\n<p>Fica assim parecendo uma colagem de muitas situa\u00e7\u00f5es sem liga\u00e7\u00e3o entre si. S\u00f3 depois que acaba o filme nos damos conta que os saquinhos brancos de pl\u00e1stico vendidos na feira cont\u00e9m a farinha roubada da carga do caminhoneiro v\u00edtima. Como \u00e9 um produto que veio de fonte advent\u00edcia, \u00e9 alvo da m\u00e1fia que espanca o novo vendedor. Mas isso n\u00e3o fica claro na hora de vermos a obra. Quando a mulher conta o dinheiro de uma venda, o que ela est\u00e1 vendendo? A carga, desconfiamos. Mas o filme n\u00e3o mostra. Precisa dizer com todos os frames sen\u00e3o confunde tudo. O cinema americano marca visualmente um personagem que assim n\u00e3o fica perdido na narrativa. Uma boa li\u00e7\u00e3o que deveria ser aplicada.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea faz um cinema de transgress\u00e3o, n\u00e3o pode ignorar simplesmente o c\u00e2none, \u00e9 preciso super\u00e1-lo, ou criar novas alternativas e n\u00e3o simplesmente incorrer em erros que o cinema cl\u00e1ssico j\u00e1 resolveu. Arte \u00e9 soma e s\u00f3 \u00e9 exclus\u00e3o pela supera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por ignorar o que foi feito. Elogiei aqui o filme turco Era Uma Vez em Anat\u00f3lia, http:\/\/outubro.blogspot.com.br\/2012\/03\/anatolia-exumacao-e-autopsia-de-clark.html em que os far\u00f3is selecionam closes no escuro da noite.Revi ontem o final de Blue Angel de Fritz Lang: essa solu\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica est\u00e1 l\u00e1 nos anos 30. Quando temos d\u00favida da fonte de algo importante, devemos apostar no certo: algum g\u00eanio j\u00e1 criou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Minha Felicidade (My Joy, 2010, ou Schastye moe, no original), de Sergei Loznitsa, com Viktor Nemets no papel do caminhoneiro que leva uma pancada na cabe\u00e7a e surta na R\u00fassia profunda, foi um dos destaques de Cannes em 2010. O filme, que tem muito da experi\u00eancia do diretor com document\u00e1rios, \u00e9 aterrador. 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