{"id":3593,"date":"2012-04-03T20:23:39","date_gmt":"2012-04-03T23:23:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3593"},"modified":"2012-04-03T20:23:39","modified_gmt":"2012-04-03T23:23:39","slug":"respirar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/respirar","title":{"rendered":"RESPIRAR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Leve uns versos para viagem. N\u00e3o s\u00e3o para ler, mas para respirar.<\/p>\n<p>Posso te tocar? Se deixares, me tocar\u00e1s.<\/p>\n<p>Te quero tanto que te pus no bolso. De vez em quando tiro para ver teu rosto. \u00c9 id\u00eantico ao presente que me deste, um doce.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 para ti, essa arte que extra\u00ed do meu sil\u00eancio, melodia que compus contigo dentro.<\/p>\n<p>N\u00e3o domino mais o curso dos versos que lancei ao mar. Eles aportam em ilhas do teu olhar.<\/p>\n<p>Reserva um tempo para outras coisas, disseram. Eu reservo. Mas o amor \u00e9 como crian\u00e7a, sempre se mete no meio.<\/p>\n<p>A liberdade \u00e9 uma pris\u00e3o sem ti.<\/p>\n<p>Passei r\u00e1pido por voc\u00ea. Deixei a seus p\u00e9s, como sempre, tudo o que sou, nessa passagem.<\/p>\n<p>Preciso me atualizar. Vou ler tuas p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>Dividi a cama contigo. Te amontoaste em busca de abrigo. Depois partiste porque estavas perdida. Mas deixaste tua blusa cinza, para vir pegar em seguida.<\/p>\n<p>Sabe quem te ligou? Algu\u00e9m. N\u00e3o disse o nome, s\u00f3 chorou um pouquinho.<\/p>\n<p>Preciso de um cora\u00e7\u00e3o novinho, disse ela. Aquele perdi, quando me deste o fora.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o cansa disso? perguntaram. Sim, mas quando descanso volta tudo, disse ele.<\/p>\n<p>Meu tempo livre est\u00e1 preso em teu vestido.<\/p>\n<p>Cultivei o correio. Reguei o endere\u00e7o. Fui entregue de manh\u00e3, quando ainda estavas com sono.<\/p>\n<p>Esqueci o que ia dizer. Acho que foi essa luz. Fecha um pouco os olhos para ver se eu lembro<\/p>\n<p>L\u00eas o poema que escrevi no papel em branco do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Expliquei mec\u00e2nica qu\u00e2ntica naquela tarde em teu quarto. Meu toque era part\u00edcula e onda ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Serei como um esp\u00edrito. Puxarei pelo teu p\u00e9 at\u00e9 ouvir teu grito. A\u00ed te trarei para perto como se faz com uma flor tonta de suspiros<\/p>\n<p>Pedes colo trazendo teu cheiro e teu cora\u00e7\u00e3o ofegante para perto do meu rosto. Morro em ti, tesouro.<\/p>\n<p>SAIA<\/p>\n<p>Mesmo quando vais embora por algumas horas me habitas com o vai e vem da tua saia.<\/p>\n<p>Estavas ainda mais linda na sua volta. Falando coisa com coisa, como sempre. Encanto.<\/p>\n<p>Me amarro em voc\u00ea. Somos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Voc\u00ea voltou a conversar comigo. Nem os p\u00e1ssaros quando voltam depois de longo inverno comp\u00f5em um sinal mais expl\u00edcito da minha alegria.<\/p>\n<p>Apaguei em tua homenagem. Me acendeste s\u00f3 de sacanagem.<\/p>\n<p>Voc\u00ea marcou hora para ir embora. Por que n\u00e3o vai agora para economizar o sofrimento da espera?<\/p>\n<p>N\u00e3o me d\u00ea nota. Sou previdente. J\u00e1 fui reprovado com anteced\u00eancia.<\/p>\n<p>Acabe com a tortura. Decrete anistia. Sou uma passeata contra a tua tirania. E n\u00e3o iluda: recuso o ex\u00edlio.<\/p>\n<p>Havia uma revoada de amor ainda agorinha. Que fim deram aquelas asas? Atra\u00eddas talvez pela viagem do sol em dire\u00e7\u00e3o ao abismo, a fuga da luz caindo para escapar do tua imagem oculta pelo escuro<\/p>\n<p>Hoje na hora do apag\u00e3o o beijo estalado em ti ser\u00e1 o meu. Quando voltar a luz, ver\u00e1s que n\u00e3o tem ningu\u00e9m. N\u00e3o se assuste.<\/p>\n<p>Sabe o que ela respondeu? Nada. Por isso mergulhei na tarde e desapareci, como p\u00e1ssaro pescador que n\u00e3o volta \u00e0 superf\u00edcie.<\/p>\n<p>LUA OCULTA<\/p>\n<p>N\u00e3o vi a Lua. Me contentei com voc\u00ea, musa.<\/p>\n<p>A Lua de dupla face claro-escura ocupava o centro do firmamento. Depois pendeu, com o peso da luz, para o horizonte. Ainda deu tempo de v\u00ea-la boiando ao lado de V\u00e9sper<\/p>\n<p>Sequei o cora\u00e7\u00e3o sob tua inclem\u00eancia. Agora que \u00e9 noite jogue na bacia. Ele far\u00e1 companhia com o reflexo da Lua.<\/p>\n<p>Todo mundo p\u00f4s roupa neste frio de Outono. S\u00f3 a Lua continua nua.<\/p>\n<p>Palavras bonitas servem para desvio do dinheiro p\u00fablico. Tenho lixa, ro\u00e7ado rude, urzes sob medida para tua pele de p\u00eassego.<\/p>\n<p>ESCRAVOS<\/p>\n<p>Antigamente existiam pessoas &#8220;liberadas&#8221;. Caiu em desuso. Todo mundo voltou a ser escravo.<\/p>\n<p>Em terra de escravos, todo mundo \u00e9 senhor.<\/p>\n<p>Quando passa da meia noite \u00e9 porque a noite perdeu a hora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Leve uns versos para viagem. 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