{"id":3599,"date":"2012-04-03T20:27:16","date_gmt":"2012-04-03T23:27:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3599"},"modified":"2012-04-03T20:27:16","modified_gmt":"2012-04-03T23:27:16","slug":"lais-chaffe-minimo-verbo-de-maximo-fogo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/lais-chaffe-minimo-verbo-de-maximo-fogo","title":{"rendered":"LA\u00cdS CHAFFE: M\u00cdNIMO VERBO DE M\u00c1XIMO FOGO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Os poetas se anteciparam \u00e0 necessidade de mudar a linguagem para adapt\u00e1-la ao mundo e assim ajudar a transform\u00e1-lo. Na carona dessa mudan\u00e7a, a poesia tornou-se escassa numa \u00e9poca beletrista, certeira quando o discurso descrevia espirais de ilusionismo em volta das grandes guerras, emocionada sem apelar para as emo\u00e7\u00f5es baratas, demolidora na sua for\u00e7a de desestabiliza\u00e7\u00e3o dos discursos do poder e sedutora antes que a publicidade come\u00e7asse com seu arsenal de simula\u00e7\u00f5es em fun\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio. Virou minimalista, afor\u00edstica, implodida, sem derramamento de sangue. E mudaram os poetas para sempre.<\/p>\n<p>La\u00eds Chaffe faz parte dessa linhagem inaugurada quando havia necessidade de chutar a canela da folga cultural com margens indecentes que a tudo dominava. Seus poemas s\u00e3o o recept\u00e1culo desse trabalho aparentemente marginal, mas que ocupa o centro do mundo virado pelo avesso: o da linguagem voltada para si mesma em busca de uma solu\u00e7\u00e3o dos conflitos e que intensifica a necessidade de clareza do que nos move na vida. Antes que a abordagem ensa\u00edstica seja confundida com elogio, vamos a alguns exemplos do trabalho da poeta no volume que leva seu nome e que faz parte do projeto Instante Estante, da Castelinho Edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cPoesia:\/ desejo salivando\/ em frente \u00e0 mesa\/ vazia\u201d, escreve La\u00eds Chaffe na primeira p\u00e1gina do seu livro, mostrando o confronto entre a palavra como vontade e a oferta de um tempo sem sentido. \u201cNunca foi\/ muito popular,\/ como ent\u00e3o\/ diria n\u00e3o\/ quando as palavras\/ convidavam para brincar?\u201d, diz, sobre a voca\u00e7\u00e3o marginalizada na inf\u00e2ncia que encontra no espa\u00e7o l\u00fadico do verbo o seu futuro of\u00edcio. Verbo no duplo sentido, de a\u00e7\u00e3o substantiva, como vemos em alguns versos: &#8220;transl\u00facido na ta\u00e7a\/ o tinto j\u00e1 foi uva\/ tudo passa\u201d ou \u201cGua\u00edba, lago?\/ alguns resistem\/ eu rio\u201d. \u00c9 o ac\u00famulo de camadas de significados no mesmo espa\u00e7o do poema, levando \u00e0 leitura sobreposta de percep\u00e7\u00f5es que se cruzam entre a introspec\u00e7\u00e3o e a den\u00fancia.<\/p>\n<p>Mas seus poemas n\u00e3o se circunscrevem a esses voos breves. Alguns assumem forma mais cl\u00e1ssica como em Sina (\u201cAterriso\/ antes do voo\/ e mesmo sem engravidar\/ enjoo\u201d) convidando a leitura a revisit\u00e1-los, como se sempre um novo poema surgisse, liberto do que vimos num momento anterior. Essa mobilidade muitas vezes sugere desconforto, como em \u201cQuisera morar em mim\/ Negaram o habite-se\u201d. Ou intensa carga de revela\u00e7\u00f5es como nos bel\u00edssimos Vagas Emo\u00e7\u00f5es de Navegante Insatisfeito (\u201cqueria mais que o fervor\/ das \u00e1guas turvas\/ queimando sob a saia\u201d) e Bilhete (\u201cPrefiro o suor ao surto,\/ ao sangue, o s\u00eamen\u201d).<\/p>\n<p>Poeta ocupa seu pr\u00f3prio espa\u00e7o sob encomenda do que sente e sabe. La\u00eds Chaffe mostra a for\u00e7a do que diz nesta pequena e significativa amostra da poesia brasileira contempor\u00e2nea. Palavra econ\u00f4mica com poder m\u00e1ximo de fogo, que atinge o leitor atento, enredado em tantas linguagens artificiais. \u00c9 quando o poema rompe o la\u00e7o e reinaugura algo al\u00e9m do sonho, enriquecendo o mural de representa\u00e7\u00f5es do mundo dominado por in\u00fameras vontades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Os poetas se anteciparam \u00e0 necessidade de mudar a linguagem para adapt\u00e1-la ao mundo e assim ajudar a transform\u00e1-lo. 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