{"id":36,"date":"2005-05-13T21:29:31","date_gmt":"2005-05-13T23:29:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=36"},"modified":"2009-12-20T23:55:44","modified_gmt":"2009-12-21T01:55:44","slug":"jose-onofre-sobra-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/jose-onofre-sobra-de-guerra","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Onofre: Sobra de Guerra"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Onofre est\u00e1 bem servido de fortuna cr\u00edtica, porque a apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u00e9 feita por Luis Fernando Ver\u00edssimo, seu leitor de longa data. Quem tem um f\u00e3 de carteirinha como Ver\u00edssimo pode aposentar-se sem ter publicado uma \u00fanica linha &#8211; o que n\u00e3o \u00e9 o caso de Jos\u00e9 Onofre, jornalista de larga e profunda milit\u00e2ncia cultural, autor de textos primorosos sobre a melhor literatura e, como prova este livro, um escritor como poucos. Neste v\u00f4o liter\u00e1rio enxuto e demolidor de Sobra de Guerra, ele entreabre um ba\u00fa que o tempo &#8211; codinome da omiss\u00e3o &#8211; pensou ter fechado para sempre. O que vemos \u00e9 muito mais do que o corte afiado de suas frases. Mas algumas podem ser destacadas, por ordem de apari\u00e7\u00e3o, como nos filmes, para servir de vitrine do que estamos falando:<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea \u00e9 um c\u00e3o de ca\u00e7a jogado ainda vivo e jovem num freezer.<\/p>\n<p>Apenas o gesto exato p\u00f5e em movimento a roda da fortuna.<\/p>\n<p>A m\u00e1fia entrou na literatura e a literatura entrou no crime.<\/p>\n<p>O que o pais precisa \u00e9 bom senso e boca fechada.<\/p>\n<p>D\u00e1 o fora antes que eu esque\u00e7a que sou um humanista.&#8221;<\/p>\n<p>Onofre explora a superficialidade da tampa para sugerir a profundidade do po\u00e7o. O di\u00e1logo escasso e alguns perfis ariscos dos personagens narram um crime que parece passional e pode ser pol\u00edtico; o sufoco de um apartamento ensanguentado, a reda\u00e7\u00e3o de jornal rondando a \u00falcera, uma delegacia com fantasmas no arm\u00e1rio s\u00e3o flashes de ambientes que n\u00e3o merecem mais do que um ou dois par\u00e1grafos. Sinal de que Onofre n\u00e3o perde tempo para dizer a que veio &#8211; j\u00e1 que pressup\u00f5e o leitor como um c\u00famplice, a quem n\u00e3o se deve muitas explica\u00e7\u00f5es., afora o essencial &#8211; ou seja, os detalhes.<\/p>\n<p>O pa\u00eds que emerge dessa usura narrativa \u00e9 o mesmo revelado em qualquer mesa de bar, quando se fala pouco para a conversa n\u00e3o desviar a aten\u00e7\u00e3o do copo. A conten\u00e7\u00e3o leva o leitor a uma paisagem de primeiros planos, quando \u00e9 poss\u00edvel reconhecer a m\u00e1scara de cada um. O tiro desferido poupa o espelho quando podemos reconhecer, pelo reflexo da sobra, a ess\u00eancia da guerra. Vemos ent\u00e3o um territ\u00f3rio que o romance policial cl\u00e1ssico &#8211; e estrangeiro &#8211; costuma catar no lixo.<\/p>\n<p>Se cavarmos qualquer hist\u00f3ria de detetive escrita em ingl\u00eas encontraremos o Brasil naquilo que os personagens adoram pisar, e que aqui costumamos comer. Aparentemente, fica simples escrever hist\u00f3rias policiais com o material que temos \u00e0 m\u00e3o. Mas \u00e9 essa facilidade que nos inviabiliza para o g\u00eanero. N\u00e3o h\u00e1 o que descobrir quando todos sabem de tudo e todos consentem em calar por h\u00e1bito &#8211; terno azul que veste o corpo da covardia. Se n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda, nenhum caso poder\u00e1 ser decifrado. E se n\u00e3o h\u00e1 o que descobrir, todos s\u00e3o bandidos.<\/p>\n<p>O inspetor que no in\u00edcio da trama comporta-se com indiferen\u00e7a n\u00e3o reverte, no final &#8211; como acontece nos romances do g\u00eanero -para uma nobreza tardiamente revelada. Ao contr\u00e1rio: aqui o nosso detetive acaba confundindo-se com a mat\u00e9ria-prima que ele tenta revolver. O mais tr\u00e1gico -e magistral &#8211; \u00e9 que o autor n\u00e3o reivindica a salva\u00e7\u00e3o, como acontece de maneira demag\u00f3gica nos romances policiais. Tradicionalmente, quando o detetive revela enfim sua humanidade, no desfecho, \u00e9 o escritor que encontra uma v\u00e1lvula para reconstruir-se e partir para um novo romance. Isso n\u00e3o acontece em Jos\u00e9 Onofre, porque sua \u00e9tica \u00e9 t\u00e3o destruidora quanto a pol\u00edtica recriada em seu livro.<\/p>\n<p>Ele fecha o cerco sobre si mesmo e se retira para n\u00e3o mais voltar.\u00a0L\u00e1 ele nos espera, com a chave do seu enigma, contrapondo-se ao horror, armado apenas de algumas palavras. Se fosse em Londres, chamariam essa postura e essa capacidade de talento. Como \u00e9 no Brasil, podemos cham\u00e1-las de coragem, que \u00e9 a \u00fanica arma capaz de revelar a verdadeira voca\u00e7\u00e3o para a literatura entre n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resenha sobre SOBRA DE GUERRA, de Jos\u00e9 Onofre (L&#038;PM, 1982):Se cavarmos qualquer hist\u00f3ria de detetive escrita em ingl\u00eas encontraremos o Brasil naquilo que os personagens adoram pisar, e que aqui costumamos comer. Aparentemente, fica simples escrever hist\u00f3rias policiais com o material que temos \u00e0 m\u00e3o. Mas \u00e9 essa facilidade que nos inviabiliza para o g\u00eanero.Resenha sobre SOBRA DE GUERRA, de Jos\u00e9 Onofre (L&#038;PM, 1982):Se cavarmos qualquer hist\u00f3ria de detetive escrita em ingl\u00eas encontraremos o Brasil naquilo que os personagens adoram pisar, e que aqui costumamos comer. Aparentemente, fica simples escrever hist\u00f3rias policiais com o material que temos \u00e0 m\u00e3o. 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