{"id":360,"date":"2009-12-10T13:02:18","date_gmt":"2009-12-10T15:02:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=360"},"modified":"2009-12-22T03:04:13","modified_gmt":"2009-12-22T05:04:13","slug":"o-poeta-no-eito","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-poeta-no-eito","title":{"rendered":"O POETA NO EITO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nicas de Manuel Bandeira revelam o art\u00edfice da palavra no embate \u00e1rduo da sobreviv\u00eancia<br \/>\n<\/em><br \/>\nQuatro p\u00e1ginas di\u00e1rias datilografadas eram o seu limite, o m\u00e1ximo que as unhas de Manuel Bandeira podiam suportar. A enorme quantidade de compromissos, desde as cr\u00f4nicas semanais sobre literatura e artes pl\u00e1sticas, entre 1930 e 1945, at\u00e9 as tradu\u00e7\u00f5es, os projetos especiais e as colabora\u00e7\u00f5es em in\u00fameras revistas liter\u00e1rias, faziam do t\u00edsico e hep\u00e1tico poeta um oper\u00e1rio do verbo com encomendas acima de suas for\u00e7as. Por isso costumava se livrar de alguns encargos, mesmo que fossem melhor remunerados do que outros, que s\u00f3 compensavam pela quantidade de livros depositados gratuitamente na sua mesa.<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m o tempo investido em eventos e visitas ao objeto de seus textos, como acontecia nos sal\u00f5es e exposi\u00e7\u00f5es das artes pl\u00e1sticas. Como eram poucas as obras que valiam a pena serem vistas e comentadas, Bandeira se torturava de ter que falar dos aquarelistas que exigiam aten\u00e7\u00e3o, dos diletantes, dos simplesmente picaretas que estavam de olho nos pr\u00eamios concedidos todos os anos pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade do ministro Gustavo Capanema, do governo de Get\u00falio Vargas. Foi assim que, depois de anos publicando seu rodap\u00e9 no jornal A Manh\u00e3, ele convenceu o poeta Cassiano Ricardo que deveria se livrar dele, no que foi atendido.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, precisava lembrar a seus editores que havia contas para pagar e acabava pressionando para que a remunera\u00e7\u00e3o pingasse na sua asc\u00e9tica vida de intelectual de esp\u00edrito livre e de grande coragem e f\u00f4lego. Em todas as 478 p\u00e1ginas deste segundo volume das Cr\u00f4nicas In\u00e9ditas lan\u00e7ado pela CosacNaify, com organiza\u00e7\u00e3o, posf\u00e1cio e notas de J\u00falio Casta\u00f1on Guimar\u00e3es, existe a postura exemplar do poeta. Como, por exemplo, a \u201ccrueldade\u201d expressa na sua atua\u00e7\u00e3o como jurado de concursos liter\u00e1rios, em que colocava a meritocracia acima de todas as injun\u00e7\u00f5es. Assim se livrava dos que exigiam os pr\u00eamios explicitamente ou por vias indiretas. Tinha gente que n\u00e3o respeitava a assinatura por pseud\u00f4nimo, por exemplo, e entregava o nome verdadeiro, para tentar influenciar, em v\u00e3o, o resultado.<\/p>\n<p>Eis uma li\u00e7\u00e3o para os dias de hoje, em que, dividindo o n\u00famero de obras pelos dias dispon\u00edveis dos jurados, ter\u00edamos recordes, como a leitura de sete romances por dia, como \u00e0s vezes acontece. Como chegar a um denominador comum em t\u00e3o ex\u00edguo prazo? Ou, ent\u00e3o, como denuncia determinado di\u00e1logo entre dois amigos escritores, em que um confessava ter participado de um concurso em que o outro era jurado. O evento j\u00e1 tinha sido conclu\u00eddo e o autor em quest\u00e3o n\u00e3o fora premiado. A resposta do outro foi: \u201cMas por que voc\u00ea n\u00e3o me avisou?\u201d<\/p>\n<p>A sinceridade extrema do poeta era fruto do seu enorme conhecimento cultural, da presen\u00e7a de esp\u00edrito diante da avalanche de obras, da intui\u00e7\u00e3o certeira que se decidiu pelos melhores quando os talentos nem eram ainda conhecidos (de Vinicius de Morais a Iber\u00ea Camargo). Bandeira fazia justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os e usava frequentemente o chamado humour, a gra\u00e7a ferina no lugar da frase aned\u00f3tica. Dizia coisas mais ou menos assim: \u201cfulano \u00e9 t\u00e3o talentoso que tem o poder de estragar a pr\u00f3pria obra; o \u00fanico problema \u00e9 que o pintor colocou uma jarra de \u00e1gua bem no meio da tela s\u00f3 para estrag\u00e1-la; o poeta decidiu pintar, mas ele n\u00e3o me convenceu; o modernismo \u00e9 um novo academismo; este ano o sal\u00e3o est\u00e1 cheio de portinarices,\u201d entre outras preciosidades do sarcasmo e da ironia.<\/p>\n<p>O sabor destas cr\u00f4nicas \u00e9 que Bandeira revela sua \u00e9poca pelo filtro da intelig\u00eancia e da sensibilidade. Poder\u00edamos dizer que qualquer tempo \u00e9 v\u00edtima da barb\u00e1rie e da trucul\u00eancia, e cada momento da vida humana, com voca\u00e7\u00e3o para a brutalidade, acaba se salvando gra\u00e7as aos esp\u00edritos mais elevados, que mergulham fundo e trazem \u00e0 tona, tanto para os contempor\u00e2neos quanto para os p\u00f3steros, as joias que a humanidade produz e nem sempre est\u00e3o vis\u00edveis. \u00c9 preciso que os grandes mestres fa\u00e7am parte dessa corrente poderosa que define na\u00e7\u00f5es e d\u00e9cadas, para que possamos nos orgulhar de sermos humanos.<\/p>\n<p>S\u00f3 que existem \u00e9pocas que sobram em realiza\u00e7\u00f5es e grandes esp\u00edritos. Manuel estava rodeado pelo que havia de melhor no mundo, tanto os escritores e artistas de primeiro time, como Mario de Andrade e Guignard, os livreiros e editores, como Jos\u00e9 Olympio, e participava de acontecimentos de repercuss\u00e3o internacional, j\u00e1 na \u00e9poca da guerra e da Pol\u00edtica da Boa Vizinhan\u00e7a, \u00e9ramos tratados como aliados importantes. Havia, tamb\u00e9m, a riqueza dos temas que entraram na pauta obrigat\u00f3ria da na\u00e7\u00e3o depois da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, um evento que ele considerava positivo, conforme suas pr\u00f3prias palavras: \u201cA revolu\u00e7\u00e3o brasileira, ainda quando n\u00e3o tivesse a vantagem, que todos esperavam dela, de sanear o ambiente pol\u00edtico de nossa terra, deu alguma satisfa\u00e7\u00e3o a essas exig\u00eancias espirituais de renova\u00e7\u00e3o (&#8230;) Quanta coisa mudou! Positivamente, \u00e9 o outro lado da Lua. Declaro que estou encantado\u201d.<\/p>\n<p>Sua coluna Impress\u00f5es Liter\u00e1rias, que publicava no carioca Di\u00e1rio de Not\u00edcias, foi a oportunidade de verificar a explos\u00e3o editorial do pa\u00eds logo depois da revolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o que o governo fizesse grande coisa, alertava, mas porque a m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o geral acabou beneficiando o pre\u00e7o da mat\u00e9ria-prima, o papel, e assim in\u00fameros escritores tiveram a chance de chegar at\u00e9 o front do eito do poeta. A tudo ele abordou fora da milit\u00e2ncia modernista, segundo observa\u00e7\u00e3o de Julio Castan\u00f5n Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>Sem nenhum tipo de amarra, ele se dava o luxo de propor a Vinicius de Morais que n\u00e3o insistisse muito no verso livre, j\u00e1 que ele poderia ser melhor no esquema tradicional da poesia. E puxava as orelhas de Jorge de Lima, do livro A T\u00fanica Incons\u00fatil, pelo excesso do tom b\u00edblico tradicional, exigindo que o autor voltasse ao equil\u00edbrio de seus lan\u00e7amentos anteriores. Tanta sinceridade deve ter-lhe dado mais do que uma dor de cabe\u00e7a. Por isso, desabafou nas suas pr\u00f3prias cr\u00f4nicas, chegando a confessar, a certa altura, que era um poeta menor, o que confunde at\u00e9 hoje seus exegetas, que levaram essa declara\u00e7\u00e3o ao p\u00e9 da letra. Num esfor\u00e7o de reportagem, chegaram a dizer que Bandeira seria o nosso \u201cmaior poeta menor\u201d, o que \u00e9 um primor de contrafa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. No dia em que um autor como Bandeira for considerado menor, pode fechar o Brasil para balan\u00e7o.<\/p>\n<p>Em outro desabafo, ele confessou n\u00e3o entender nada de artes pl\u00e1sticas, o que, desta vez, sim, deve ser levado ao p\u00e9 da letra. N\u00e3o que ele desconhecesse o m\u00e8tier. Mas ele chamava a aten\u00e7\u00e3o para o que importava. Pois ele entende \u00e9 de texto, de palavra, de m\u00fasica do verbo. O poeta n\u00e3o pinta, n\u00e3o desenha, n\u00e3o fotografa, apenas escreve. Mas ali no seu territ\u00f3rio sagrado, ele \u00e9 mestre do of\u00edcio, e as artes pl\u00e1sticas ou a literatura s\u00f3 t\u00eam a ganhar com isso.<\/p>\n<p>Manejando a sua m\u00e1quina Royal, que exigia esfor\u00e7o no ato de teclar, Bandeira nos deslumbra com sua lucidez e talento. \u00c9 um Mestre, com todas as letras. Precisamos urgentemente deles. Que voltem do Olimpo e reguem novamente o cora\u00e7\u00e3o seco da na\u00e7\u00e3o, entregue aos assassinos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em todas as 478 p\u00e1ginas deste segundo volume das Cr\u00f4nicas In\u00e9ditas lan\u00e7ado pela CosacNaify, com organiza\u00e7\u00e3o, posf\u00e1cio e notas de J\u00falio Casta\u00f1on Guimar\u00e3es, existe a postura exemplar do poeta Manuel Bandeira. Como, por exemplo, a \u201ccrueldade\u201d expressa na sua atua\u00e7\u00e3o como jurado de concursos liter\u00e1rios, em que colocava a meritocracia acima de todas as injun\u00e7\u00f5es. Assim se livrava dos que exigiam os pr\u00eamios explicitamente ou por vias indiretas. Tinha gente que n\u00e3o respeitava a assinatura por pseud\u00f4nimo, por exemplo, e entregava o nome verdadeiro, para tentar influenciar, em v\u00e3o, o resultado.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/360"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=360"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/360\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1918,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/360\/revisions\/1918"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}