{"id":3601,"date":"2012-04-03T20:28:27","date_gmt":"2012-04-03T23:28:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3601"},"modified":"2012-04-03T20:28:27","modified_gmt":"2012-04-03T23:28:27","slug":"todo-filme-e-sobre-cinema","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/todo-filme-e-sobre-cinema","title":{"rendered":"TODO FILME \u00c9 SOBRE CINEMA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Toda vez que a c\u00e2mara aponta para o alvo obedecendo a um roteiro, uma edi\u00e7\u00e3o, a uma narrativa, est\u00e1 enfocando a arte em si mesma, no caso, o cinema. Pode ser filme de qualquer g\u00eanero, dimens\u00e3o ou \u00e9poca, sempre haver\u00e1 esse foco direcionado. N\u00e3o para um suposto conte\u00fado, como drama, mem\u00f3ria, guerra ou poesia, mas sempre o cinema cumprindo sua fun\u00e7\u00e3o. Pois n\u00e3o se trata de imp\u00e9rios, cidades, her\u00f3is ou vil\u00f5es, mas a maneira como foi criada a solu\u00e7\u00e3o audiovisual para chegar ao espectador.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas o fato de, em Pierrot Le Fou, Paul Belmondo perguntar a Samuel Fuller de que se trata o cinema. Fuller responde que \u00e9 a\u00e7\u00e3o, amor etc.(&#8220;numa palavra: emo\u00e7\u00e3o&#8221;), mas a resposta \u00e9 dada pela c\u00e2mara de Godard: \u00e9 de cinema que est\u00e1 se tratando. Ou em Mem\u00f3rias de Helena, de David Neves, a Super 8 aparecer como protagonista do resgate da mulher amada. Ou o detalhe de que, em muitos filmes, \u00e9 recorrente a refer\u00eancia a alguma obra que define um tempo, quando, ao fundo da a\u00e7\u00e3o, os letreiros de uma sala anunciam uma atra\u00e7\u00e3o. Ou que os filmes favoritos s\u00e3o citados explicitamente ou fazem parte da trama, num efeito domin\u00f3 infinito que costura as obras atrav\u00e9s das d\u00e9cadas. Ou o tema da S\u00e9tima Arte ser presente de forma decisiva como em Crep\u00fasculo dos Deuses, ou coadjuvante, em Tetro. N\u00e3o \u00e9 apenas essa evid\u00eancia que confirma a ideia.<\/p>\n<p>\u00c9 principalmente a no\u00e7\u00e3o exata que temos de estar vendo um filme quando nos postamos diante da tela. Pois se o filme aborda o Imp\u00e9rio Romano, sabemos que aquilo n\u00e3o \u00e9 Roma, \u00e9 Hollywood ou Cinecitt\u00e1. Sabemos que s\u00e3o truques, que as pessoas que morrem na tela sobrevivem na vida real, que a ilumina\u00e7\u00e3o cria o clima e o ambiente, que n\u00e3o existe reconstitui\u00e7\u00e3o de \u00e9poca e sim a disposi\u00e7\u00e3o de elementos do cen\u00e1rio em fun\u00e7\u00e3o da narrativa. O que nos leva ao cinema \u00e9 o pr\u00f3prio cinema, n\u00e3o a Gr\u00e9cia antiga ou a Resist\u00eancia francesa. Porque \u00e9 disso que se trata. Quando pela primeira vez o p\u00fablico foi ver um filme, aquele dos irm\u00e3os Lumi\u00e8re que mostra um trem edm movimento vindo para cima das c\u00e2maras, todos se levantaram em p\u00e2nico. Foi quando descobriram que a tela mostrava n\u00e3o um trem de verdade, mas a S\u00e9tima Arte.<\/p>\n<p>Uma grande parte da produ\u00e7\u00e3o audiovisual hoje, e que serve para abastecer os in\u00fameros canais pagos ou da Tv aberta, na ind\u00fastria do espet\u00e1culo, \u00e9 a filmagem dos bastidores da produ\u00e7\u00e3o. Um ator ou atriz, produtor ou diretor ou roteirista fala sobre o que est\u00e1 sendo montado e como foi feita tal cena e quais as dificuldades encontradas para que algo desse certo. Ficamos sabendo dos riscos que Tom Cruise correu ao filmar Miss\u00e3o Imposs\u00edvel, o que Scarlett Johansson sentiu quando protagonizou um filme de Woody Allen, o que pensa um cineasta sobre o trabalho do seu colega, como foi formada a equipe, o que a estrela tem a dizer sobre determinado detalhe etc. O cinema \u00e9 o foco, servindo de apoio para o filme, que trata exatamente da mesma coisa e \u00e9 seu resultado.<\/p>\n<p>Pode-s elencar in\u00fameros filmes que jamais citaram a S\u00e9tima Arte ou s\u00e3o document\u00e1rios realistas que marcaram \u00e9poca e que ent\u00e3o iriam contrariar o enfoque deste artigo. Pode-se contra argumentar que todos os filmes que n\u00e3o citam a S\u00e9tima Arte explicitamente s\u00e3o sobre o filme que est\u00e1 sendo feito, desde o primeiro enquadramento, o primeiro di\u00e1logo, at\u00e9 o The End. O filme noir que \u00e9 sobre a investiga\u00e7\u00e3o de um crime \u00e9 o claro escuro e os enquadramentos, a m\u00fasica e as sequ\u00eancias definindo o perfil dos personagens e criando suspense. \u00c9 a obra em permanente auto-refer\u00eancia.<\/p>\n<p>O que pega em Hitchcock? O suspense? N\u00e3o, o cinema. Quantos cortes h\u00e1 na c\u00e9lebre cena do assassinato da mulher no banheiro? O que James Stewart v\u00ea da sua janela, um crime? N\u00e3o, uma cena de cinema, onde um poss\u00edvel assassinato d\u00e1 alguns sinais de que algo sinistro est\u00e1 acontecendo. Stewart \u00e9 o espectador permanente, est\u00e1 sempre de bin\u00f3culo em punho, fazendo sua montagem. Representa a n\u00f3s, espectadores do filme. Ele nos leva pela m\u00e3o para o centro do drama: veja, isto \u00e9 o cinema, o cachorrinho tentando desenterrar a cabe\u00e7a da mulher escondida pelo assassino no jardim.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos continuar indefinidamente neste ritmo, mas o que destaco \u00e9 que esse enfoque costura todo o meu trabalho ensa\u00edstico sobre a S\u00e9tima Arte. N\u00e3o \u00e9 pequeno e gira em torno desse foco. \u00c9 meu instrumento de trabalho, minha metodologia. Sem procurar for\u00e7ar a tese, noto que todo filme \u00e9 sobre cinema. \u00c9 a marca registrada dos meus textos produzidos depois que aparecem os letreiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Toda vez que a c\u00e2mara aponta para o alvo obedecendo a um roteiro, uma edi\u00e7\u00e3o, a uma narrativa, est\u00e1 enfocando a arte em si mesma, no caso, o cinema. Pode ser filme de qualquer g\u00eanero, dimens\u00e3o ou \u00e9poca, sempre haver\u00e1 esse foco direcionado. N\u00e3o para um suposto conte\u00fado, como drama, mem\u00f3ria, guerra ou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3601"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3601"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3601\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3605,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3601\/revisions\/3605"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3601"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3601"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3601"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}