{"id":364,"date":"2009-12-10T13:04:21","date_gmt":"2009-12-10T15:04:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=364"},"modified":"2009-12-22T00:27:25","modified_gmt":"2009-12-22T02:27:25","slug":"escute-belchior-o-que-anda-sumido","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/escute-belchior-o-que-anda-sumido","title":{"rendered":"ESCUTE BELCHIOR, O QUE ANDA SUMIDO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Aconteceu de verdade. Eu trabalhava na Ilustrada da Folha de S. Paulo, l\u00e1 por 1976\/77. Estava chegando na reda\u00e7\u00e3o da Bar\u00e3o de Limeira para mais uma tarde de trabalho quando Belchior, que estava passando na cal\u00e7ada, saindo do jornal, chegou para mim e disse: \u201cNei, li Outubro em Porto Alegre na casa de uma amiga, gostei muito mas n\u00e3o consegui levar o exemplar, a dona n\u00e3o deixou. Voc\u00ea consegue um para mim?\u201d Eu tinha lan\u00e7ado meu livro de estr\u00e9ia um ano antes e recebia ali, por parte do grande poeta que hoje anda sumido, uma demonstra\u00e7\u00e3o de apre\u00e7o, reconhecimento e considera\u00e7\u00e3o t\u00e3o raro quanto improv\u00e1vel. Parece um sonho, mas \u00e9 fato. Nem lembro direito o que disse para este que \u00e9 o mais radical artista da m\u00fasica popular, mas enviei um livro autografado mais tarde. E nunca mais nos falamos.<\/p>\n<p>Assim como surge, Belchior vai embora. Tem motivos de sobra. V\u00e1 a esse <a href=\"http:\/\/letras.terra.com.br\/belchior\/\">endere\u00e7o<\/a> e reviva todos seus grandes cl\u00e1ssicos e me diga se n\u00e3o tem raz\u00e3o em fazer o que o Fant\u00e1stico revelou no domingo, 23 dde agosto de 2009. Belchior deixou im\u00f3veis com tudo dentro, com contas a pagar, um autom\u00f3vel estacionado no aeroporto de Congonhas, que j\u00e1 soma 18 mil em d\u00edvidas, n\u00e3o liga nem escreve para ningu\u00e9m conhecido e, segundo alguns f\u00e3s, \u00e9 visto no Chile, no Uruguai, em Salvador desde quando deixou de aparecer e de atender as solicita\u00e7\u00f5es de shows, isso j\u00e1 faz dois anos. Bem que ele avisou em seus versos: \u201cGente de minha rua\/ Como eu andei distante\/ Quando eu desapareci\u201d<\/p>\n<p>Vamos imaginar que n\u00e3o aconteceu o pior (n\u00e3o seria o caso de acionar o setor de Pessoas Desaparecidas?), que Belchior n\u00e3o esteja no outro lado nem precisando de ajuda e que apenas cumpriu sua pr\u00f3pria profecia, fruto de sua radicalidade em n\u00e3o compactuar com o sistema de ilus\u00f5es e sacanagens que nos envolveu nos \u00faltimo 45 anos. Em todas as suas letras, Belchior d\u00e1 seu principal recado, sintetizado nestes versos: \u201cEu n\u00e3o estou interessado\/ Em nenhuma teoria\/ Nem nessas coisas do oriente\/ Romances astrais\/ A minha alucina\u00e7\u00e3o\/ \u00c9 suportar o dia-a-dia\/ E meu del\u00edrio\/ \u00c9 a experi\u00eancia\/ Com coisas reais&#8230;\u201d O incr\u00edvel \u00e9 que agora querem saber apenas onde anda, para solucionar o mist\u00e9rio e n\u00e3o para decifrar seu enigma. Continuam n\u00e3o querendo saber como ele anda, como \u00e9 ou foi seu caminho, o que percorreu com sua arte.<\/p>\n<p>Com seu talento ele chamou a aten\u00e7\u00e3o de Elis Regina (que por um tempo lhe deu visibilidade), mas isso foi apenas um passo, n\u00e3o resume sua grandeza. Belchior \u00e9 muito maior do que a percep\u00e7\u00e3o que temos dele. Pode ser tarde demais, talvez tenha mesmo desistido de nos falar o que sempre nos disse com todas as letras. Mas n\u00e3o importa. \u00c9 hora de escut\u00e1-lo de novo: \u201cOra direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso\/ Eu vos direi no entanto:\/ Enquanto houver espa\u00e7o, corpo e tempo e algum modo de dizer n\u00e3o\/ Eu canto.\u201d Por ser completo, Belchior tamb\u00e9m n\u00e3o se limitou a essa insist\u00eancia sobre a necessidade de nos transformar, de nos expressar, de superarmos o passado, de resgatar o que perdemos, de apontar para o futuro. \u00c9 tamb\u00e9m e principalmente um cantor do amor e seus desdobramentos: \u201cDeixando a profundidade de lado \/Eu quero \u00e9 ficar colado \u00e0 pele dela noite e dia\/ Fazendo tudo de novo e dizendo sim \u00e0 paix\u00e3o morando na filosofia\u201d.<\/p>\n<p>Belchior tamb\u00e9m carrega nos seus versos, nas suas m\u00fasicas, nas suas interpeta\u00e7\u00f5es, as cita\u00e7\u00f5es do que lhe emociona e faz a cabe\u00e7a. Ningu\u00e9m cita tanto quanto ele. Faz refer\u00eancias a Caetano Veloso (seu Outro em negativo), Poe, Lorca, John Lennon, Jo\u00e3o Cabral. Nascido e criado no Cear\u00e1, tendo vindo para o Sul, Belchior n\u00e3o cai nas armadilhas dos lugares comuns da \u201cgente do sert\u00e3o\u201d e levanta a voz contra a mesmice da nossa percep\u00e7\u00e3o, em que colocamos essa dualidade entre uma parte rica do Brasil em confronto com a parte pobre. E debocha, com lirismo e grande met\u00e1fora: \u201cPois o que pesa no norte, pela lei da gravidade,\/ disso Newton j\u00e1 sabia! Cai no sul grande cidade\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 impressionante a quantidade de obras-primas produzidas por Belchior ao longo de sua vida. Para quem, como ele, extrapolou todos os limites da can\u00e7\u00e3o, inaugurou um novo canto, alertou sobre os pesadelos que nos assassinaram, que cantou o amor sem fechar os olhos, que carregou esse andor pesado pelo pa\u00eds em ru\u00ednas, \u00e9 compreens\u00edvel que tenha abandonado tudo e sa\u00eddo porta afora. S\u00f3 rezamos para que ele continue em algum lugar, vivo. &#8220;O passado \u00e9 uma roupa que j\u00e1 n\u00e3o serve mais&#8221;.<\/p>\n<p>Mas a verdade, Belchior, \u00e9 que todos n\u00f3s sumimos. Fomos soterrados pela inc\u00faria, a inveja, a mediocridade, a brutalidade, a dor, a morte da esperan\u00e7a. Fomos destru\u00eddos, jogados fora, esquecidos. E agora que estamos sumidos querem nossas pistas. \u201cAnjos mexem nos arm\u00e1rios\/ procuram p\u00e1lidos\/ o que perdi na aventura tr\u00e1gica\u201d como digo num poema em Outubro. O mesmo livro que te emocionou e que ainda espero conversar sobre ele e sobre a tua poesia. Pois se tudo some pelo ralo, fica a nossa voz e a vontade do reencontro.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea mesmo diz: \u201cO que \u00e9 que eu posso fazer\/ com a minha juventude\/ quando a m\u00e1xima sa\u00fade hoje\/ \u00e9 pretender usar a voz?\/ O que \u00e9 que eu posso fazer\/ um simples cantador das coisas do por\u00e3o?\/ Deus fez os c\u00e3es da rua pra morder voc\u00eas\/ que sob a luz da lua,\/ os tratam como gente &#8211; \u00e9 claro! &#8211; a pontap\u00e9s.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em todas as suas letras, Belchior d\u00e1 seu principal recado, sintetizado nestes versos: \u201cEu n\u00e3o estou interessado\/ Em nenhuma teoria\/ Nem nessas coisas do oriente\/ Romances astrais\/ A minha alucina\u00e7\u00e3o\/ \u00c9 suportar o dia-a-dia\/ E meu del\u00edrio\/ \u00c9 a experi\u00eancia\/ Com coisas reais&#8230;\u201d O incr\u00edvel \u00e9 que agora querem saber apenas onde anda, para solucionar o mist\u00e9rio e n\u00e3o para decifrar seu enigma. 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