{"id":368,"date":"2009-12-10T13:05:51","date_gmt":"2009-12-10T15:05:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=368"},"modified":"2009-12-22T00:29:14","modified_gmt":"2009-12-22T02:29:14","slug":"woodstock-a-utopia-revisitada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/woodstock-a-utopia-revisitada","title":{"rendered":"WOODSTOCK: A UTOPIA REVISITADA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nUtopia significa n\u00e3o-lugar, portanto n\u00e3o adianta cercar Woodstock ou a fazenda onde foi realizado o megaevento de 1969 e que hoje \u00e9 comemorado como um quarent\u00e3o famoso. J\u00e1 foi provado que repeti-lo tamb\u00e9m n\u00e3o significa nada. Voc\u00ea pode ir at\u00e9 o local, colher um punhado de terra para guard\u00e1-lo num gaveta, pagar um guia para dizer onde foi que os caras rolaram na lama, chamar um monte de estrelas da m\u00fasica, tudo ser\u00e1 in\u00fatil. Woodstock existe em outro plano, t\u00e3o real quanto um por-de-sol: ele dura alguns segundos, mas voc\u00ea o guarda para sempre no cora\u00e7\u00e3o, na mem\u00f3ria, na imagina\u00e7\u00e3o e no sonho. Veja e escute Joe Cocker cantando os Beatles, Jimi Hendrix arrasando o hino americano ou Santana despertando o cosmo escuro: l\u00e1 brilha solit\u00e1ria a estrela da revolu\u00e7\u00e3o assassinada.<\/p>\n<p>Porque aconteceu assim e ningu\u00e9m atenta: o grande acontecimento dos anos 60 foi uma retomada dos princ\u00edpios humanos abandonados pela sociedade de massas, a mesma que levou na\u00e7\u00f5es \u00e0 guerra de exterm\u00ednio e transformou em neg\u00f3cio torpe a sagrada luta pela sobreviv\u00eancia. N\u00e3o foi a ind\u00fastria do espet\u00e1culo que inventou aquela magia, nem as adolescentes gritando desesperadas nos show de rock. N\u00e3o foram os cabelos compridos nem as roupas bizarras, ou a revolu\u00e7\u00e3o sexual ou os protestos anti-Vietnam. Tudo isso \u00e9 apar\u00eancia, conseq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p>O n\u00facleo da quest\u00e3o est\u00e1 na percep\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de Mario Quintana no pref\u00e1cio do meu livro (de 1979) No meio da rua, em que ele identifica \u201caquele hist\u00f3rico e s\u00fabito movimento de maturidade e independ\u00eancia dos jovens &#8211; os quais se apresentavam de longas barbas, n\u00e3o para imitarem seus venerandos av\u00f3s, mas sim, creio eu, numa esp\u00e9cie de reencarna\u00e7\u00e3o do homem das cavernas -, visto que era preciso recome\u00e7ar tudo\u201d. Touch\u00e9! Est\u00e1 tudo nesta frase.<\/p>\n<p>Maturidade e independ\u00eancia, ao contr\u00e1rio do que dizem, de que era manifesta\u00e7\u00e3o de pessoas irrespons\u00e1veis. As longas barbas, ou os cabelos e roupas, eram apenas um sintoma da necessidade de zerar tudo, de recome\u00e7ar do nada. Pois se tinham destru\u00eddo o esp\u00edrito humano com a bomba nuclear covardemente jogada em centenas de milhares de civis desarmados, se tinham levado gera\u00e7\u00f5es \u00e0 morte num pequeno espa\u00e7o de meio s\u00e9culo, se tinham criado sistemas monstruosos de opress\u00e3o e tirania nos dois lados da Guerra Fria, se tinham esvaziado o cora\u00e7\u00e3o humano com todo tipo de amea\u00e7a, o que nossa gera\u00e7\u00e3o poderia fazer sen\u00e3o recome\u00e7ar, restituir ao mundo o que ele tinha perdido nas m\u00e3os criminosas dos algozes?<\/p>\n<p>Era um movimento diferente da luta pol\u00edtica tradicional, em que se pegavam em armas para derrubar governos. Soubemos o que houve com as outras revolu\u00e7\u00f5es. As tiranias foram substitu\u00eddas simplesmente. Os anos 60 fizeram outra coisa. Desarmaram os esp\u00edritos, se livraram dos bens terrenos (\u201cdeixa tudo, vem e segue-me\u201d, segundo a base da utopia crist\u00e3) e se deram um longo, afetuoso, hil\u00e1rio, emocionado, \u00e9pico, suntuoso abra\u00e7o em Woodstock, um festival que deu certo por acaso, como n\u00e3o cansam de repetir seus organizadores. Inclusive ele choram no document\u00e1rio maravilhoso que foi feito do grande acontecimento, reconhecendo que 500 mil pessoas se reuniram e n\u00e3o houve uma morte, um assassinato, um roubo sequer. N\u00e3o foi um acaso: era a prova de que a utopia poderia acontecer, o n\u00e3o-lugar encontrava um pouso.<\/p>\n<p>Bastava que Woodstock contaminasse o mundo. Mas o que aconteceu foi um susto. Tudo fizeram para destruir, esvaziar, debochar, ridicularizar, fazer pouco, duvidar de Woodstock. Drogas!, dizem. Gandaia, repetem. Aliena\u00e7\u00e3o, vibram. Isso n\u00e3o existe, \u00e9 o que querem dizer. N\u00e3o adianta querer mudar o mundo, ele jamais muda, a n\u00e3o ser para pior. N\u00e3o venham com grandes emo\u00e7\u00f5es coletivas, com a beleza explodindo como uma supernova, com a conviv\u00eancia pac\u00edfica, com esse som inesquec\u00edvel, jamais repetido. Nada disso \u00e9 real, n\u00e3o cansam de dizer. Voltem todos para o trabalho, as casas, o front no deserto de sangue, os neg\u00f3cios, o lazer vazio, as f\u00e9rias planejadas, a vida definida no ber\u00e7o. N\u00e3o tentem destruir a grande obra do Mal!<\/p>\n<p>Assim, Woodstock ficou s\u00f3 como um t\u00fanel de luz. Nele entramos toda vez que queremos recuperar o que nos foi tomado. E o que Woodstock nos revela n\u00e3o ficou confinado ao evento datado. Mas se espalhou, como cogumelo depois da chuva. Essa utopia habita em n\u00f3s como uma revela\u00e7\u00e3o. Podem dizer o que quiserem. Toque de novo, cora\u00e7\u00e3o, pois daquele lugar jamais fui embora. Apenas fui dormir por algumas horas e j\u00e1 estou desperto, esperando que aquelas can\u00e7\u00f5es, aquelas guitarras voltem junto com o sol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Utopia significa n\u00e3o-lugar, portanto n\u00e3o adianta cercar Woodstock ou a fazenda onde foi realizado o megaevento de 1969 e que hoje \u00e9 comemorado como um quarent\u00e3o famoso. J\u00e1 foi provado que repeti-lo tamb\u00e9m n\u00e3o significa nada. Voc\u00ea pode ir at\u00e9 o local, colher um punhado de terra para guard\u00e1-lo num gaveta, pagar um guia para dizer onde foi que os caras rolaram na lama, chamar um monte de estrelas da m\u00fasica, tudo ser\u00e1 in\u00fatil. Woodstock existe em outro plano, t\u00e3o real quanto um por-de-sol: ele dura alguns segundos, mas voc\u00ea o guarda para sempre no cora\u00e7\u00e3o, na mem\u00f3ria, na imagina\u00e7\u00e3o e no sonho. 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