{"id":3698,"date":"2012-05-29T16:23:53","date_gmt":"2012-05-29T19:23:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3698"},"modified":"2012-05-29T16:23:53","modified_gmt":"2012-05-29T19:23:53","slug":"john-ford-e-o-renascimento-de-uma-nacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/john-ford-e-o-renascimento-de-uma-nacao","title":{"rendered":"JOHN FORD E O RENASCIMENTO DE UMA NA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Trata-se da Am\u00e9rica cl\u00e1ssica, dos founders fathers, que se partiu na guerra da Secess\u00e3o e que em dois filmes de John Ford \u00e9 recosturada por meio de princ\u00edpios como a toler\u00e2ncia, a Justi\u00e7a, a paz e a coragem. Praticamente um \u00e9 refilmagem do outro. Ambos tem como protagonista o Judge Priest (personagem do escritor Irving S. Cobb) disputando uma elei\u00e7\u00e3o em Kentuky, terra de linchadores e de intoler\u00e2ncia racial. O primeiro \u00e9 de 1935 e tem como t\u00edtulo o pr\u00f3prio juiz e o segundo de 1953, com t\u00edtulo tirado de uma can\u00e7\u00e3o do sul, O Sol Brilha (The Sun Shines Bright).<\/p>\n<p>Fiquei apavorado com a campanha difamat\u00f3ria contra John Ford por parte dos pseudo politicamente corretos na rede,que o acusam de tirano, invejoso e racista. \u00c9 pr\u00f3prio da mediocridade tentar destruir o g\u00eanio, que a desmoraliza. Felizmente alguns ensa\u00edstas consideram The Sun mais uma obra-prima do grande cineasta. Confirmei vendo o drama de uma jovem adotada e alvo do desprezo social recuperando sua identidade e sua honra gra\u00e7as \u00e0 a\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica do juiz e de todos que o admiram e seguem seus passos. Em Judge Priest, o foco est\u00e1 mais no pai da mo\u00e7a adotada, um her\u00f3i do Sul que ficou livre depois de lutar na guerra e consegue escapar de uma acusa\u00e7\u00e3o de agress\u00e3o numa briga de bar.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso recosturar a na\u00e7\u00e3o eliminando a postura de derrotados e vencedores. Os confederados n\u00e3o admitem que foram batidos nas batalhas her\u00f3icas onde perderam seus melhores filhos. Velhos, alco\u00f3latras, desempregados, vivem de lembran\u00e7as e da celebra\u00e7\u00e3o de seus feitos. O Juiz faz parte desse grupo e corre o risco, junto com alguns companheiros, de perder sua fonte de renda se for derrotado por um hip\u00f3crita pomposo e demagogo, que o acusa de relapso e irrespons\u00e1vel. Temos ent\u00e3o o prato feito das apar\u00eancias a servi\u00e7o da m\u00e1 f\u00e9, que precisam ser confrontadas pela legitimidade do senso de justi\u00e7a humana, com todos os seus defeitos, menos o de tentar usar a lei para a discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a poderosa dos negros nos dois filmes foi acusada de um equ\u00edvoco de Ford, como se o diretor compactuasse com a escravid\u00e3o e retratasse os negros cordatos e felizes com seus senhores, expressando-se por meio de gestos caricaturais. Para recosturar a na\u00e7\u00e3o, era preciso mostrar a inclus\u00e3o dos negros na vida pac\u00edfica. A persegui\u00e7\u00e3o e os maus tratos ter\u00e3o fim se houver justi\u00e7a. O preconceito existe como fator hist\u00f3rico, e os negros no filme se comportam como caricaturas, assim como os veteranos brancos de guerra. Ford trabalha com estere\u00f3tipos e os desveste para mostrar o que h\u00e1 de precioso neles. O adolescente que foi salvo dos linchadores pelo juiz mostra-se agradecido, o ex-escravo que tenta ganhar uns trocados fazendo transporte de gente, o tio preocupado com o futuro do sobrinho, todos s\u00e3o personagens negros de um John Ford que expressa o sul da Am\u00e9rica com todos os seus defeitos e qualidades.<\/p>\n<p>Outra obra-prima de Ford, Os Rastreadores, de 1956, tamb\u00e9m \u00e9 tratada de forma indecorosa por alguns resenhistas, que se locupletam sobre o \u00f3dio racial de Ethan Edwars, interpretado por John Wayne. N\u00e3oconseguem explicar ou tolerar a cena final em que Ethan aceita a sobrinha que virou apache. \u201cVamos para casa, Debbie\u201d, ou seja, o \u00f3dio \u00e9 substitu\u00eddo pela toler\u00e2ncia. Em The Sun, a cena tocante \u00e9 a do funeral da m\u00e3e da mo\u00e7a adotada, cacifado pelas prostitutas da cidade. A cita\u00e7\u00e3o b\u00edblica \u00e9 a de Maria Madalena. N\u00e3o se trata de perdoar, o que implicaria uma ascend\u00eancia sobre o outro, mas de reconhecer que n\u00e3otemos condi\u00e7\u00f5es de julgar e por isso libertamos nosso semelhante da culpa e do crime.<\/p>\n<p>John Ford \u00e9 primus inter pares, cineasta maior entre os maiores diretores de cinema. Merece respeito. N\u00e3o deu colher de ch\u00e1 para a mediocridade e a falsidade. \u00c9 leg\u00edtimo e emocionante. O final apote\u00f3tico nos dois filmes faz chorar as pedras. O novo pai fundador, eleito democraticamente pelo voto direto, que derrotou a demagogia, o Juiz da inclus\u00e3o e da coragem, protagonista do renascimento de uma na\u00e7\u00e3o, sa\u00fada todos os segmentos sociais que prestam homenagem desfilando na sua porta em uniforme de gala e no ritmo da sintonia e do garbo: os ianques e os confederados, os veteranos e os recrutas, os oficiais e os soldados, as mulheres e as bandeiras, o gris e o azul, as armas e as bandas. Ele vibra o chap\u00e9u no ar e est\u00e1 em prantos. Depois se retira para dentro de casa a passo lento e ao som dos coros da na\u00e7\u00e3o recosturada, como John Wayne em os Rastreadores, numa tomada c\u00e9lebre e can\u00f4nica do cinema fordiano.<\/p>\n<p>A cultura guerreira \u00e9 o conv\u00edvio que trabalha uma ferida em busca da cicatriza\u00e7\u00e3o. \u00c9 a religi\u00e3o dos camaradas de luta, a sinceridade a toda prova, a transpar\u00eancia absoluta. \u00c9 bom que aprendam com o velho Ford com quantas qualidades se fazem seus filmes \u00e9picos, perfeitos e maravilhosos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Trata-se da Am\u00e9rica cl\u00e1ssica, dos founders fathers, que se partiu na guerra da Secess\u00e3o e que em dois filmes de John Ford \u00e9 recosturada por meio de princ\u00edpios como a toler\u00e2ncia, a Justi\u00e7a, a paz e a coragem. Praticamente um \u00e9 refilmagem do outro. 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