{"id":370,"date":"2009-12-10T13:06:50","date_gmt":"2009-12-10T15:06:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=370"},"modified":"2009-12-21T23:40:13","modified_gmt":"2009-12-22T01:40:13","slug":"a-leve-idade-adulta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-leve-idade-adulta","title":{"rendered":"A LEVE IDADE ADULTA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nSabemos o que \u00e9 maturidade. \u00c9 quando a pessoa coloca uma roupa branca e caminha dando saltos pela areia de uma praia logo ap\u00f3s ter bebido leite desnatado. A leveza vem da falta de responsabilidade embalada como estilo de vida. Isso abre m\u00faltiplas perspectivas de felicidade, que ser\u00e1 traduzido em mais consumo.<\/p>\n<p>Esse tipo de representa\u00e7\u00e3o bizarra da idade adulta jamais \u00e9 contestado, tanto \u00e9 verdade que n\u00e3o muda h\u00e1 d\u00e9cadas. Pior, fica cada vez mais ousado. Uma personalidade berra euf\u00f3rica que desistiu do suic\u00eddio porque agora pode fazer mais liga\u00e7\u00f5es pelo celular de longo alcance. Outra senta de maneira cool nos pacotes jogados por todo canto da casa em mudan\u00e7a e d\u00e1 um sorriso de lado sob um cabelo em desalinho. \u00c9 que ela acabou de se divorciar e a dor, claro, n\u00e3o aparece. Vendedores cantam em grupos um grande sucesso rom\u00e2ntico enquanto, na pr\u00e1tica, descartam quem entra no estabelecimento usando a roupa errada.<\/p>\n<p>N\u00e3o chegar, mentalmente, \u00e0 idade adulta, obedece a uma pol\u00edtica de resultados. O mais not\u00f3rio \u00e9 manter a \u00e2nsia de consumo adolescente enquanto se luta pela sobreviv\u00eancia. N\u00e3o basta explorar as necessidades da popula\u00e7\u00e3o na forma de servi\u00e7os caros e insuficientes. Ou transform\u00e1-las em privil\u00e9gios lot\u00e9ricos privatizados, por meio de um sistema que descarta, desperdi\u00e7a, desvirtua, exaspera e mata pessoas. O grosso do lucro n\u00e3o est\u00e1 nesse nicho. Pois nada chega aos p\u00e9s do custo-benef\u00edcio gerado pelo sup\u00e9rfluo vendido como algo essencial, como acontece no est\u00edmulo ao consumo desenfreado e cego.<\/p>\n<p>E como tudo est\u00e1 liberado, inclusive gastar bilh\u00f5es em publicidade oficial para dizer que temos um grande sistema de ensino, \u00e9 f\u00e1cil essa pol\u00edtica descer para algo mais sinistro, como o tr\u00e1fico de drogas. Trata-se de vender ilus\u00e3o como se fosse oxig\u00eanio. Isso n\u00e3o se faria impunemente n\u00e3o fosse o corte radical do processo que levaria para a maturidade. Somos ceifados no melhor das nossas vidas pela continuidade da tirania. Esvaziar o esp\u00edrito da popula\u00e7\u00e3o, atordo\u00e1-lo com ru\u00eddos produzidos em est\u00fadios infernais, iludi-lo com sensa\u00e7\u00f5es artificiais que precisam de manuten\u00e7\u00e3o permanente s\u00e3o maneiras de deix\u00e1-la longe das responsabilidades, que assim s\u00e3o terceirizadas para a m\u00e3o de meia d\u00fazia.<\/p>\n<p>Jogados fora de um v\u00ednculo adulto com a realidade, sob o \u00e1libi de que isso \u00e9 bom para o desenvolvimento, todos ficam \u00e0 merc\u00ea do crime organizado. Trata-se do verdadeiro poder (quem lembra S\u00e3o Paulo vazia por ordem do Primeiro Comando da Capital n\u00e3o tem d\u00favida). O crime \u00e9 uma sociedade fechada, hierarquizada, onipresente, vingativa e que se acredita eterna (possui todo o tempo do mundo, ao contr\u00e1rio do cidad\u00e3o datado). Alimenta-se do dinheiro roubado para exercer o poder. Esse dinheiro vem da especula\u00e7\u00e3o (a multiplica\u00e7\u00e3o insana e sem base dos lucros at\u00e9 o estouro dos mercados), da sonega\u00e7\u00e3o (fruto da chantagem de um regime extorsivo de impostos), do entesouramento il\u00edcito, da poupan\u00e7a arduamente acumulada e da economia paralela em geral. Lavar dinheiro \u00e9 o vaso comunicante entre a ilegalidade de lucros a qualquer custo e a vida boa dos bandidos que, ao serem flagrados compram os carcereiros, como costuma noticiar a imprensa.<\/p>\n<p>Se esse \u00e9 o verdadeiro poder, fica f\u00e1cil entender porque, no lugar de produtos dur\u00e1veis, tenhamos ind\u00fastrias voltadas para a gradua\u00e7\u00e3o infinita do que n\u00e3o precisamos, desde a Barbie chinesa para as filhas e netas at\u00e9 a bolsa milion\u00e1ria das ministras. Os mais velhos suspiram pelas geladeiras que, depois de 40 anos, ainda fabricavam mais gelo do que os dois p\u00f3los juntos, de autom\u00f3veis que batiam sem riscar a lataria, de alimentos n\u00e3o envenenados por genes bactericidas.<\/p>\n<p>Claro que as estat\u00edsticas desmentem a decad\u00eancia vis\u00edvel. A longevidade seria fen\u00f4meno atual, produzido pelo est\u00edmulo aer\u00f3bico fe\u00e9rico, descartado da conseq\u00fcente morte em massa de atletas amadores. Desmoralizou-se a velhice cl\u00e1ssica, que se fazia respeitar pela sobriedade e a sabedoria vinda da viv\u00eancia, ao contr\u00e1rio da atual, jogada nos bra\u00e7os do com\u00e9rcio das vaidades e expropriada por meio das armadilhas do cr\u00e9dito f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Se as sucessivas gera\u00e7\u00f5es s\u00e3o impedidas de amadurecer, inclusive as mais antigas, tudo apodrece ao redor e exala o mau cheiro de uma na\u00e7\u00e3o que perdeu a guerra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o chegar, mentalmente, \u00e0 idade adulta, obedece a uma pol\u00edtica de resultados. O mais not\u00f3rio \u00e9 manter a \u00e2nsia de consumo adolescente enquanto se luta pela sobreviv\u00eancia. N\u00e3o basta explorar as necessidades da popula\u00e7\u00e3o na forma de servi\u00e7os caros e insuficientes. Ou transform\u00e1-las em privil\u00e9gios lot\u00e9ricos privatizados, por meio de um sistema que descarta, desperdi\u00e7a, desvirtua, exaspera e mata pessoas. O grosso do lucro n\u00e3o est\u00e1 nesse nicho. 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