{"id":372,"date":"2009-12-10T13:07:46","date_gmt":"2009-12-10T15:07:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=372"},"modified":"2009-12-22T03:03:35","modified_gmt":"2009-12-22T05:03:35","slug":"o-brasil-nao-e-um-jequitiba","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-brasil-nao-e-um-jequitiba","title":{"rendered":"O BRASIL N\u00c3O \u00c9 UM JEQUITIB\u00c1"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO Brasil \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Portanto, como dizia Marx em rela\u00e7\u00e3o ao capitalismo, n\u00e3o faz parte da natureza. Ou seja, n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed \u201cdesde que mundo \u00e9 mundo\u201d. O Brasil n\u00e3o \u00e9 nem nunca foi o verde das matas, o amarelo do ouro, o azul do c\u00e9u. \u00c9 um Estado soberano, com territ\u00f3rio reconhecido internacionalmente, institui\u00e7\u00f5es seculares, um passado de lutas e uma popula\u00e7\u00e3o de 191 milh\u00f5es de pessoas. N\u00e3o pode ser confundido com um jequitib\u00e1, que tem o destino tra\u00e7ado pela esp\u00e9cie a qual pertence, por suas sementes, caules e folhas. \u00c9 como um pr\u00e9dio, que foi constru\u00eddo e pode ser derrubado. O que existe no Brasil n\u00e3o \u00e9 obra do acaso nem obedece aos caprichos dos duendes da floresta. Fui claro?<\/p>\n<p>Quando dizem \u201cIsto \u00e9 Brasil\u201d, o que significa essa frase? Significa exatamente o contr\u00e1rio do que disse acima. Que o Brasil tem uma natureza, \u00e9 assim porque assim nasceu. E, claro, nasceu torto. \u201cSe estamos na atual situa\u00e7\u00e3o, de corrup\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia disseminadas por todo o tecido nacional, \u00e9 porque estava escrito. N\u00e3o tem jeito mesmo. Fazer o qu\u00ea? S\u00f3 separando. S\u00f3 entregando para os americanos. Tamb\u00e9m, com um povinho desses. A culpa \u00e9 nossa, que n\u00e3o nos revoltamos. Somos ap\u00e1ticos. Ou bestializados. Gostamos dos grilh\u00f5es. Elegemos os algozes. Em suma, fazemos parte da natureza. Somos o pa\u00eds que brota no campo depois da chuva, como cogumelo. Um jequitib\u00e1 na selva bruta.\u201d<\/p>\n<p>Essa teoria tamb\u00e9m n\u00e3o nasceu por acaso nem \u00e9 fungo que medra na parede do conhecimento. \u00c9 como uma p\u00e1, uma ferramenta. Serve para enterrar o pa\u00eds. \u00c9 perversa e tem origem na pol\u00edtica, que define a cultura e a economia. Quando a Itabira Iron decidiu, no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, que teria acesso ao min\u00e9rio de Minas Gerais at\u00e9 o ano de 2010, podendo fazer ferrovias para escoar a riqueza do nosso subsolo, com direito a expropriar terras por onde os trilhos passariam, o Brasil estava na m\u00e3o dos entreguistas. Vargas nacionalizou essa empresa do arquibilion\u00e1rio americano Percival Farquar e isso foi a base da Vale do Rio Doce, que no governo FHC foi entregue de volta aos imperiais, por um pre\u00e7o de tr\u00eas bilh\u00f5es de d\u00f3lares, quando valia 90. \u00c9 assim que funciona.<\/p>\n<p>Quando os Estados Unidos precisaram do Brasil para impedir o avan\u00e7o nazista na \u00c1frica, os gringos estava desconversando sobre a instala\u00e7\u00e3o da siderurgia para o Brasil. Vargas ent\u00e3o acenou com a Krupp, alem\u00e3. Os americanos rapidinho concederam e assim o Brasil construiu a Usina de Volta Redonda, base da ind\u00fastria brasileira. Vargas,na \u00e9poca, colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos Aliados todos os portos e aeroportos do pa\u00eds. Assim age um estadista. Roosevelt teve que vir, de cadeira de rodas, aqui no Brasil para conversar com o presidente. Vargas n\u00e3o foi l\u00e1 para raspar a roupa nos pal\u00e1cios deles.<\/p>\n<p>Quando Vargas parou de pagar a divida externa no Estado Novo, depois de anos (a partir de 1930) fazendo auditoria de nossas contas externas, s\u00f3 para equilibrar o or\u00e7amento e colocar ordem na bagun\u00e7a, viabilizou, nesse processo, a situa\u00e7\u00e3o futura de credor que usufru\u00edamos no fim da guerra. Os americanos nos deviam dinheiro n\u00e3o porque chegou a primavera, mas porque Vargas agiu politicamente para que isso acontecesse.<\/p>\n<p>Quando Vargas foi derrubado por um golpe militar, em 29 de outubro de 1945, ele j\u00e1 tinha instalado todas as bases para as elei\u00e7\u00f5es gerais, a futura assembl\u00e9ia constituinte, os novos partidos etc. Ele estava j\u00e1 fazendo esse trabalho e o Brasil emergia como grande pot\u00eancia, pois tinha lutado com os aliados nos campos ensang\u00fcentados da Europa. Com a queda de Roosevelt em 1943, a pol\u00edtica gringa mudou e tudo foi feito para derrubar o presidente. Ele ent\u00e3o se recolheu a S\u00e3o Borja, e os corvos tomaram conta do pa\u00eds. Teve de voltar, nos bra\u00e7os do povo, em 1950, eleito por esmagadora maioria. Houve ent\u00e3o o falso atentado da rua Toneleiros, em que os bandidos mataram um jovem major da Aeron\u00e1utica, desencadeando a crise que culminou com o suic\u00eddio de Vargas.<\/p>\n<p>Veio depois o apocalipse, o abril de 1964, quando come\u00e7ou a se enterrar a Era Vargas, o Brasil soberano, cantado em prosa e verso e admirado pelo mundo inteiro. O Brasil da Era Vargas estava consolidado, gigante, industrializado, com sal\u00e1rios de trabalhadores de Primeiro Mundo. Mas isso era um perigo, era preciso destruir tudo. Foi o que fizeram. Para tanto, contaram n\u00e3o apenas com a trucul\u00eancia armada, a bandidagem pol\u00edtica, mas a coniv\u00eancia e atua\u00e7\u00e3o da \u201ccultura\u201d e, como dizia Manuel Bandeira sobre os bobalh\u00f5es da Rep\u00fablica Velha, suas \u201ccoelhas mijadas\u201d. .<\/p>\n<p>Nos tempos de Vargas, quando Gustavo Capanema era ministro do rec\u00e9m criado Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade, sobrava g\u00eanio por todo lado. Claro, o crit\u00e9rio era a meritocracia. No ambiente cultural da Era Vargas, os g\u00eanios se destacavam: Portinari, Guignard nas artes pl\u00e1sticas (hoje temos o lixo das Bienais), Manuel Bandeira. Mario de Andrade na poesia e na cr\u00edtica (hoje temos o que sabemos), Villa Lobos, Caymi na m\u00fasica (hoje temos eguinha pocot\u00f3, sertanojos e baticuns). O que aconteceu? O pa\u00eds s\u00e9rio foi assassinado e no seu lugar foi entronizada a chamada carnavaliza\u00e7\u00e3o do Brasil. Trata-se da representa\u00e7\u00e3o, no teatro, no cinema e na m\u00fasica, de uma na\u00e7\u00e3o nascida para o desfrute, ou seja, um territ\u00f3rio livre destinado ao usufruto internacional.<\/p>\n<p>O \u00f3dio \u00e0 Era Vargas \u00e9 um aleij\u00e3o ideol\u00f3gico. \u00c9 como o homem elefante: sua caratonha est\u00e1 expl\u00edcita em todos os momentos atuais da vida nacional. A face hedionda, as sobras de pelancas caindo sobre os olhos para n\u00e3o enxergar direito, a boca cavernosa que n\u00e3o profere palavras intelig\u00edveis, a n\u00e3o ser grunhidos, o corpo retorcido de tanta brutalidade. Parece natural, mas n\u00e3o \u00e9. \u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o, que serviu para destruir o pa\u00eds. Como fizeram isso e por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Fizeram da seguinte maneira: tudo o que n\u00e3o presta eles atribu\u00edram \u00e0 Era Vargas, e tudo o que presta eles se assenhoraram. Sabe a Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho, que pretensamente cuida do patrim\u00f4nio nacional? \u00c9 uma contrafa\u00e7\u00e3o. O SPHAN, Servi\u00e7o do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Nacional, foi criado em 1936, no governo constituinte de Vargas, eleito pela Assembl\u00e9ia Constituinte, por sua vez eleita pelo voto direto. A defesa do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico ficou a cargo do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade, que n\u00e3o existia antes de Vargas.<\/p>\n<p>Sabe a luta contra a ditadura? Vargas enfrentou os comunistas em 1935, que promoveram uma quartelada mal sucedida (fruto da agita\u00e7\u00e3o nos quart\u00e9is), os integralistas em 1938, que cercaram e espingardearam o Pal\u00e1cio do Catete, os nazistas alem\u00e3es e os fascistas italianos em 1944 nos campos da Europa, via FEB \u2013 For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira. Por que falo tudo isso? Porque estamos em agosto e daqui a pouco vamos lembrar, no dia 24, o suic\u00eddio do grande presidente. D\u00f3i, cora\u00e7\u00e3o soberano, que os chacais venceram e est\u00e3o por toda a parte, tentando nos convencer que somos essa porcaria que eles fizeram de n\u00f3s.<\/p>\n<p>N\u00f3s, os cidad\u00e3os criados na Era Vargas, somos testemunhas. Fazemos parte da gl\u00f3ria do pa\u00eds que deslumbrou o mundo. Por isso, nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, queremos um candidato trabalhista, de verdade, que retome a na\u00e7\u00e3o no ponto em que foi interrompida. Naquele medonho Primeiro de Abril de 1964. Precisamos, como diz o samba, de uma nova aquarela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Portanto, como dizia Marx em rela\u00e7\u00e3o ao capitalismo, n\u00e3o faz parte da natureza. Ou seja, n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed \u201cdesde que mundo \u00e9 mundo\u201d. O Brasil n\u00e3o \u00e9 nem nunca foi o verde das matas, o amarelo do ouro, o azul do c\u00e9u. \u00c9 um Estado soberano, com territ\u00f3rio reconhecido internacionalmente, institui\u00e7\u00f5es seculares, um passado de lutas e uma popula\u00e7\u00e3o de 191 milh\u00f5es de pessoas. N\u00e3o pode ser confundido com um jequitib\u00e1, que tem o destino tra\u00e7ado pela esp\u00e9cie a qual pertence, por suas sementes, caules e folhas. \u00c9 como um pr\u00e9dio, que foi constru\u00eddo e pode ser derrubado. 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