{"id":376,"date":"2009-12-10T13:09:16","date_gmt":"2009-12-10T15:09:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=376"},"modified":"2010-09-01T02:59:23","modified_gmt":"2010-09-01T05:59:23","slug":"o-que-e-jornalismo-literario","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-que-e-jornalismo-literario","title":{"rendered":"O QUE \u00c9 JORNALISMO LITER\u00c1RIO?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nJornalismo liter\u00e1rio \u00e9 a abordagem pessoal de um acervo coletivo. Por ser coletivo o acervo, essa abordagem pessoal tem um compromisso. Tudo o que aparece num enfoque tradicional da not\u00edcia est\u00e1 contido num texto de jornalismo liter\u00e1rio. Portanto, jornalismo liter\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 superficialidade, literatice, romantismo ou aliena\u00e7\u00e3o. Trata-se da confec\u00e7\u00e3o de uma not\u00edcia com alta voltagem de cria\u00e7\u00e3o de linguagem, como acontece na literatura. N\u00e3o \u00e9, como se costuma dizer, \u201cpoesia\u201d. \u00c9 jornalismo para seduzir o leitor, informando-o sem aborrec\u00ea-lo e atraindo-o para a ess\u00eancia dos fatos. E qual \u00e9 a ess\u00eancia dos fatos? \u00c9 a vers\u00e3o compat\u00edvel com a l\u00f3gica, pautada pela \u00e9tica, que contribui para o conhecimento de quem l\u00ea. N\u00e3o se trata, portanto, de perda de tempo.<\/p>\n<p>Deve ficar claro que o jornalismo liter\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 dourar a p\u00edlula, enfeitar o bolo com a cereja, mas ao contr\u00e1rio, destrinchar a receita sem cair no ramerr\u00e3o da mesmice. \u201cPor que voc\u00ea colocou os ovos com casca e tudo na panela?\u201d perguntou o trapalh\u00e3o Ded\u00e9 Santana. \u201cPorque eu j\u00e1 sei o que tem dentro\u201d, respondeu Didi. Saber de antem\u00e3o \u00e9 a ilus\u00e3o recorrente da m\u00eddia, que repete sem cessar os mesmos fatos descritos todos da mesma forma. \u00c9 preciso sempre recorrer os colunistas, aos cronistas, aos editorialistas para saber algo mais, ou, para saber do que realmente se trata.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que muitos autores que usam os ve\u00edculos diariamente para disseminar suas id\u00e9ias, furos e opini\u00f5es, tamb\u00e9m costumam cair na mesma armadilha e pouco contribuem para esclarecer os acontecimentos. \u00c9 porque o grosso da reportagem, em geral, abriu m\u00e3o dessa composi\u00e7\u00e3o criativa dos fatos num tecido (texto) que possa n\u00e3o apenas destrinchar os principais elementos, mas de emocionar, impactar, alertar, que s\u00e3o formas de informar. Com poucos rep\u00f3rteres, dito especiais, est\u00e3o envolvidos em algo mais ou acima dessa m\u00e9dia que provoca bocejos, fica dif\u00edcil para os articulistas darem um passo \u00e0 frente. Quando o desafio \u00e9 pequeno, os desdobramentos s\u00e3o igualmente prec\u00e1rios.<\/p>\n<p>Se por exemplo, a reportagem \u00e9 feita por um grande criador, que est\u00e1 no front e usa todo seu arsenal de criatividade para compor sua mat\u00e9ria, um colunista vai ter de caprichar para n\u00e3o repetir o que j\u00e1 foi publicado, ou pagar o mico de nada acrescentar ao que a mais comum das criaturas do jornalismo, a cobertura di\u00e1ria dos fatos, j\u00e1 resolveu de maneira satisfat\u00f3ria. Mas a tend\u00eancia \u00e9 anular os rep\u00f3rteres para que colunistas med\u00edocres possam ter vez no card\u00e1pio da m\u00eddia. Olhando a lista de nomes de alguns luminares dos espa\u00e7os nobres dos jornais, podemos notar o quanto isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Ao longo da minha viv\u00eancia nas reda\u00e7\u00f5es, acumulei alguns exemplos de jornalismo liter\u00e1rio que n\u00e3o canso de repetir. T\u00ednhamos militantes not\u00f3rios nessa \u00e1rea nos anos 60 e 70, que publicavam quase diariamente nos jornais, como era o caso de Marcos Faerman, Octavio Ribeiro, Caco Barcellos, Aud\u00e1lio Dantas. Nas revistas semanais, mensais e tamb\u00e9m nos seman\u00e1rios, sobravam exemplos desse jornalismo com nomes como Hamilton Almeida Filho, Narciso Kalili, entre tantos outros, apoiados por grandes fot\u00f3grafos, de Walter Firmo a J.B Scalco. Mas esses exemplos podem ser conseguidos facilmente na internet.<\/p>\n<p>Prefiro aqui destacar algumas reportagens que considero as que mais tiveram impacto para mim. Uma delas foi \u201cSabotamos a Central Nuclear\u201d, reportagem de Caco Barcelos publicada na Rep\u00f3rter Tr\u00eas, revista que teve apenas alguns n\u00fameros da Editora Tr\u00eas. Caco inscreveu-se como oper\u00e1rio e conseguiu, com uma m\u00e1quina fotogr\u00e1fica simples, mostrar o secret\u00edssimo canteiro de obras de Angra I, guardado ciosamente pela ditadura dos anos 70. Outra foi a reportagem de Edenilton Lampi\u00e3o para o tabl\u00f3ide de Samuel Wainer, Aqui S\u00e3o Paulo, sobre o psiquiatra que curou Nelson Gon\u00e7alves do v\u00edcio da coca\u00edna e que morava num dos casar\u00f5es abandonados da Avenida Paulista.<\/p>\n<p>Inumer\u00e1veis reportagens do jornalismo liter\u00e1rio viraram livros, ou foram concebidas como livros, no rastro dos grandes do newjournalism, como Truman Capote de <em>A Sangue Frio<\/em>. \u00c9 o caso de <em>Quarto de Despejo<\/em>, o di\u00e1rio da favelada Carolina de Jesus, objeto de uma mat\u00e9ria de Aud\u00e1lio Dantas. Sempre acho que tudo o que se produziu de alta qualidade autoral e foi publicado na m\u00eddia deveria ser reunido em livro. Hoje se faz compila\u00e7\u00e3o de cr\u00f4nicas, como vemos a toda hora. Por que n\u00e3o pegar essas j\u00f3ias que nos deslumbravam para as novas gera\u00e7\u00f5es saberem do que se trata, e as antigas possam reler, emocionadas, o que fez a cabe\u00e7a h\u00e1 tempos?<\/p>\n<p>Mas o que pega \u00e9 saber como transformar a not\u00edcia do dia, que faz parte do acervo coletivo citado acima, em algo inesquec\u00edvel. A chave est\u00e1 dentro de voc\u00ea mesmo. N\u00e3o ceda aos ditames dos manuais, mesmo que voc\u00ea mantenha fidelidade aos fatos. Ser jornalista n\u00e3o significa fazer como eles mandam. \u00c9 preciso achar a embocadura do texto enquanto os dados s\u00e3o recolhidos, investigados, pesquisados. N\u00e3o basta empilhar palavras, \u00e9 preciso articul\u00e1-las. Mas isso j\u00e1 est\u00e1 dito em outros textos meus, como O Esqueleto imantado e os demais artigos contidos na se\u00e7\u00e3o Edi\u00e7\u00e3o (ou <a title=\"Edi\u00e7\u00e3o\" href=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/view\/Topic\/Edicao\">Reda\u00e7\u00e3o sem m\u00e1scara<\/a>) deste site.<\/p>\n<p>Nas v\u00e1rias reda\u00e7\u00f5es onde trabalhei e colaborei, sempre procurei exercer o jornalismo liter\u00e1rio: na Ilustrada da Folha de S. Paulo, revista Bravo!, Caderno 2 do Estad\u00e3o, se\u00e7\u00e3o de livros da Veja, Isto\u00c9, Zero Hora, revista Senhor, entre muitas outras. No Di\u00e1rio da Fonte, continuo no mesmo ritmo. Al\u00e9m dos poemas, dos contos, das resenhas, dos ensaios, das cr\u00f4nicas mais gerais, existe uma s\u00e9rie de textos que abordam os fatos e que trazem essa abordagem pessoal do acervo coletivo que est\u00e1 rodando na m\u00eddia. Ou que eu busco por meio da pesquisa e das entrevistas. Do meu trabalho, destaco o texto\u00a0 <a title=\"clipse na grande \u00e1rea\" href=\"http:\/\/consciencia.org\/neiduclos\/Eclipse-na-Grande-area\/\">\u201cEclipse na grande \u00e1rea\u201d<\/a>.<\/p>\n<p>Meu trabalho atual como colunista e ensaista do Di\u00e1rio Catarinense tem esse enfoque, em que a informa\u00e7\u00e3o, a an\u00e1lise e a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria convivem no mesmo texto. Isso se estende para outros ve\u00edculos onde colaboro, como a revista virtual Cronopios e o Digestivo Cultural. H\u00e1 tamb\u00e9m minha coluna no excelente jornal <a title=\"Momento de Uruguaiana\" href=\"http:\/\/www.momentodeuruguaiana.com.br\/\"><em>Momento de Uruguaiana<\/em><\/a>, que est\u00e1 sendo editado pelos casal de escritores Ricardo Per\u00f3 Job e Vera Ione Silva, que se chama exatamente Jornalismo Liter\u00e1rio. Momento est\u00e1 dando banho de jornalismo na fronteira: feito com compet\u00eancia e paix\u00e3o, n\u00e3o cai nas armadilhas da comunica\u00e7\u00e3o apartada dos grandes centros e est\u00e1 se revelando um conjunto de acertos.<\/p>\n<p>Todos os recursos da linguagem: esse \u00e9 o tesouro que precisa ser acessado diariamente no trabalho que exercemos por voca\u00e7\u00e3o e destino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornalismo liter\u00e1rio \u00e9 a abordagem pessoal de um acervo coletivo. Por ser coletivo o acervo, essa abordagem pessoal tem um compromisso. Tudo o que aparece num enfoque tradicional da not\u00edcia est\u00e1 contido num texto de jornalismo liter\u00e1rio. Portanto, jornalismo liter\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 superficialidade, literatice, romantismo ou aliena\u00e7\u00e3o. Trata-se da confec\u00e7\u00e3o de uma not\u00edcia com alta voltagem de cria\u00e7\u00e3o de linguagem, como acontece na literatura. N\u00e3o \u00e9, como se costuma dizer, \u201cpoesia\u201d. \u00c9 jornalismo para seduzir o leitor, informando-o sem aborrec\u00ea-lo e atraindo-o para a ess\u00eancia dos fatos. E qual \u00e9 a ess\u00eancia dos fatos? \u00c9 a vers\u00e3o compat\u00edvel com a l\u00f3gica, pautada pela \u00e9tica, que contribui para o conhecimento de quem l\u00ea. 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