{"id":378,"date":"2009-12-10T13:10:02","date_gmt":"2009-12-10T15:10:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=378"},"modified":"2009-12-22T00:32:05","modified_gmt":"2009-12-22T02:32:05","slug":"o-que-nos-diz-no-limite","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-que-nos-diz-no-limite","title":{"rendered":"O QUE NOS DIZ \u201cNO LIMITE\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA sociedade de classes, no Brasil, \u00e9 o inferno. Uma vez, vi num baile infantil no clube Pinheiros em S\u00e3o Paulo, uma crian\u00e7a negra uniformizada de empregada acompanhando uma sinhazinha. Era a \u201cfantasia\u201d real da criada, seu passaporte para o evento da classe m\u00e9dia metida besta, pois sem esse h\u00e1bito jamais poderia freq\u00fcentar os sal\u00f5es privilegiados. Vestindo a roupa da servid\u00e3o, podia. Essa \u00e9 a radicalidade da na\u00e7\u00e3o que n\u00e3o permite ascens\u00e3o social, a n\u00e3o ser por meio do acesso ao butim, como vemos a canalha petista atualmente se servindo do dinheiro p\u00fablico, assim como fizeram peemedistas no governo Sarney e tucanos no de FHC.<\/p>\n<p>Quem vive nos andares de cima, desconhece completamente o que se passa embaixo. Para isso existe o preconceito de ber\u00e7o, que faz, desde cedo, uma criatura de uma classe social mais alta, ainda engatinhando, torcer naturalmente o nariz quando v\u00ea algu\u00e9m saindo do elevador de servi\u00e7o. Como desconhecem completamente a vida das classes oprimidas, cria-se uma s\u00e9rie de ilus\u00f5es sobre elas. Essas ilus\u00f5es s\u00e3o refor\u00e7adas por reportagens que reiteram o Mesmo, pois essa \u00e9 a forma de consolidar a percep\u00e7\u00e3o equivocada sobre o Outro pobre, aquele tipo de pessoa que \u00e9 chamada de \u201cessa gente\u201d.<\/p>\n<p>Pobreza, no Brasil, \u00e9 relacionada com a sujeira. Nunca viram uma casa de ch\u00e3o batido, varrido at\u00e9 o osso, com panelas areadas e tudo organizado no capricho. N\u00e3o reconhecem, na pela escura, o asseio. N\u00e3o imaginam uma refei\u00e7\u00e3o saborosa feita com poucos recursos. Desconhecem a dignidade de quem tem vergonha de abrir as portas da sua resid\u00eancia n\u00e3o porque esteja tudo ensebado, mas porque os pobres sabem o horror que \u00e9 o olhar demolidor de um brasileiro esnobe diante da realidade da m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>O programa global \u201cNo Limite\u201d \u2013 e seus clones nas redes circunvizinhas \u2013 \u00e9 exatamente essa vis\u00e3o asquerosa da pobreza. De que se trata o show de brutalidades? De separar pessoas bem nutridas de seus bens, de seus ambientes, de suas casas, suas vidas e confin\u00e1-las numa situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria. N\u00e3o se trata de promover o \u201ccontato com a natureza\u201d, mas sim de jogar a classe m\u00e9dia (para assust\u00e1-la e assim mant\u00ea-la no redil) na pobreza, onde ter\u00e3o direto a viver todas as distor\u00e7\u00f5es da percep\u00e7\u00e3o da sociedade de classes brasileira. Ali as mulheres n\u00e3o se depilam, ningu\u00e9m passa desodorante, todos comem porcarias e obedecem cegamente a um mestre de cerim\u00f4nias que representa a opress\u00e3o tir\u00e2nica dos velhos feitores, os que se comprazem em humilhar os escravos para exibi-los como trof\u00e9us.<\/p>\n<p>Qual o pr\u00eamio para quem conseguir sobreviver num grupo que depende visceralmente da viol\u00eancia uns contra os outros e do ego\u00edsmo? Dinheiro, ou seja, a volta ao status de classe m\u00e9dia. Voc\u00ea vai l\u00e1, chafurda na lama, come porcaria, fede at\u00e9 n\u00e3o poder mais e se conseguir agir como um pobre, destruindo os outros, ent\u00e3o ser\u00e1 premiado, poder\u00e1 escapar do gueto. N\u00e3o existe talvez algo mais perverso, a n\u00e3o ser sua matriz, o BigBrother, do que essa perda de tempo televisiva, inoculada como v\u00edrus mortal na cidadania desarmada.<\/p>\n<p>\u201cNo Limite\u201d reflete o est\u00e1gio atual do Brasil, em que as pessoas, desprovidas de uma sociedade organizada nos princ\u00edpios da solidariedade e da \u00e9tica, se jogam como c\u00e3es no primeiro butim que lhe atiram. Para isso se sujam e rosnam, ferozes, para quem se aproximar. H\u00e1 tamb\u00e9m o fator fingimento, os namoros forjados e a exibi\u00e7\u00e3o de corpos numa arena menos digna do que a dos gladiadores. No Coliseu, os guerreiros escravos tinham alguma chance. Em &#8220;No Limite&#8221;, ningu\u00e9m vale um real furado.<\/p>\n<p>At\u00e9 quando? At\u00e9 quando durar a atual ditadura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O programa global \u201cNo Limite\u201d \u2013 e seus clones nas redes circunvizinhas \u2013 \u00e9 a vis\u00e3o asquerosa da pobreza. De que se trata o show de brutalidades? De separar pessoas bem nutridas de seus bens, de seus ambientes, de suas casas, suas vidas e confin\u00e1-las numa situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria. N\u00e3o se trata de promover o \u201ccontato com a natureza\u201d, mas sim de jogar a classe m\u00e9dia (para assust\u00e1-la e assim mant\u00ea-la no redil) na pobreza, onde ter\u00e3o direto a viver todas as distor\u00e7\u00f5es da percep\u00e7\u00e3o da sociedade de classes brasileira. 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