{"id":380,"date":"2009-12-10T13:11:17","date_gmt":"2009-12-10T15:11:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=380"},"modified":"2009-12-22T03:02:23","modified_gmt":"2009-12-22T05:02:23","slug":"high-noon-a-solidao-da-coragem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/high-noon-a-solidao-da-coragem","title":{"rendered":"HIGH NOON: A SOLID\u00c3O DA CORAGEM"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA morte chegar\u00e1 no trem do meio dia. \u00c0 sua espera est\u00e3o seus aliados: o medo, o ego\u00edsmo, a fuga. O fac\u00ednora que sai da pris\u00e3o para acertar contas tem apenas um advers\u00e1rio: o velho xerife solit\u00e1rio que o prendeu e agora vai enfrent\u00e1-lo sem ningu\u00e9m ao seu lado. A Justi\u00e7a se retira, a cidadania se omite, a religi\u00e3o se fecha, o casamento escapa das m\u00e3os, a noiva se separa. A comunidade \u00e9 incapaz de reagir, sob a justificativa de que aquela briga n\u00e3o lhe pertence, est\u00e1 confinada ao homem que representa a lei, culpado de ter cumprido seu dever e que agora se v\u00ea abandonado pelo que acumulou ao longo da vida.<\/p>\n<p>Que tesouro acumulado \u00e9 esse? O reconhecimento dos cidad\u00e3os, que se esvai logo que chega a not\u00edcia do tiroteio pr\u00f3ximo; a honra de quem viveu e lutou honestamente, e que, apesar da determina\u00e7\u00e3o, chega a entrar em p\u00e2nico diante do desenlace; o amor da jovem esposa Quaker, avessa a qualquer tipo de viol\u00eancia, que o deixa por n\u00e3o ter escapado a tempo da armadilha. A hora e meia de tempo real em que transcorre a obra-prima de Fred Zinneman, High Noon (Matar ou Morrer, 1952, com Gary Cooper e Grace Kelly) \u00e9 o ba\u00fa do xerife que se esvai minuto a minuto. A decis\u00e3o de se aposentar depois de ter desempenhado bem de sua miss\u00e3o revela-se in\u00fatil quando a press\u00e3o do destino o convoca para o \u00faltimo duelo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, no universo hostil, ningu\u00e9m mais solit\u00e1rio do que Gary Cooper e sua estrela de lata, debaixo do sol que castiga com luz e calor insuport\u00e1veis. Vejam como, desesperado, procura quem o ap\u00f3ie e \u00e9 recebido com a porta na cara, cinismo, volunt\u00e1rios incapazes de lutar (o b\u00eabado e o adolescente). Veja como quase cede diante da possibilidade de sair a galope dali. Mas ele sabe. Viver \u00e9 adiar o inevit\u00e1vel. Chega o momento em que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mais escapar desse confronto. Velho, machucado, com apenas um rev\u00f3lver e algumas caixas de balas, o her\u00f3i dividido palmilha a rua que lhe servir\u00e1 de jazigo. Ele carrega o mundo nos ombros. Mas n\u00e3o por muito tempo.<\/p>\n<p>A morte que chegar\u00e1 de trem \u00e9 bem-vinda para os habitantes da pequena cidade. Os vagabundos do bar, o vendedor de bebidas, o recepcionista do hotel querem o mesmo movimento que existia antes de o bandido ser trancafiado. O fac\u00ednora faz bem para os neg\u00f3cios. A vida pacata instaurada pela efici\u00eancia do xerife cansa a cidade perdida no mapa. Eles recebem com alegria o irm\u00e3o do malfeitor e debocham da solid\u00e3o do xerife. Num clima diferente, mas com os mesmos resultados, os piedosos e aparentemente indignados pais de fam\u00edlia reunidos na igreja dizem que j\u00e1 pagaram pela seguran\u00e7a e n\u00e3o cabe a eles arrostarem com o perigo.<\/p>\n<p>S\u00f3 resta ao xerife o enfrentamento, decidido numa seq\u00fc\u00eancia memor\u00e1vel e curta. A briga, no fundo, n\u00e3o importa. O que est\u00e1 em foco \u00e9 a liga\u00e7\u00e3o entre a sociedade estabelecida e o crime. S\u00e3o faces da mesma moeda: o Mal \u00e9 confundido com prosperidade e aventura, o Bem \u00e9 jogado na vala comum da indiferen\u00e7a. O sub-xerife que cobi\u00e7a o cargo agora vago e que se recolhe \u00e0 bebida no momento decisivo representa essa covardia que se quer justa, essa decad\u00eancia alimentada por boas inten\u00e7\u00f5es que se revelam falsas.<\/p>\n<p>Feito o servi\u00e7o, onde o her\u00f3i contou n\u00e3o apenas com a coragem, mas com a sorte e a experi\u00eancia de guerreiro, \u00e9 hora de jogar a estrela na cara de quem o abandonou. S\u00e3o eles que agora est\u00e3o s\u00f3s, abra\u00e7ados aos bandidos acolhidos por sua coniv\u00eancia. Estes est\u00e3o mortos, mas outros vir\u00e3o. E foi o que aconteceu. Mais de meio s\u00e9culo depois de o filme ter sido lan\u00e7ado, estamos todos \u00e0s voltas com o poder crescente da criminalidade. Fomos omissos e, mesmo que cont\u00e1ssemos com um her\u00f3i para resolver o impasse, isso n\u00e3o era suficiente. Sab\u00edamos que o destino iria se cumprir. Bastava que fic\u00e1ssemos \u00e0 sua espera na esta\u00e7\u00e3o, armados com aquilo que sobrou no xerife de High Noon: a coragem, essa certeza de que, pelo menos uma vez na vida, temos chances contra o que j\u00e1 est\u00e1 decidido.<\/p>\n<p>Nosso medo inventa a tirania. S\u00f3 poderemos derrot\u00e1-la se nos convencermos que n\u00e3o h\u00e1 fuga poss\u00edvel. O tempo \u2013 todos os nossos pertences e conquistas &#8211; escoou pelo ralo. Quando o trem apitar, \u00e9 chegada a hora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1, no universo hostil, ningu\u00e9m mais solit\u00e1rio do que Gary Cooper e sua estrela de lata, debaixo do sol que castiga com luz e calor insuport\u00e1veis. Vejam como, desesperado, procura quem o ap\u00f3ie e \u00e9 recebido com a porta na cara, cinismo, volunt\u00e1rios incapazes de lutar (o b\u00eabado e o adolescente). Veja como quase cede diante da possibilidade de sair a galope dali. Mas ele sabe. Viver \u00e9 adiar o inevit\u00e1vel. Chega o momento em que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mais escapar desse confronto. Velho, machucado, com apenas um rev\u00f3lver e algumas caixas de balas, o her\u00f3i dividido palmilha a rua que lhe servir\u00e1 de jazigo. Ele carrega o mundo nos ombros. 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