{"id":3803,"date":"2014-01-18T17:27:11","date_gmt":"2014-01-18T19:27:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3803"},"modified":"2014-01-20T08:18:02","modified_gmt":"2014-01-20T10:18:02","slug":"o-realismo-a-flor-da-pele","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-realismo-a-flor-da-pele","title":{"rendered":"O \u201cREALISMO\u201d \u00c0 FLOR DA PELE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o existem filmes realistas. A realidade \u00e9 fora de forma e um filme \u00e9 o exagero dos limites \u2013 enquadramento, timing, script, interpreta\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o. Assim como n\u00e3o existem reconstitui\u00e7\u00f5es de \u00e9poca e sim a disposi\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios em fun\u00e7\u00e3o da narrativa, ser \u201cfiel aos fatos\u201d \u00e9 s\u00f3 mais um recurso da fic\u00e7\u00e3o. Como j\u00e1 notaram os irm\u00e3os Cohen que colocaram no in\u00edcio de uma de suas obras o jarg\u00e3o \u201cbaseado em fatos reais\u201d pontuando uma hist\u00f3ria totalmente inventada. Eles zoaram com essa falsa percep\u00e7\u00e3o de que o cinema tem a ver com a realidade, quando \u00e9 pura ilus\u00e3o, assim como a pr\u00f3pria realidade, que depende da percep\u00e7\u00e3o de cada um, como destacou brilhantemente Akira Kurosawa em Rashomon.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Como vivemos numa \u00e9poca de den\u00fancias, de desmascaramento dos poderes, de flagrantes no atacado e no varejo, da publica\u00e7\u00e3o de todos os segredos oficiais, de revisionismo hist\u00f3rico e de overdose de not\u00edcias e imagens sobre acontecimentos por todo o mundo, de multiplica\u00e7\u00e3o de m\u00eddias e de olhos escancarados de milh\u00f5es de espionagens, o cinema procura acompanhar as tend\u00eancias, pesquisando o ineditismo dos enfoques para contribuir com algo original na ma\u00e7aroca de coisas oferecidas pela ind\u00fastria do espet\u00e1culo (onde foi inclu\u00edda n\u00e3o apenas as artes, mas principalmente a pol\u00edtica).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dois filmes de 2013 \u201cbaseados em fatos reais\u201d funcionam um como o avesso do outro, sob o aspecto de um tema candente e pontual, o racismo. Em 12 Anos de Escravid\u00e3o, de Steve McQueen, h\u00e1 a abordagem de um aspecto importante do assunto, os negros libertos convivendo com o regime escravocrata. E em Captain Phillips, de Paul Greengrass, o tema s\u00e3o os detalhes sobre a pirataria somali contra navios da marinha mercante americana. No primeiro, os brancos s\u00e3o horrendos e maus e maltratam at\u00e9 o mais absoluto desespero as pessoas negras sob seu dom\u00ednio e tac\u00e3o. E no segundo, os negros s\u00e3o horrendos e maus e enlouquecem o branco capit\u00e3o do navio. Por coincid\u00eancia, os dois tem exasperantes 134 minutos, mais de duas horas! em sequ\u00eancias intermin\u00e1veis de maldades e maus tratos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para que tantos minutos? S\u00e3o filmes que repisam seus enfoques engessados como a querer provar que a cor da pele faz parte do destino. Quem tem a pele clara em \u201c12 Anos\u201d n\u00e3o passa, com raras exce\u00e7\u00f5es, do dito-cujo em forma de gente: destr\u00f3i fam\u00edlias, suborna, vai contra a lei, mata inocentes, explora a m\u00e3o de obra at\u00e9 destrui-la. H\u00e1 ainda cenas de sadismo como a justificar as retalia\u00e7\u00f5es que disso poder\u00e3o advir. N\u00e3o se sai impune do filme, mas com chibata na m\u00e3o para vingar-se de tanta maldade contra os negros. Por sua vez, quem tem a pele escura em Captain Phillips \u00e9 apresentado como uma monstruosidade f\u00edsica temperada pela crueldade sem limites.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assistindo penosamente os dois filmes, que usam como escudo os depoimento dos protagonistas, d\u00e1 para elogiar apenas a performance de alguns atores, como Tom Hanks, que \u00e9 top, com sua elabora\u00e7\u00e3o que sugere naturalidade, e Chiwetel Ejiofor, que promete ser melhor no futuro, j\u00e1 que aqui foi obrigado a fazer caretas demais. Mas v\u00ea-se que tem forma\u00e7\u00e3o e for\u00e7a de um grande ator. Os dois filmes conseguem se estragar pela overdose. Poderiam ser bons.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que estou querendo provar? Que n\u00e3o houve crueldade na escravid\u00e3o na Am\u00e9rica e que n\u00e3o h\u00e1 culpa entre os piratas somalis? Claro que isso seria uma for\u00e7a\u00e7\u00e3o de barra tamb\u00e9m. Mas estamos falando de cinema, n\u00e3o de realidade. As duas narrativas escorregam para o abismo da overdose. O tempo que se perde em chibatadas sem fim nos escravos negros ou de viol\u00eancia contra o capit\u00e3o indefeso poderia ser mais enxuto para que a verossimilhan\u00e7a n\u00e3o ficasse a servi\u00e7o da retalia\u00e7\u00e3o e do \u00f3dio, muito mais do que da den\u00fancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No fundo, s\u00e3o filmes que exageram para conseguir repercuss\u00e3o e plateia, n\u00e3o porque estejam imbu\u00eddos de motivos nobres. S\u00e3o filmes comerciais que usam a marca do realismo para justificar seus exageros narrativos. S\u00e3o insumos para uma tend\u00eancia forte hoje, o de apontar o dedinho contra os interlocutores acusando-s de apartheid, racismo ou politicamente correto, ou seja o que for. Precisamos de cinema mais competente e n\u00e3o de propaganda, tanto a favor da cavalaria americana com sua marinha de guerra t\u00e3o eficiente, quanto a favor dos despossu\u00eddos em sequ\u00eancias m\u00faltiplas para provar que tem raz\u00e3o, o que j\u00e1 est\u00e1 expl\u00edcito desde as primeiras cenas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O recado em 12 Anos \u00e9, claro, de condena\u00e7\u00e3o aos algozes, que pertencem a uma outra \u00e9poca, mas que no frigir dos ovos s\u00e3o substitu\u00eddos pelos contempor\u00e2neos. E Captain Phillips se atrapalha ao mostrar um universo mais complicado do que o mundo certinho e correto do navio que vai levar comida para os famintos (veja que ironia!) por \u00e1guas africanas. Ser branco ou negro pode virar um pesadelo com filmes como esses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s &nbsp; N\u00e3o existem filmes realistas. A realidade \u00e9 fora de forma e um filme \u00e9 o exagero dos limites \u2013 enquadramento, timing, script, interpreta\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o. 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