{"id":3815,"date":"2014-02-02T16:05:39","date_gmt":"2014-02-02T18:05:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3815"},"modified":"2014-02-02T16:05:39","modified_gmt":"2014-02-02T18:05:39","slug":"a-humanidade-oca-na-terra-desolada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-humanidade-oca-na-terra-desolada","title":{"rendered":"A HUMANIDADE OCA NA TERRA DESOLADA"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Algumas chaves ajudam a abrir a caixa preta do filme de 2013 <strong>August: Osage County<\/strong> (traduzido como \u00c1lbum de Fam\u00edlia, t\u00edtulo da pe\u00e7a de Nelson Rodrigues) , de John Wells. Por ser adapta\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a, de autoria de Tracy Letts, que ganhou o Pulitzer em 2008 com ela e fez o roteiro do filme, e uma performance soberba de grandes atores e atrizes, como Merryl Streep, Julia Roberts e Sam Shepard, as abordagens tem se limitado a falar em teatro filmado ou filme de ator, o que ajuda a deixar intocado seus segredos.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 uma defasagem entre um trabalho que mergulha fundo no drama em rela\u00e7\u00e3o ao seu entorno de marketing. \u00c9 como gargalhar num funeral. O filme \u00e9 mais complexo do que a dor familiar ou um drama de mulheres. \u00c9 uma representa\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia americana, que perdeu a alma e entrega-se \u00e0 morte depois de guerras e genoc\u00eddios. Os erros batem no po\u00e7o da fam\u00edlia destru\u00edda, que ao se reunir para enterrar o patriarca lava a roupa suja exibindo os rastros de um crime coletivo. \u00c9 in\u00fatil fugir dos la\u00e7os de origem ou do patrim\u00f4nio herdado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma das chaves \u00e9 citada logo no in\u00edcio: um verso \u201ca vida \u00e9 muito longa\u201d, do poema de T. S. Eliot Os Homens Ocos. Faz parte da estrofe \u201cEntre a concep\u00e7\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o, entre a emo\u00e7\u00e3o e a rea\u00e7\u00e3o tomba a Sombra, a vida \u00e9 muito longa\u201d. Sombra \u00e9 do que se trata: a casa enlutada, os restos de uma fam\u00edlia, um casal de idosos e a filha solteira, est\u00e3o confinados num ambiente desolado do meio oeste americano, torrando de calor. \u00c9 o cen\u00e1rio do cl\u00e1ssico The Waste Land, de Eliot, que era do ramo, pois nasceu e se criou em Missouri, vizinho a Oklahoma, onde fica o condado dos Osage, os \u00edndios guerreiros que enriqueceram com o petr\u00f3leo e fazem parte da hist\u00f3ria americana como a \u00fanica tribo que comprou sua reserva. E que sofreu nos anos 1920 uma s\u00e9rie de atentados criminosos motivados pelo ci\u00fame e a vingan\u00e7a dos brancos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas como Eliot, que migrou para Londres e escreveu sobre sua terra de mem\u00f3ria, tamb\u00e9m os protagonistas do filme s\u00e3o outsiders na terra a qual pertence. Cleveland, o nome do patriarca que se suicida, poeta e profersor, remete a uma cidade do norte, que faliu como centro industrial e voltou-se para os servi\u00e7os. Num lugar de jogo bruto, de petr\u00f3leo, gado e agroneg\u00f3cio, a poesia n\u00e3o faz parte da paisagem. Ainda mais de um autor, Cleveland, que se fez do nada, de origem muito pobre e conseguiu se sobrepor \u00e0s dificuldades do ambiente hostil. As filhas parecem cumprir essa sina de querer pertencer a outro lugar, mas s\u00e3o chamadas de volta quando h\u00e1 o desenlace.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem abre uma luz na casa escura \u00e9 a \u00edndia cheyenne, Johana (Misty Upham), contratada para os servi\u00e7os dom\u00e9sticos e cuidadora da idosa que se droga e tem c\u00e2ncer na boca. \u00c9 um papel pequeno, mas significativo. Presenteada por Cleveland com um livro de Eliot, a \u00edndia vem de uma tribo historicamente inimiga dos Osage. Os Cheyenne serviam ao ex\u00e9rcito americano na suas lutas contra os aguerridos e independentes Osage. Ela \u00e9 portanto tamb\u00e9m algu\u00e9m que vem de fora e se contrap\u00f5e \u00e0 fase terminal da fam\u00edlia que est\u00e1 em ru\u00ednas. \u00c9 ela que acaba acolhendo em seu colo a matriarca ferida de morte no momento em que est\u00e1 lendo a volume que ganhou de presente do chefe da casa. A \u00edndia se identifica com o que vem de fora, a press\u00e3o do ambiente hostil que for\u00e7a a claridade no m\u00eas mais quente do ano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A narrativa \u00e9 fruto dessa press\u00e3o da desola\u00e7\u00e3o e da claridade externa sobre o,luto fechado interno. N\u00e3o \u00e9, portanto, teatro filmado, \u00e9 filme sobre cinema, como todos. Voc\u00ea enxerga uma obra cinematogr\u00e1fica quando l\u00ea suas imagens e v\u00ea como elas comp\u00f5em uma narrativa, que se desenvolve pontuando os di\u00e1logos. A palavra \u00e9 a fonte, mas aqui \u00e9 coadjuvante. A imagem est\u00e1 superposta \u00e0 hist\u00f3ria, mas faz parte da ess\u00eancia da obra. \u00c9 um jogo dial\u00e9tico da percep\u00e7\u00e3o quem enriquece o trabalho ensa\u00edstico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A humanidade oca na terra desolada perde sua chance de reden\u00e7\u00e3o ao entregar-se mais uma vez ao dinheiro. No momento em que Violet (Merryl) n\u00e3o vai atr\u00e1s do marido e prefere antes colocar a m\u00e3o no cofre da fam\u00edlia, ela convence seu parceiro que n\u00e3o quer se reconciliar, lavar com o perd\u00e3o o pecado de ele ter feito um filho na cunhada. Violet prefere o dinheiro \u00e0 vida de Cleveland. Se arrepende, depois quer todos v\u00e3o embora, deixando-a a s\u00f3s com sua \u201cfor\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 como diz Eliot: \u201cN\u00f3s somos os homens ocos\/ Os homens empalhados\/ Uns nos outros amparados\/ O elmo cheio de nada. Ai de n\u00f3s!\/ Nossas vozes dessecadas,\/ Quando juntos sussurramos, \/ S\u00e3o quietas e inexpressivas\/ Como o vento na relva seca\/ Ou p\u00e9s de ratos sobre cacos\/ Em nossa adega evaporada. \u201c<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Nei Ducl\u00f3s &nbsp; Algumas chaves ajudam a abrir a caixa preta do filme de 2013 August: Osage County (traduzido como \u00c1lbum de Fam\u00edlia, t\u00edtulo da pe\u00e7a de Nelson Rodrigues) , de John Wells. 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