{"id":3824,"date":"2014-03-01T08:33:31","date_gmt":"2014-03-01T11:33:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=3824"},"modified":"2014-03-01T08:33:31","modified_gmt":"2014-03-01T11:33:31","slug":"her-o-amor-procura-uma-voz","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/her-o-amor-procura-uma-voz","title":{"rendered":"HER: O AMOR PROCURA UMA VOZ"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Relacionamento virtual n\u00e3o elimina o conflito e mant\u00e9m o mesmo ritmo da realidade: come\u00e7a com sintonia e deslumbramento e des\u00e1gua na ruptura. Em <strong>Her<\/strong> (2013), de Spike Jonze, o protagonista interpretado por Joaquin Phoenix, um escritor de cartas de amor rec\u00e9m sa\u00eddo de um casamento, n\u00e3o entende porque p\u00f5e tudo a perder mesmo quando \u00e9 s\u00f3 uma voz sem corpo a \u201cpessoa\u201d escolhida. Sua confus\u00e3o faz parte da \u00e9poca: o excesso de canais de comunica\u00e7\u00e3o intensifica a solid\u00e3o, fazendo de cada um o ref\u00e9m de laborat\u00f3rio de uma tecnologia ainda em desenvolvimento e que pode desaparecer a qualquer instante para ser substitu\u00edda por outra (o que leva todo o seu acervo para o buraco negro do universo digital, o n\u00e3o lugar, o cemit\u00e9rio das mensagens e das falas).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse \u201cc\u00e9u\u201d futuro para criaturas sem corpo vivem no espa\u00e7amento das palavras, conforme explica Samantha (a voz no computador interpretada por Scarlet Johansson). Para l\u00e1 se dirigem depois de seduzir e comandar gente viva, abandonada ent\u00e3o ao que tem em torno: casamentos desfeitos, amizades truncadas, conv\u00edvios for\u00e7ados. Perdido numa multid\u00e3o de falas voltadas para si mesmas, entre popula\u00e7\u00f5es de zumbis que conversam com fic\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que perderam a capacidade de interagir com seus semelhantes, o escritor de cartas de amor \u00e9 mais um no alvo do sistema operacional que o leva para o conforto espiritual e afetivo de uma parceria aparentemente perfeita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O ambiente visual \u00e9 puro Edward Hopper, o demiurgo da pintura cruamente genial de gente sem arrimo, isoladas pelas cores e formas que expressam os interiores humanos deformados pelo vazio e a desesperan\u00e7a. Os tons past\u00e9is e o foco na transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica da comunica\u00e7\u00e3o aproximam o filme de <em>Faherenheit 451<\/em> (1966), de Fran\u00e7ois Truffaut, com o personagem de Oskar Werner encontrando em Samantha uma Julie Chjristie\/Clarisse revisitada \u00a0o conte\u00fado perdido na civiliza\u00e7\u00e3o, que ele precisa memorizar para n\u00e3o ser devorado. Os trens e esta\u00e7\u00f5es limpas em sil\u00eancio, a paisagem urbana aguda e tornada irreal pelo amontoado de elementos padronizadas que sufocam o olhar, s\u00e3o outras evid\u00eancias desse abra\u00e7o de Kontze com Truffaut\/Bradbury.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O homem que cumpria seu of\u00edcio de maneira mon\u00f3tona encontra na voz que busca uma identidade a prova de que tudo \u00e9 linguagem. N\u00e3o importa se ao vivo ou virtual, o amor depende da linguagem, a cria\u00e7\u00e3o artificial que substituiu a natureza. Condenado pela ex-esposa que v\u00ea na sua nova \u201cnamorada\u201d a prova de que ele \u00e9 incompetente para conviver com pessoas reais, o escritor acorda abruptamente do seu del\u00edrio recaindo nos mesmos erros de sempre. Errar \u00e9 sua forma de manter-se humano. O problema \u00e9 que isso implica desagrega\u00e7\u00e3o e rompimento de la\u00e7os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel manter-se em p\u00e9 com esse paradoxo. A busca da felicidade com outra pessoa s\u00f3 tem sentido se houver ruptura. Ele ent\u00e3o rola pelos corredores projetados para empurrar solid\u00f5es como a dele e acaba tendo de lidar com a amiga que sempre serviu de apoio para os intervalos do amor e agora \u00e9 tudo o que lhe resta. Amy Adams interpreta essa amiga que tamb\u00e9m cai na tenta\u00e7\u00e3o de apaixonar-se por uma voz depois de romper com o marido. Este, ao sair do relacionamento, faz voto de sil\u00eancio. Emudecer talvez seja a forma mais radical de encontrar a voz verdadeira do amor imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s &nbsp; Relacionamento virtual n\u00e3o elimina o conflito e mant\u00e9m o mesmo ritmo da realidade: come\u00e7a com sintonia e deslumbramento e des\u00e1gua na ruptura. 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