{"id":386,"date":"2009-12-10T13:32:23","date_gmt":"2009-12-10T15:32:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=386"},"modified":"2010-09-01T02:58:13","modified_gmt":"2010-09-01T05:58:13","slug":"o-que-e-um-intelectual","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-que-e-um-intelectual","title":{"rendered":"O QUE \u00c9 UM INTELECTUAL?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nIntelectual \u00e9 quem produz pensamento. O intelectual org\u00e2nico, para aproveitar uma defini\u00e7\u00e3o de Gramsci, \u00e9 quem coloca a produ\u00e7\u00e3o do pensamento a favor de um projeto de poder. Digo com minhas palavras, pois a verdadeira cita\u00e7\u00e3o \u00e9 de mem\u00f3ria, para evitar que qualquer texto se transforme num amontoado de tijolinhos conceituais devassados pelo uso e sem nenhum sinal de elabora\u00e7\u00e3o, nem mesmo a reprodu\u00e7\u00e3o de uma id\u00e9ia com palavras pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>No original, o org\u00e2nico \u00e9 quem, &#8220;em sintonia com a emerg\u00eancia de uma classe social determinante no modo de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico, procura dar coes\u00e3o e consci\u00eancia a essa classe, tamb\u00e9m nos planos pol\u00edtico e social&#8221;. E o tradicional \u00e9 &#8220;aquele que se conserva relativamente aut\u00f4nomo&#8221;. Prefiro usar do meu jeito, substituindo a palavra &#8220;classe&#8221; por projeto ou sistema de poder e eliminando a palavra &#8220;tradicional&#8221;. Adapto os conceitos em fun\u00e7\u00e3o da objetividade da argumenta\u00e7\u00e3o. Isso tamb\u00e9m \u00e9 produ\u00e7\u00e3o de pensamento.<\/p>\n<p>Intelectual \u00e9 o Francisco de Oliveira , da USP, quando defende e divulga a tese do ornitorrinco, defini\u00e7\u00e3o do Brasil como um cruzamento de mis\u00e9ria com agribusiness forte, entre outros paradoxos. Intelectual org\u00e2nico \u00e9 o mesmo Francisco de Oliveira quando rompe com Lula ou quando ap\u00f3ia Lula no segundo turno. Ou seja, um intelectual pode migrar nas suas fun\u00e7\u00f5es conforme sua atua\u00e7\u00e3o, sua pr\u00e1tica, ou, para usar uma palavra que esteve na moda, sua pr\u00e1xis.<\/p>\n<p>Intelectual \u00e9 o Roberto Schwarz, citado um milh\u00e3o e vezes aqui no Di\u00e1rio da Fonte quando define o v\u00edcio do deslocamento entre realidade econ\u00f4mica e cultura hegem\u00f4nica, esta sempre atrasada para viabilizar o papel subalterno que o pa\u00eds desempenha no mundo. Intelectual org\u00e2nico \u00e9 o Roberto Schwarz quando se omite de um debate mais expl\u00edcito sobre os projetos de poder, deixando \u00e0 deriva sua teoria, para usufruto geral. Um intelectual precisa n\u00e3o apenas produzir pensamento, mas ordenar sua pr\u00e1xis em favor de um sistema voltado para a sobreviv\u00eancia, no caso, na falta de um exemplo melhor, uma na\u00e7\u00e3o. E ainda mais espec\u00edfico, a na\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Temos um intelectual voltado para a milit\u00e2ncia, como \u00e9 o caso de Gilberto Vasconcellos, brilhante no seu diagn\u00f3stico sobre o enterro do trabalhismo como solu\u00e7\u00e3o para a entrega da soberania do Brasil. Mas sua praxis erra quando luta por um vetor da gest\u00e3o Ernesto Geisel dos anos 70, trazendo \u00e0 tona Bautista Vidal e seus projetos de petroqu\u00edmica e biocombust\u00edvel. Tirar energia da biomassa foi no fim encampado pelo Bush e o Lula e significa exaurir o territ\u00f3rio nacional de seus recursos de terra ar\u00e1vel, desviar um espa\u00e7o estrat\u00e9gico para necessidades externas. O biocombust\u00edvel entrou em descenso, pelo menos como exposi\u00e7\u00e3o na m\u00eddia, depois da descoberta do pr\u00e9-sal. Significa que a luta de Vasconcellos se esvaziou duplamente, quando foi encampada e quando foi deixada de lado, apesar de seu diagn\u00f3stico se manter atual.<\/p>\n<p>Para um intelectual existir, \u00e9 preciso sistemas de ensino eficientes, gratuitos e voltados para a pesquisa cient\u00edfica, n\u00e3o a pesquisa orientada para necessidades prementes do mercado, pois isso a iniciativa privada tem obriga\u00e7\u00e3o de prover. Voc\u00ea n\u00e3o pode transformar a faculdade de Economia da USP num balc\u00e3o de neg\u00f3cios. Pega mal, ainda mais quando a crise estoura e o que era mercado \u00e9 batizado de bolha. Voc\u00ea n\u00e3o pode atrelar quadros formados gra\u00e7as aos investimentos do dinheiro p\u00fablico a pap\u00e9is secund\u00e1rios de pesquisas estrangeiras. N\u00e3o podemos ser servi\u00e7ais cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Ultimamente se fala muito em aumento da massa cr\u00edtica da produ\u00e7\u00e3o de pensamento e resultados nos institutos brasileiro de pesquisa. Gostaria de saber o que h\u00e1 de vantagem para o Brasil nisso. Se todo esse material serve apenas para viver em torno de n\u00facleos de produ\u00e7\u00e3o de pensamento imperiais, das pot\u00eancias do Exterior, ent\u00e3o valem pouco. Um intelectual precisa ser org\u00e2nico, n\u00e3o tem sa\u00edda. Ele se p\u00f5e a servi\u00e7o de um projeto, que deve ser nacional, mesmo que tenha contribui\u00e7\u00e3o estrangeira. Outra coisa que acontece \u00e9 que os quadros formados aqui acabam sendo exportados. Os pesquisadores est\u00e3o certos. Quando n\u00e3o s\u00e3o valorizados, devem imigrar. Mudar essa situa\u00e7\u00e3o deve ser projeto de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Na imprensa, temos a mis\u00e9ria da filosofia. Os jornalistas, principalmente os mais not\u00f3rios, n\u00e3o est\u00e3o \u00e0 altura dos atuais tempos bicudos, em que as exig\u00eancias se intensificaram. N\u00e3o estou falando em MBAs ou cursinhos r\u00e1pidos no Exterior. Isso \u00e9 conselho de consultoria, serve para dar status, n\u00e3o produ\u00e7\u00e3o intelectual pesada, em universidade. S\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel dizer alguma coisa sem cair no lugar comum. Os leitores tamb\u00e9m produzem pensamento e t\u00eam agora condi\u00e7\u00f5es de veicular sem a ajuda nem de institui\u00e7\u00f5es de pesquisa e ensino nem de empresas de comunica\u00e7\u00e3o (mais envolvidas com grandes produtores de pensamento, como o colunista fixo da Folha h\u00e1 muitos anos, o atual presidente do Senado!). Fa\u00e7a um blog sobre ci\u00eancia e pronto, tua palavra est\u00e1 l\u00e1, intacta.<\/p>\n<p>Cabe a n\u00f3s destacar as conquistas principalmente de intelectuais n\u00e3o not\u00f3rios e que n\u00e3o estejam envolvidos nos esquemas mesquinhos de ascens\u00e3o social, como aconteceu debaixo das minhas vistas quando motoristas de velhos calhambeques surgiram em pal\u00e1cios republicanos de luxo vestidos como pr\u00edncipes. Devemos ficar em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 idiotice reinante, por mais not\u00f3ria e poderosa que seja. A falta de presen\u00e7a maci\u00e7a de intelectuais respons\u00e1veis na superf\u00edcie das m\u00eddias e da ind\u00fastria cultural faz com que todos regridam \u00e0 idade da pedra.<\/p>\n<p>\u00c9 como dizia o Jos\u00e9 Lewgoy no Pasquim quando comentava filmes de Mizogushi e Kurosawa: \u201c\u00c9 preciso ver esses filmes sen\u00e3o todos v\u00e3o achar que Harold and Maude (um filmeco ingl\u00eas sobre a rela\u00e7\u00e3o plat\u00f4nica entre um guri e uma velha, muito famoso na \u00e9poca) \u00e9 filme de arte\u201d. Entrar nessa roda viva implica tamb\u00e9m o desmascaramento dos pseudo intelectuais, os que se comparam a Goethe e posam de est\u00e1tua. Devemos agir para erradicar a distor\u00e7\u00e3o que a palavra intelectual atingiu entre n\u00f3s. Como muitos intelectuais entraram na disputa pelo butim, ou se omitiram, ou apenas ficaram ostentando status e cargos, deixando a na\u00e7\u00e3o \u00e0 merc\u00ea da bandidagem, a palavra intelectual virou nome feio, xingamento entre n\u00f3s. Isso tem de mudar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intelectual \u00e9 quem produz pensamento. O intelectual org\u00e2nico, para aproveitar uma defini\u00e7\u00e3o de Gramsci, \u00e9 quem coloca a produ\u00e7\u00e3o do pensamento a favor de um projeto de poder. 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