{"id":390,"date":"2009-12-10T13:34:06","date_gmt":"2009-12-10T15:34:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=390"},"modified":"2009-12-22T03:04:29","modified_gmt":"2009-12-22T05:04:29","slug":"o-jogo-das-representacoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-jogo-das-representacoes","title":{"rendered":"O JOGO DAS REPRESENTA\u00c7\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nImplico com a id\u00e9ia de que as brincadeiras da inf\u00e2ncia s\u00e3o treinamento para a vida adulta. Insistem tanto que muita gente n\u00e3o cresce, prefere levar tudo numa boa, e, por qualquer motivo, faz o velho trenzinho nas festas, para desespero de amigos e parentes. Transpuseram essa certeza para os document\u00e1rios sobre a vida selvagem. Os le\u00f5ezinhos se pegam para que os m\u00fasculos fiquem \u00e1geis e fortes em fun\u00e7\u00e3o de futuras ca\u00e7adas. Imagino a genialidade dos pesquisadores enxergando a mente dos bichos, quando ainda acham que animal n\u00e3o tem intelig\u00eancia. Esses dias vi um v\u00eddeo em que a arara abria a torneira, tomava banho, e fechava. Instinto, claro. Treinamento, \u00f3bvio. Racioc\u00ednio? Jamais!<\/p>\n<p>Assim como fazem com os animais, fazem com as crian\u00e7as, que n\u00e3o passam de uns pets com a nossa cara, conforme o figurino das teorias e an\u00e1lises. Pelo menos as mais expl\u00edcitas e evidentes, j\u00e1 que n\u00e3o sou especialista no assunto e ainda n\u00e3o sei se algu\u00e9m chegou \u00e0 mesma conclus\u00e3o da brava equipe que levou d\u00e9cadas para provar que o leite faz bem. Puxa, que revela\u00e7\u00e3o! A ci\u00eancia n\u00e3o cansa de me deslumbrar. Deviam dar um Nobel para nossos av\u00f3s.<\/p>\n<p>Acho esse assunto um pouco mais complicado do que a simples l\u00f3gica de que a inf\u00e2ncia \u00e9 a pr\u00e9-estr\u00e9ia da maturidade. Acho que uma criatura, logo que nasce, se desenvolve e convive com os mais velhos em volta, mora num mundo mental sem conex\u00e3o com nossas expectativas. Apesar de serem paparicados, banhados, vestidos, levados para c\u00e1 e l\u00e1, est\u00e3o s\u00f3s, como qualquer ser humano sobre a terra. A \u00fanica coisa real que disp\u00f5em (j\u00e1 que n\u00e3o possuem a mem\u00f3ria de viv\u00eancia anterior, como os adultos, que se valem da mem\u00f3ria para tudo) \u00e9 o jogo das representa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Elas se envolvem nisso para chegarem a resultados. Uma crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 nada, depende de tudo e de todos. Ela precisa criar uma roda vida com personagens identific\u00e1veis para chegar a algum lugar verdadeiro, longe do zool\u00f3gico, da escolinha, da sala de visitas. E esse lugar \u00e9 a mente habitada por in\u00fameras representa\u00e7\u00f5es. A menina faz o papel da m\u00e3e, por exemplo. Claro, instinto, dir\u00e3o, a maternidade j\u00e1 est\u00e1 impl\u00edcita na garota. Isso \u00e9 confirmado quando ela coloca o sapato, pinta a boca, usa um colar e uma blusa que lhe cai como um vestido. O que ela est\u00e1 fazendo? Brincando. O que pega na brincadeira?<\/p>\n<p>Ela d\u00e1 vida a um personagem, que tem a apar\u00eancia da m\u00e3e e ao mesmo tempo n\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria. Nem mesmo \u00e9 a futura mam\u00e3e que ser\u00e1. Ela encarna a persona que ir\u00e1 movimentar outras pe\u00e7as de seu tabuleiro particular, e que tem regras pr\u00f3prias, fora de nossas determina\u00e7\u00f5es. V\u00e1rias dessas pe\u00e7as s\u00e3o bonecas, ou cabe\u00e7as de bonecas, que encarnam fadas, coleguinhas, vizinhas. Outro elemento \u00e9 o transporte, representado por algumas cadeiras em fila, que podem ser um trem ou um \u00f4nibus. A pergunta continua: o que ela est\u00e1 fazendo? Treinando para quando for adulta e tiver de se relacionar com in\u00fameras pessoas, se locomover para trabalhar e assim poder ganhar a vida?<\/p>\n<p>Seria muito desplante acharmos que as crian\u00e7as v\u00e3o imaginar a submiss\u00e3o \u00e0 vida adulta. Elas j\u00e1 tem outro tipo de press\u00e3o. Tudo o que voc\u00ea v\u00ea em volta e considera normal, para um menino, uma menina, \u00e9 a terra dos gigantes. Os lugares que voc\u00ea costuma freq\u00fcentar ou usar s\u00e3o inacess\u00edveis. A caixas de bancos cospem dinheiro, \u00e9 s\u00f3 ir l\u00e1 e pegar. Tudo o que est\u00e1 no supermercado est\u00e1 dispon\u00edvel. Tudo o que ela faz e \u00e9 considerado perigoso se repete ao infinito. Ou seja, se \u00e9 outra a l\u00f3gica infantil, por que estaria se sintonizando com a vida adulta?<\/p>\n<p>Ela precisa resolver v\u00e1rios impasses. Ser uma m\u00e3e que possa lidar. Subir num ve\u00edculo que permane\u00e7a parado \u00e0 sua espera e ao mesmo tempo a transporte para o bosque encantado. Colecionar miniaturas que est\u00e3o sempre \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Inventar que existem conflitos entre essas pe\u00e7as para estabelecer conex\u00f5es e poder viver nesse jogo (a\u00ed ela exige certas falas dos adultos para o jogo funcionar). Porque \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia, s\u00f3 que n\u00e3o implica contas. A crian\u00e7a multiplica o mundo infantil pra que haja espa\u00e7o onde possa se movimentar.<\/p>\n<p>A inf\u00e2ncia nada tem a ver com o mundo adulto. Utiliza elementos dele, mas se movimenta em outras esferas. Por isso \u00e9 tr\u00e1gico, na publicidade, ver crian\u00e7as com frases adultas decoradas para vender porcarias. Nem conseguem articular. \u00c9 l\u00edngua estrangeira. O que devemos fazer? Participar do jogo? Nem que voc\u00ea queira. O ideal \u00e9 deixar quieto, interferir s\u00f3 quando a brincadeira exige cuidados e n\u00e3o tentar entender o que eles est\u00e3o fazendo. N\u00e3o seja impaciente nem arrogante. Ningu\u00e9m abre tuas gavetas para enxergar teus esqueletos no arm\u00e1rio. Vai querer saber tudo do mundo infantil?<\/p>\n<p>Quando a pessoinha cresce, fica pior. Na adolesc\u00eancia, o jogo de representa\u00e7\u00f5es \u00e9 ainda mais isolado e torna-se pesado. Continua \u00e0 parte do mundo adulto. O tro\u00e7o pode degringolar. Culpa de quem? Dos adultos que ficaram enchendo o saco da crian\u00e7a, que n\u00e3o consegue se defender. Quando o sujeito aumenta de peso, fica complicado. Se nos dedic\u00e1ssemos a algo mais proveitoso, como respeitar o mundo infantil em sua especificidade, n\u00e3o enxergar o que queremos ver, n\u00e3o achar que eles imitam os adultos como cachorrinhos amestrados, a\u00ed teremos uma chance quando forem adultos.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a crescida, agora n\u00e3o mais crian\u00e7a, vir\u00e1 para te dizer: \u201cObrigado. Gostei que n\u00e3o pisoteaste a vida que eu inventei quando n\u00e3o tinha nada, apenas teu apoio e compreens\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Implico com a id\u00e9ia de que as brincadeiras da inf\u00e2ncia s\u00e3o treinamento para a vida adulta. Insistem tanto que muita gente n\u00e3o cresce, prefere levar tudo numa boa, e, por qualquer motivo, faz o velho trenzinho nas festas, para desespero de amigos e parentes. Transpuseram essa certeza para os document\u00e1rios sobre a vida selvagem. 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