{"id":396,"date":"2009-12-10T13:36:53","date_gmt":"2009-12-10T15:36:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=396"},"modified":"2009-12-22T03:03:17","modified_gmt":"2009-12-22T05:03:17","slug":"viagem-a-lua","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/viagem-a-lua","title":{"rendered":"VIAGEM \u00c0 LUA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nLembro quando, h\u00e1 40 anos, decidimos viajar para a Lua. Foi dif\u00edcil. Est\u00e1vamos grudados num movimento estudantil ferido de morte pelo AI-5, perdidos numa universidade de professores cassados, emergentes numa profiss\u00e3o que mal engatinhava. Sem recursos, como poder\u00edamos vestir nossa roupa de astronauta, pegar carona num foguete, navegar num m\u00f3dulo at\u00e9 a cratera no deserto, dizer a frase inesquec\u00edvel e ainda voltar?<\/p>\n<p>Isso tomou tempo. A ideia era viajar em pleno ano letivo, para expressar nossa insubordina\u00e7\u00e3o contra a viol\u00eancia do Estado e as press\u00f5es das panelinhas pol\u00edticas, que existiam mesmo entre garotos leitores de uma pesada artilharia de textos. Mas julho chegou de repente e tivemos de ir assim mesmo, como se f\u00f4ssemos estudantes bem comportados, a aproveitar as f\u00e9rias para conhecer outros mundos.<\/p>\n<p>Para chegar \u00e0 plataforma de lan\u00e7amento, fomos obrigados, primeiro, a vender os livros mimeografados em gr\u00e1ficas marginais para parentes preocupados. Nosso aspecto, alimentado pela ousadia e o susto, tomava a cor p\u00e1lida dos selenitas. Depois, pegamos caronas em grandes scanias, que levaram muitos dias para chegar ao destino. Na v\u00e9spera do evento, t\u00ednhamos conseguido embarcar num autom\u00f3vel dirigido por carioca da gema. Foi quando treinamos o patu\u00e1 rebelde da malandragem, que poderia servir de passaporte no territ\u00f3rio selvagem a ser conquistado. Enquanto ca\u00eda a noite e Neil Armstrong e seus companheiros chegavam l\u00e1, est\u00e1vamos ainda aprofundados na desventura da d\u00favida em estrada intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p>S\u00f3 no dia seguinte, quando a luz da Zona Sul explodiu na sa\u00edda do t\u00fanel, soubemos que t\u00ednhamos chegado tarde. Pior: est\u00e1vamos ainda no Rio de Janeiro e n\u00e3o no Cabo Canaveral. Mas quer\u00edamos ir para o alto. Subimos ent\u00e3o os degraus rotos do Morro do Pinto. L\u00e1, um morador que nos convidou para uma cerveja na birosca mais pr\u00f3xima elencou seus argumentos contra a evid\u00eancia do feito americano. Vimos como as vers\u00f5es nascem junto com os fatos.<\/p>\n<p>Vindos do inverno sulino, inauguramos nossa proximidade com as regi\u00f5es t\u00f3rridas do pa\u00eds nos livrando das roupas espaciais: coturnos, pul\u00f4veres, campeiras e mantas, substitu\u00eddas por trapinhos de turista gringo. Frios polares seguidos de altas temperaturas foi a \u00fanica evid\u00eancia de que t\u00ednhamos enfim chegado na Lua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para chegar \u00e0 plataforma de lan\u00e7amento, fomos obrigados, primeiro, a vender os livros mimeografados em gr\u00e1ficas marginais para parentes preocupados. Nosso aspecto, alimentado pela ousadia e o susto, tomava a cor p\u00e1lida dos selenitas. Depois, pegamos caronas em grandes scanias, que levaram muitos dias para chegar ao destino. Na v\u00e9spera do evento, t\u00ednhamos conseguido embarcar num autom\u00f3vel dirigido por carioca da gema. 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