{"id":40,"date":"2005-05-13T21:34:10","date_gmt":"2005-05-13T23:34:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=40"},"modified":"2009-12-21T20:02:45","modified_gmt":"2009-12-21T22:02:45","slug":"talho-certeiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/talho-certeiro","title":{"rendered":"TALHO CERTEIRO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O ga\u00facho brotou da guerra e encontrou sua melhor morada na literatura de Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto (1865-1916). Nesse ref\u00fagio de refinado acabamento, ocupa um lugar na vanguarda &#8211; aquele peda\u00e7o da tropa que prova a luta antes dos outros, por destino, miss\u00e3o e gosto. O som destes contos e lendas \u00e9 de chispa de fac\u00e3o &#8211; seja no embate em campo aberto, nas brigas pessoais ou nas refregas de amor. \u00c9 tamb\u00e9m o som do surdo tremor provocado pela assombra\u00e7\u00e3o na hora da Ave-Maria, quando o Boitat\u00e1 e as velas para o Negrinho do Pastoreio iluminam a boca da noite.<\/p>\n<p>Melhor: s\u00e3o barulhos de cascos, recriados pela maestria de um autor que, depois de emigrar mo\u00e7o para o Rio de Janeiro, voltou-se para as suas ra\u00edzes, onde descobriu o sal necess\u00e1rio de uma revolu\u00e7\u00e3o nas palavras &#8211; texto disperso na terra que o talento e o suor deram a dimens\u00e3o exata, e da\u00ed transcendeu para a perman\u00eancia.<\/p>\n<p>Podem chamar de regionalismo, mas o batismo \u00e9 mais amplo. Da costela dos cl\u00e1ssicos, gerou novas semeaduras, tornando-se universal, paradigma de um povo que, isolado, abriu picada pr\u00f3pria. Para entender, basta &#8220;escuitar&#8221;, o ga\u00facho pede aten\u00e7\u00e3o e, did\u00e1tico, narra seu mundo \u00e0 parte. Rei de sua pr\u00f3pria arte, dono absoluto de sua lenda, faz Hist\u00f3ria sem nenhuma cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Pois a guerra ensina: quando o inimigo \u00e9 farto, o peito torna-se largo, a morte acode como companheira e a narrativa medra, original, \u00fanica. Nesta fonte bebem todos: tanto a arte incompar\u00e1vel de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, que tamb\u00e9m na oralidade do povo construiu sua obra, quanto o tradicionalismo hoje triunfante, que inunda cidades e pastos do Rio Grande.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que torna obrigat\u00f3ria sua leitura. \u00c9 imposs\u00edvel dispensar a presen\u00e7a de Blau Nunes, personagem-s\u00edntese de uma viv\u00eancia, narrador de uma linguagem que torna-se refer\u00eancia ao superar o barro de que \u00e9 feito. Quem ignora, perde. Como rosa boiando no manantial, esta obra \u00e9 sinal de afogamentos mais fundos e de cria\u00e7\u00e3o mais poderosa.<\/p>\n<p>O ga\u00facho poder\u00e1 morrer &#8211; por obra do tempo &#8211; mas sobreviver\u00e1 aqui, intacto, pela m\u00e3o de seu escritor maior. Ao leitor, basta mergulhar neste arroio alimentado pela tempestade, que jamais perde o perfil da margem, onde as hist\u00f3rias se acomodam num acervo muito al\u00e9m da mem\u00f3ria. Trata-se de literatura de primeiro time, podendo ressurgir sempre que a cultura brasileira amea\u00e7a morrer de inani\u00e7\u00e3o. Para enfrentar a falta de identidade dos tempos atuais, \u00e9 s\u00f3 folhear estes contos e lendas que se opera o milagre: da facada certeira de Blau Nunes, jorra o sangue da ra\u00e7a. Pois, de um talho s\u00f3, ele pega a cabe\u00e7a a alma e o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de apresenta\u00e7\u00e3o publicado no livro Contos gauchescos e Lendas do Sul (Globo, 2001) de Jo\u00e3o SIM\u00d5ES LOPES NETO: O ga\u00facho brotou da guerra e encontrou sua melhor morada na literatura de Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto (1865-1916). Nesse ref\u00fagio de refinado acabamento, ocupa um lugar na vanguarda &#8211; aquele peda\u00e7o da tropa que prova a luta antes dos outros, por destino, miss\u00e3o e gosto.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1570,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40\/revisions\/1570"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}