{"id":400,"date":"2009-12-10T13:38:37","date_gmt":"2009-12-10T15:38:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=400"},"modified":"2009-12-21T23:56:17","modified_gmt":"2009-12-22T01:56:17","slug":"o-exorcismo-em-cassia-kiss","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-exorcismo-em-cassia-kiss","title":{"rendered":"O EXORCISMO EM C\u00c1SSIA KISS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nC\u00e1ssia Kiss, no papel de Mariana na novel Para\u00edso, da Globo, incorpora a insanidade da m\u00e3e que acredita na santidade da filha. Est\u00e1 obsedada pelo Mal apresentado como a intensifica\u00e7\u00e3o do Bem. Ela se transformou naquela criatura, por isso suas falas parecem ser espont\u00e2neas (deve ter improviso, mas isso faz parte). Trata-se de uma personagem-im\u00e3, que atrai o vazio da nacionalidade \u00e1grafa e o preenche com palavras marcadas, id\u00e9ias fixas, arranques, rezas, invoca\u00e7\u00f5es, maldi\u00e7\u00f5es, cal\u00fanias. \u00c9 assustadora.<\/p>\n<p>Mariana defende sua loucura em posi\u00e7\u00e3o de combate, sempre em guarda e assim consegue dobrar quem a circunda. Todos desistem de lutar contra ela, a n\u00e3o ser por vias indiretas. Confront\u00e1-la resulta no embate contra uma parede. C\u00e1ssia entope a personagem dessa brutalidade para que possamos v\u00ea-la e, assim, nos livrar dela. Faz um auto-exorcismo, denunciando a obsess\u00e3o como sintoma de uma doen\u00e7a maior, que toma conta do pa\u00eds. N\u00e3o pode haver debate se cada indiv\u00edduo est\u00e1 tomado pelo fundamentalismo de suas certezas toscas, e com elas tenta manipular os semelhantes.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica, temos os eternos tungadores do dinheiro p\u00fablico. Na religi\u00e3o, os papa-b\u00edblias com suas arengas em pra\u00e7a p\u00fablica. Nas ci\u00eancias humanas, os guetos ideol\u00f3gicos deglutindo teorias para o enriquecimento il\u00edcito. Na literatura, os pr\u00eamios com cartas marcadas. Na m\u00eddia, a frescura instaurada como verdade \u00fanica. Nos microfones, os falsos moralistas. Nas consultorias e auto-ajuda, os espertalh\u00f5es superficiais e focados na desgra\u00e7a alheia. Na educa\u00e7\u00e3o, a burrice crescente e o analfabetismo end\u00eamico. Nas institui\u00e7\u00f5es, o abandono. Nos neg\u00f3cios, a criminaliza\u00e7\u00e3o. Nas ruas, os assassinatos. Nas casas, os conflitos insol\u00faveis. Na juventude, a morte em massa. Na terceira idade, a falta a de sobriedade.<\/p>\n<p>Tudo isso conflui para uma personagem exagerada como Mariana, que n\u00e3o escuta, s\u00f3 cria mon\u00f3logos, n\u00e3o luta pela felicidade da filha, s\u00f3 quer que ela cumpra o falso destino. C\u00e1ssia Kiss n\u00e3o \u00e9 apenas um destaque, \u00e9 um petardo, uma bomba nuclear em meio \u00e0 palermice interpretativa geral, capitaneada por Carlos Vereza, que, como o cura da aldeia, repete sua performance pregui\u00e7osa do coitadinho de voz tr\u00eamula. C\u00e1ssia Kiss \u00e9 o oposto. Ela mergulha fundo na sua obsess\u00e3o, fazendo um contraponto poderoso numa narrativa frouxa, proposital para o hor\u00e1rio, onde, acreditam os executivos da televis\u00e3o, s\u00f3 existe abombado(a) sentado(a) em frente \u00e0 telinha.<\/p>\n<p>Suas conversas com a santa, suas ora\u00e7\u00f5es autistas, as certezas criminosas, os mon\u00f3logos aos arranques, a coer\u00eancia de uma psicopata d\u00e3o firmeza ao personagem, \u00fanico rochedo em meio \u00e0 maresia, onde o resto dos atores e atrizes, com algumas exce\u00e7\u00f5es, se escudam no falso sotaque caipira e choram o tempo todo. Os homens s\u00e3o uns bobalh\u00f5es de chap\u00e9u de cowboy, menos o Reginaldo Faria, que tanto pode ser Br\u00e1s Cubas quanto aquele coronel de fala mansa e dura da novela. Reginaldo poderia muito bem assumir uma fazenda e dar ordens, que todos obedeceriam; o cara detona.<\/p>\n<p>As mulheres s\u00e3o umas frangas fofoqueiras &#8211; com exce\u00e7\u00e3o da Fernanda Paes Leme (na foto ao lado), subaproveitada no papel de filha do prefeito e que poderia fazer um estrago se tivesse admirador do g\u00eanero na dire\u00e7\u00e3o. Com Fernanda em cena, h\u00e1 sempre gra\u00e7a e conten\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma interpreta\u00e7\u00e3o suave, bem feita, mas que aparece pouco. Fica o &#8220;fio do demo&#8221; tomando conta de tudo, aquele banan\u00e3o.<\/p>\n<p>C\u00e1ssia Kiss diz que para ela n\u00e3o tem personagem menor. Gosta de pegar um papel de pouca import\u00e2ncia e arrasar. No caso de Mariana, \u00e9 uma pe\u00e7a chave da novela. Ela aproveita ao m\u00e1ximo. Tira leite de pedra. H\u00e1 espa\u00e7o para a interpreta\u00e7\u00e3o de n\u00edvel mesmo em espa\u00e7os condenados. Achei que Para\u00edso copiava a novela Cabocla. \u00c9 pior: copia a pr\u00f3pria novela Para\u00edso, de anos atr\u00e1s. Sorte que tem C\u00e1ssia Kiss para virar a mesa. Pode parecer \u00f3bvio fazer a beata louca. Pode parecer um lugar comum. Mas nesse caso, n\u00e3o \u00e9. C\u00e1ssia manda ver na sua arte e quem ganha \u00e9 o p\u00fablico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e1ssia Kiss, no papel de Mariana na novel Para\u00edso, da Globo, incorpora a insanidade da m\u00e3e que acredita na santidade da filha. Est\u00e1 obsedada pelo Mal apresentado como a intensifica\u00e7\u00e3o do Bem. Ela se transformou naquela criatura, por isso suas falas parecem ser espont\u00e2neas (deve ter improviso, mas isso faz parte). Trata-se de uma personagem-im\u00e3, que atrai o vazio da nacionalidade \u00e1grafa e o preenche com palavras marcadas, id\u00e9ias fixas, arranques, rezas, invoca\u00e7\u00f5es, maldi\u00e7\u00f5es, cal\u00fanias. \u00c9 assustadora.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[16],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/400"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=400"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/400\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1872,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/400\/revisions\/1872"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=400"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=400"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=400"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}