{"id":407,"date":"2009-12-10T14:00:15","date_gmt":"2009-12-10T16:00:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=407"},"modified":"2010-06-02T20:32:45","modified_gmt":"2010-06-02T23:32:45","slug":"o-verbo-habitado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-verbo-habitado","title":{"rendered":"O VERBO HABITADO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nAs palavras fazem sentido quando algu\u00e9m mora nelas. Casa abandonada, im\u00f3vel vazio, tapera, fachada, \u00e9 o que mais tem na pra\u00e7a. Varandas com luzes acesas de dia, significando aus\u00eancia. C\u00e3es com sede, caixa de correspond\u00eancia abarrotada, janel\u00f5es de vidro, pr\u00e9dios \u00famidos tombados \u00e0 espera de leis: as cidades s\u00e3o um conjunto de fugas, intensificadas por pra\u00e7as \u00e0s moscas, onde dormem maltrapilhos. Cal\u00e7adas tomadas pelo com\u00e9rcio sujo, por estacionamentos improvisados, por postes que interrompem o caminho, por lajotas soltas. Grama crescendo no meio do asfalto. Paralelep\u00edpedos empilhados montam guarda junto a uma placa, de letras enferrujadas. Assim \u00e9 o texto, o poema, o discurso, a reportagem: uma engenharia de ru\u00ednas.<\/p>\n<p>A n\u00e3o ser que existam p\u00e1ssaros que s\u00e3o recebidos pela neta olhando, com sono, pelo vidro emba\u00e7ado do inverno. Ela sorri, ao lado do leite morno. H\u00e1 cheiro de edredons limpos que tomaram sol. Mesa do caf\u00e9 com debate sobre um filme, um livro, uma not\u00edcia. Pilhas de pap\u00e9is em desalinho, onde se acham preciosidades. Sopros s\u00fabitos de portas que se abrem. Passos de av\u00f3 silenciosa a esfregar as m\u00e3os. Adolescentes vidrados numa tela. Homens e mulheres prontos para o trabalho. Barulho de escolas nos uniformes de alunos apressados. Assim \u00e9 a palavra habitada, a que fica e deixa descend\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas existem as f\u00e9rias, as viagens e por alguns dias ou semanas o verbo se esvazia de sentido e ficamos s\u00f3s diante do mar e o destino, a esperar as baleias que ainda n\u00e3o aportaram por essas bandas. Temos as gaivotas, mas elas n\u00e3o s\u00e3o novidade, n\u00e3o obedecem ao ciclo das aves, n\u00e3o arribam, n\u00e3o nos deixam. Somos como as pedras nesta praia eterna, a aguardar navios ancestrais soltos pelo ar. Queremos a transcend\u00eancia e para isso preparamos a frase, o verso, o quadro. Somos os artistas que cultivam o sereno em ba\u00edas atormentadas por cardumes extintos.<\/p>\n<p>Queremos compartilhar o j\u00fabilo da cria\u00e7\u00e3o, sentinela de nossos h\u00e1bitos. Queremos a m\u00fasica dessa transfigura\u00e7\u00e3o, a arte em todos os sentidos. Mas vemos pessoas imperme\u00e1veis, rostos de gan\u00e2ncia, loucuras mansas, tremores brutos a cavocar linhas na paisagem humana sem futuro. Fazemos parte desse desespero. O espelho aponta como somos, id\u00eanticos aos que nos cercam. A diferen\u00e7a \u00e9 que guardamos talentos, moedas de uma hist\u00f3ria oculta, para gastar em empreendimentos de sonhos. Somos mal vistos porque escapamos do ru\u00eddo que vampiriza o tempo.<\/p>\n<p>Por isso andamos em busca de ruas onde crian\u00e7as brincam, adultos conversam, pipas se enforcam nos fios. Queremos bater no port\u00e3o para dois dedos de prosa. Queremos lembran\u00e7as, projetos, canteiros. Quem nos receber\u00e1 com nosso verbo arduamente habitado? Talvez os que se foram e precisam de qualquer ora\u00e7\u00e3o, desde que tenha calor, fogo brando. Talvez os que ficaram para tr\u00e1s e olham os comboios sumirem no horizonte. Ou talvez os guerreiros do front, com os quais nos enquadramos, a dividir armas de uma guerra insepulta. Combateremos l\u00e1, na sombra cometida pelo desatino e o desgoverno.<\/p>\n<p>Estamos chegando. As palavras s\u00e3o apenas a vanguarda do que somos capazes de fazer, neste tsunami. Anunciamos a hera que cobre o muro e o transforma em cerca viva, a bola que \u00e9 chutada para o centro da rua, o vento que deslumbra, a luz que derruba, os cora\u00e7\u00f5es que ardem. Somos alguma coisa parecida com um anjo. H\u00e1 um exerc\u00edcio de asas, um recreio de vozes, uma carga de raios. Notem como se agitam as casas abandonadas. Elas recuperam a esperan\u00e7a de expulsar o p\u00f3. Trazemos o p\u00e3o na cesta de vime. Somos o despertar de uma esta\u00e7\u00e3o ainda dividida entre o sono e a batalha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As palavras fazem sentido quando algu\u00e9m mora nelas. Casa abandonada, im\u00f3vel vazio, tapera, fachada, \u00e9 o que mais tem na pra\u00e7a. Varandas com luzes acesas de dia, significando aus\u00eancia. 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