{"id":416,"date":"2009-12-10T14:05:30","date_gmt":"2009-12-10T16:05:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=416"},"modified":"2009-12-21T21:56:53","modified_gmt":"2009-12-21T23:56:53","slug":"michael-jackson-e-a-infancia-reinventada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/michael-jackson-e-a-infancia-reinventada","title":{"rendered":"MICHAEL JACKSON E A INF\u00c2NCIA REINVENTADA"},"content":{"rendered":"<p><span><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nMichael Jackson foi maltratado pelo pai na inf\u00e2ncia, que o transformou em escravo \u2013 como era costume tanto em Indiana, onde MJ nasceu, como no Brasil, onde era permitida a compra da alforria por meio das atividades comerciais, entre elas a de vender a for\u00e7a de trabalho alheia, inclusive dos filhos, a maioria paridos para esse objetivo. Quando conseguiu a independ\u00eancia financeira \u2013 principalmente depois de se transformar em vampiro e morto-vivo em Thriller &#8211; foi na Wacko, a megastore de quinquilharias de Los Angeles, comprar uma inf\u00e2ncia de crian\u00e7a branca. E a instalou na na\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, Neverland, tirada da Disney, que por sua vez tirou da literatura brit\u00e2nica, povoada apenas por crian\u00e7as como ele.<\/span><\/p>\n<p>Sua arte \u00e9 originada pela dan\u00e7a dos escravos que entretinham seus senhores dando passos em troca de uns trocados. Evoluiu para uma sintonia com a pr\u00f3pria ra\u00e7a e desprendeu-se dela a partir do mega-sucesso. O que ele desenvolveu nessa trajet\u00f3ria adquiriu forma pr\u00f3pria, uma identidade visual poderosa, desenhada por uma coreografia rica em detalhes, que descobriu no corpo novas formas e movimentos. Instaurou o ritmo de uma nova m\u00edmica, inspirada nos efeitos da velha luz estrobosc\u00f3pica das danceterias, em que o olho enxerga apenas trechos da evolu\u00e7\u00e3o, fazendo com que a mente do espectador carregue uma performance composta de s\u00edncopes, como se a vida fosse um conjunto de saltos.<\/p>\n<p>Com sua arte refinada, MJ \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de uma sociedade que se desvencilhou de suas ra\u00edzes. Idolatrado por libertar as massas para uma s\u00e9rie de gestos in\u00e9ditos, apropriados para o uso em ambientes virtuais, MJ inventou a chance de refazer a pr\u00f3pria vida, recome\u00e7ando da inf\u00e2ncia, que, com o apoio de seu faturamento extraordin\u00e1rio, deveria ser oposta \u00e0 que ele sofreu. No fundo, n\u00e3o teve inf\u00e2ncia, ou ela estava ligada \u00e0 dor e \u00e0s algemas seculares do povo a qual pertencia. Livrar-se da canga por meio da pl\u00e1stica, de uma nova pele e de uma voz que se transformou apenas num falsete, cabia perfeitamente no mesmo diapas\u00e3o da obra que impressionou o mundo.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que MJ tornou-se crian\u00e7a ao atingir o \u00e1pice de sua arte adulta, num movimento c\u00edclico que o devolveu para emo\u00e7\u00f5es imaginadas e jamais vividas, como o fato de ter tempo e uma s\u00e9rie de amigos para desperdi\u00e7\u00e1-lo. Claro que todo esse projeto se esfacelou diante da barreira imposta pela ind\u00fastria que se alimentava dele. Para continuar a explorar ao m\u00e1ximo a dan\u00e7a, era preciso cobrir de inf\u00e2mia o dan\u00e7arino, que atrapalhava os neg\u00f3cios. A falta de estrutura para aguentar a transforma\u00e7\u00e3o que o colocou numa sinuca de bico, tornou MJ ref\u00e9m das armadilhas mortais da sociedade do espet\u00e1culo, que cavou o fosso do \u00eddolo para depois cobrar ingressos nos funerais.<\/p>\n<p>O pai de MJ \u00e9 apenas o sintoma dessa doen\u00e7a que consome o mundo e n\u00e3o d\u00e1 vez para os devaneios, os sonhos, a alegria e o prazer acompanharem a obra de arte. Essas coisas humanas n\u00e3o podem ficar pr\u00f3ximas demais, reais demais, perigosas demais. Deve-se eliminar a fonte para que a casca vazia brilhe sobre os escombros, que nutre os vampiros.<\/p>\n<p>Toda arte \u00e9 den\u00fancia, mesmo em MJ. Ele nos alertou para a possibilidade de uma nova maneira de palmilhar o mundo, em que podemos iludir os espectadores negaceando a dire\u00e7\u00e3o do nosso passo, fazendo das mudan\u00e7as de dire\u00e7\u00e3o um projeto de vida, e tocando partes esquecidas do corpo. Trazendo para a superf\u00edcie o que nos incomoda e seduzindo pela gra\u00e7a o olhar exausto de tantas crueldades.<\/p>\n<p>Pena que a gente s\u00f3 descubra essas coisas fundamentais depois que o g\u00eanio parte. \u00c9 quando nos dedicamos a decifrar o presente que nos foi dado e que, muitas vezes, esnobamos porque n\u00e3o compreendemos. Ele risca o c\u00e9u como um meteoro e nos desperta no meio da noite. Ouvimos ent\u00e3o o som das esferas, que aos poucos se extingue como um p\u00e1lido c\u00edrio na nave da catedral assombrada de um conto de fadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com sua arte refinada, MJ \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de uma sociedade que se desvencilhou de suas ra\u00edzes. 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