{"id":421,"date":"2009-12-10T14:09:44","date_gmt":"2009-12-10T16:09:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=421"},"modified":"2009-12-22T02:58:14","modified_gmt":"2009-12-22T04:58:14","slug":"porque-morrem-os-jornais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/porque-morrem-os-jornais","title":{"rendered":"PORQUE MORREM OS JORNAIS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nH\u00e1 duas esp\u00e9cies, ou grupos, de motivos. Primeiro, causas externas. Golpe de 1964, por exemplo, que fechou o Correio da Manh\u00e3, do Rio, e a \u00daltima Hora, de Porto Alegre. O Correio sumiu de vez. Ferida de morte, a cadeia de jornais \u00daltima Hora de Samuel Wainer mudou de m\u00e3os e foi morrendo aos poucos, num longo processo de desmoraliza\u00e7\u00e3o e desgaste. Outro motivo externo: mudan\u00e7a de paradigma. Quando chegou o off-set, s\u00f3 quem tinha cacife para sair da impress\u00e3o a chumbo sobreviveu. Hoje, com a tecnologia digital, a sa\u00edda tem sido migrar para o mundo virtual e fechar as portas da vers\u00e3o tradicional.<\/p>\n<p>Mas existem as causas internas: m\u00e1 gest\u00e3o, que vem de m\u00e3os dadas com a emp\u00e1fia, a soberba, a auto-sufici\u00eancia. \u00c9 o que vimos na Gazeta Mercantil, um patrim\u00f4nio de quase um s\u00e9culo que se estiolou nas m\u00e3os de um herdeiro, que preferia viajar de jatinho para suas fazendas, inchar o quadro de funcion\u00e1rios, dar saltos no escuro em projetos furados. N\u00e3o quis acompanhar o jornal nas suas dificuldades di\u00e1rias e preserv\u00e1-lo, lutar pela sua sobreviv\u00eancia. Muitos herdeiros n\u00e3o t\u00eam qualquer liga\u00e7\u00e3o afetiva com a heran\u00e7a e acabam numa esp\u00e9cie de vingan\u00e7a contra os pais, destruindo o que ganharam de m\u00e3o beijada.<\/p>\n<p>Jornal \u00e9 uma criatura. Nasce, vive e pode morrer. N\u00e3o \u00e9 a galinha dos ovos de ouro. Vejam o que aconteceu com a grande cadeia dos Di\u00e1rios Associados. Era poderosa e parecia eterna. Bastou morrer o fundador, Assis Chateaubriand, para que os herdeiros, um grupo de mais de 20 funcion\u00e1rios que viraram donos, jogassem tudo por \u00e1gua abaixo. Cada novo propriet\u00e1rio era um Assis em miniatura. Ou melhor, a miniatura da imagem que faziam de Chateau, que era considerado porra louco metido a besta, mas era um empreendedor ousado e competente, tanto \u00e9 que conseguiu montar um imp\u00e9rio. Imitar os defeitos e n\u00e3o as qualidades do fundador \u00e9 a receita mortal para o fracasso.<\/p>\n<p>A certeza de que tudo sai no suor e existir\u00e1 para sempre normalmente acaba comprometendo a credibilidade do jornal. Pois, como sabemos, o mercado n\u00e3o \u00e9 garantia de nada, e se n\u00e3o for tratado \u00e0 altura ele mata. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 abra\u00e7ar-se com os poderes e isso foi decisivo em grande empresas como a da Manchete, que morreu agarrada \u00e0 ditadura de 64. Ningu\u00e9m vai ler ve\u00edculos comprometidos, ainda mais com a direita. A soberba tamb\u00e9m pode ser fatal para jornais menores, mas s\u00f3lidos, como aconteceu aqui em Florian\u00f3polis com velho O Estado, fundado em 1915 e que morreu h\u00e1 dois anos.<\/p>\n<p>A comunidade jornal\u00edstica est\u00e1 chocada com o abandono do acervo de O Estado, que nos anos 70 (quando trabalhei l\u00e1) e 80 era o mais importante de Santa Catarina. O arquivo fotogr\u00e1fico no ch\u00e3o, esparramado, as m\u00e1quinas enferrujando, abandonadas, pap\u00e9is por todo o lado, m\u00f3veis detonados empilhados, tudo isso faz parte das ru\u00ednas da sede situada na estrada SC-401, a que liga o norte da ilha, onde moro, ao centro da cidade. Mas a morte era sabida com anteced\u00eancia. Foi um problema de m\u00e1-gest\u00e3o.<\/p>\n<p>A empresa simplesmente ignorou os avisos e, mesmo tentando mudar, n\u00e3o mudou de fato, deixando-se engolir por uma empresa maior, a RBS, ga\u00facha, que montou o Di\u00e1rio Catarinense em 1986 e levou os melhores colaboradores. O Estado n\u00e3o teve condi\u00e7\u00f5es de peitar essa concorr\u00eancia, mas fechou-se em copas, insistindo em velhos paradigmas, formatados em realidades ultrapassadas. Finou-se aos poucos, num processo lento e doloroso. Hoje h\u00e1 lamenta\u00e7\u00e3o geral, mas os jornalistas sabem que era in\u00fatil tentar salvar O Estado, j\u00e1 que a dire\u00e7\u00e3o era imperme\u00e1vel, n\u00e3o estava determinada de fato de abrir m\u00e3o de suas idiossincrasias.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho detalhes sobre o que realmente houve, mas no plano geral foi isso. Era preciso deixar de lado a auto-sufici\u00eancia, reconhecer que estava em desvantagem, que os anos dourados tinham passado. Estabelecer parcerias, dar condi\u00e7\u00f5es de trabalho para as equipes, adotar a transpar\u00eancia e a independ\u00eancia. Soube de excelentes projetos que foram realizados por jornalistas determinados a salvar o jornal, mas as coisas no fim ca\u00edam no buraco negro da indiferen\u00e7a proporcionada pela m\u00e1 gest\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornal \u00e9 uma criatura. Nasce, vive e pode morrer. N\u00e3o \u00e9 a galinha dos ovos de ouro. Vejam o que aconteceu com a grande cadeia dos Di\u00e1rios Associados. Era poderosa e parecia eterna. Bastou morrer o fundador, Assis Chateaubriand, para que os herdeiros, um grupo de mais de 20 funcion\u00e1rios que viraram donos, jogassem tudo por \u00e1gua abaixo. Cada novo propriet\u00e1rio era um Assis em miniatura. Ou melhor, a miniatura da imagem que faziam de Chateau, que era considerado porra louco metido a besta, mas era um empreendedor ousado e competente, tanto \u00e9 que conseguiu montar um imp\u00e9rio. 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