{"id":438,"date":"2009-12-10T14:17:24","date_gmt":"2009-12-10T16:17:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=438"},"modified":"2009-12-22T03:02:59","modified_gmt":"2009-12-22T05:02:59","slug":"vamos-dancar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/vamos-dancar","title":{"rendered":"VAMOS DAN\u00c7AR?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nAlto demais para idade, p\u00e9 44 antes da hora, cal\u00e7a quase de pular sanga com bainha italiana, casaco apertado de cor diferente, meia branca, cocoruto pelado saltando dele um pelincho, gomina Glostora no topete, nada disso importava. O baile ou a reuni\u00e3o dan\u00e7ante eram eventos democr\u00e1ticos. Voc\u00ea poderia tentar tirar para o meio do sal\u00e3o a musa do col\u00e9gio do Horto, o das gurias. Ela at\u00e9 poderia rir, mas pelo menos uma volta dava com voc\u00ea, que teria assunto para mais de um m\u00eas, s\u00f3 para falar do cheiro dela, dos passos que se desencontraram e, milagre, dos corpos que se entenderam desde o primeiro acorde. Poderia virar namoro. Naquele tempo, o cora\u00e7\u00e3o ag\u00fcentava.<\/p>\n<p>Era bem mais pr\u00e1tico do que a atual balada, onde a abordagem \u00e9 mais complicada, pois n\u00e3o se tira algu\u00e9m para dan\u00e7ar, nem existe espa\u00e7o para o bate-coxa. \u00c9 cada um por si na gel\u00e9ia geral das m\u00e3os ao alto. H\u00e1 \u00eaxtase antes da hora, e n\u00e3o um ritual mais apropriado \u00e0 realidade emocional, ou seja, a timidez, a natural dist\u00e2ncia entre pessoas desconhecidas e de sexos diferentes. Tem que ser aceito na mesa onde ela se encontra e \u00e9 constrangedor se acomodar numa roda que n\u00e3o lhe pertence.<\/p>\n<p>A dan\u00e7a, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o era coletiva e sim exclusiva a dois. Falando claro: dava para agarrar a mo\u00e7a no primeiro segundo e todo mundo achava natural. Era assim que se dan\u00e7ava. Algum acontecimento sinistro fez com que os casais se desgrudassem na hora do bem bom e hoje o que existe \u00e9 exibicionismo individualista expresso em passos redundantes, mas com pose de originais. Dois para l\u00e1 e dois para c\u00e1 eram o c\u00famulo da sofistica\u00e7\u00e3o. Bem melhor do que dois mil para qualquer lado.<\/p>\n<p>Havia um ranking de tempo que revelava sua performance com elas. Se pediam licen\u00e7a s\u00f3 a\u00ed pela quarta m\u00fasica, era um feito. Se ela quisesse ficar contigo o baile inteiro, j\u00e1 era quase um noivado. Mas o mais dif\u00edcil era a conversa. No fundo, o agarro n\u00e3o definia o la\u00e7o na prenda e sim a conversa, mistura de sinceridade com estrat\u00e9gia. Voc\u00ea n\u00e3o poderia improvisar tudo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o podia cair nas armadilhas dos lugares comuns como \u201cvem sempre por aqui?\u201d. Essas coisas podem provocar gargalhada hoje, \u00e9poca da gravidez precoce e da ficaria geral. Mas aproximar-se de algu\u00e9m era bem penoso.<\/p>\n<p>Havia olheiros, testemunhas, guardas. Irm\u00e3os, que voc\u00ea, se fosse folgado e garantido por algum grandalh\u00e3o ou turma de meliantes, poderia chamar de cunhados. Pais: senhoras de coque alto e colar de falsas p\u00e9rolas, sisudas como seus consortes; senhores barrigudos e com uma perna de lado, para dar espa\u00e7o para algum trabuco. E amigas, as arroz de festa que estragavam tudo arrastando o objeto de desejo para longe.<\/p>\n<p>Outro lugar de ca\u00e7a para incompetentes no namoro como eu era a pra\u00e7a. No fute, as gurias olhando para os caras encostados nos autom\u00f3veis (n\u00f3s, os abombados de plant\u00e3o) pediam acompanhamento. Um flerte na pra\u00e7a poderia evoluir para um aperto de cora\u00e7\u00e3o apressado e um calor nos lugares certos. Havia mais emo\u00e7\u00e3o do que simplesmente passar a noite olhando para as gatas sem poder chegar, porque n\u00e3o existe nada organizado.<\/p>\n<p>Vejo as mat\u00e9rias e todas se queixam de que falta homem s\u00e9rio na balada. N\u00e3o pode haver gente s\u00e9ria num evento que n\u00e3o \u00e9 s\u00e9rio. O baile era a ponte entre os g\u00eaneros consentida, onde se encaminhavam os relacionamentos duradouros. Havia, claro, os lances de fugir para o carro ou um hotelzinho barato. Mas o grosso da tropa obedecia aos tr\u00e2mites legais. Um bate-coxa b\u00e1sico poderia evoluir para o namoro no port\u00e3o, depois uns agarros no sof\u00e1 e finalmente o casamento com o 38 encostado na nuca. Coisa civilizada.<\/p>\n<p>Hoje o pessoal engravida e fica tudo por isso mesmo. Sai at\u00e9 casamento, mas n\u00e3o dura, pelo que vejo nas reportagens (posso estar enganado). \u00c9 preciso que haja algumas barreiras para a coisa dar certo. A falsa liberalidade no fundo \u00e9 pris\u00e3o. A organiza\u00e7\u00e3o antiga, tida como um c\u00e1rcere, revela-se hoje, vista \u00e0 dist\u00e2ncia, como fruto de uma longa elabora\u00e7\u00e3o. Foram muitas gera\u00e7\u00f5es at\u00e9 se chegar \u00e0 solu\u00e7\u00e3o que encontramos na adolesc\u00eancia. Mas achamos que estava tudo errado e explodimos tudo. N\u00e3o deu certo.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que minha m\u00e3e gostava de mostrar as fotos do filho poeta revolucion\u00e1rio envergando um smoking caprichado, nos bailes de gala, e de cabelo curto. Dizia: \u201cEsse \u00e9 o guri que eu criei, diferente do cabeludo que voc\u00eas conhecem\u201d. M\u00e3e sabe tudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alto demais para idade, p\u00e9 44 antes da hora, cal\u00e7a quase de pular sanga com bainha italiana, casaco apertado de cor diferente, meia branca, cocoruto pelado saltando dele um pelincho, gomina Glostora no topete, nada disso importava. O baile ou a reuni\u00e3o dan\u00e7ante eram eventos democr\u00e1ticos. Voc\u00ea poderia tentar tirar para o meio do sal\u00e3o a musa do col\u00e9gio do Horto, o das gurias. Ela at\u00e9 poderia rir, mas pelo menos uma volta dava com voc\u00ea, que teria assunto para mais de um m\u00eas, s\u00f3 para falar do cheiro dela, dos passos que se desencontraram e, milagre, dos corpos que se entenderam desde o primeiro acorde. Poderia virar namoro. 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