{"id":440,"date":"2009-12-10T14:18:12","date_gmt":"2009-12-10T16:18:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=440"},"modified":"2009-12-21T23:54:28","modified_gmt":"2009-12-22T01:54:28","slug":"o-som-do-teclado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-som-do-teclado","title":{"rendered":"O SOM DO TECLADO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nHavia um piano na minha casa, fazia parte da forma\u00e7\u00e3o das mo\u00e7as. As teclas pareciam de marfim, brancas e pretas, de onde jamais tirei som que preste, nem mesmo um bife b\u00e1sico. Ao redor do piano vinham de fora as sanfonas, manipuladas com estardalha\u00e7o por talentos reconhecidos na cidade. A cascata de teclas me confundia ainda mais. Como podiam acertar as notas com tanta oferta para os dedos? M\u00fasica sempre foi um mist\u00e9rio para mim. Acabei ganhando a vida no teclado mais banal, o das m\u00e1quinas de escrever.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma m\u00edstica sobre as velhas Olivetti. Mas batucar nas pretinhas era um exerc\u00edcio de v\u00e1rias marcas. Lembro que por mais de uma vez martelei em antiq\u00fc\u00edssimas Underwood, al\u00e9m das Remington de v\u00e1rios calibres. A gurizada de hoje que desliza as m\u00e3os para produzir em massa vai rir quando souber como eram as m\u00e1quinas de escrever na Folha de S. Paulo. As mesas eram de f\u00f3rmica e o monstro do teclado estava embutido nelas. Para produzir o texto, era preciso puxar a ma\u00e7aneta que o mecanismo funcionava: do ventre da mesa saltava a ferramenta de uso di\u00e1rio.<\/p>\n<p>Depois do rec rec e do tec tec intermin\u00e1veis para desovar mat\u00e9rias ou fechamentos (t\u00edtulo, olho, legenda, etc.), o que gerava um lixo consider\u00e1vel de laudas jogadas fora, acionava-se de novo o mecanismo para que a m\u00e1quina voltasse ao ventre da baleia. Assim, com a mesa desimpedida, pass\u00e1vamos a caneta nos textos, antes de enviar para as oficinas. Funcionava assim: em cima das mesas, havia potes de goma ar\u00e1bica. Servia para colar as laudas uma na outra. Eram tripas enormes, conforme o tamanho da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Voc\u00ea enrolava a coisa, fazia um canudo com aquilo e gritava para o office-boy: desce! O rapaz ent\u00e3o vinha e levava at\u00e9 o centro da enorme reda\u00e7\u00e3o, e jogava dentro de um orif\u00edcio, que era o bocal de um cano curvo, comprido, que se dirigia aos por\u00f5es. O canudo de papel deslizava para l\u00e1, onde os gr\u00e1ficos compunham a sua obra em letrinhas da composi\u00e7\u00e3o. No primeiro dia de Folha, rec\u00e9m vindo dos pampas, n\u00e3o tive d\u00favida. Gritei: Baixa! , o que provocou gargalhadas por alguns meses. Sempre me perguntavam como estava o baixamento.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer essas coisas, pois ir\u00e3o se perder e ningu\u00e9m vai mais atinar como tudo funcionava. Os teclados faziam o som das profiss\u00f5es em plena atividade. Os locais de trabalho era os escrit\u00f3rios, lugares onde se escrevia. Trabalhar, durante toda minha vida, sempre foi escrever. Se voc\u00ea est\u00e1 escrevendo no escrit\u00f3rio, est\u00e1 trabalhando. Havia pose nos veteranos, que teclavam com a espinha reta, quase olhando para o infinito. Era um jeito cool de se mostrar, exclusivo para quem era observado, estrelas do of\u00edcio.<\/p>\n<p>Mas havia os mais espertos, que jamais curvavam a espinha e davam ordens de p\u00e9 o tempo todo, sem batucar no teclado. N\u00e3o eram respeitados como oper\u00e1rios das letras, como n\u00f3s. Quem pegava no pesado, a estiva das reda\u00e7\u00f5es, fazia parte de um grupo identificado com a for\u00e7a bruta da profiss\u00e3o. Garant\u00edamos o que chamam de conte\u00fado pregando em milh\u00f5es de p\u00e1ginas os milh\u00f5es de letras que bat\u00edamos sem parar pela vida afora.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que \u00e9ramos eternos, aquilo iria ser sempre assim. Fal\u00e1vamos muito em mudan\u00e7as, mas jamais pensamos que essas iriam cavar fundo na ess\u00eancia da nossa atividade. Mudar era a palavra de ordem e lut\u00e1vamos por isso. Tudo realmente mudou e o mundo que conhecemos e ajudamos a construir e levar nos ombros acabou indo para o ralo. Hoje, confinados em blogs, sites e at\u00e9 mesmo nos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o que sobrevivem e ir\u00e3o seguir em frente, somos o resultado de um s\u00e9culo desse som no teclado.<\/p>\n<p>Somos os pe\u00f5es das palavras, os \u00e1rduos fazedores de textos, os compositores da m\u00fasica da linguagem, o que fabricam o andar dos carrilh\u00f5es do tempo que nos devora. Nas rebarbas do nosso of\u00edcio, cultiv\u00e1vamos a poesia, como se fosse a primavera. Mas ela era mais do que isso. Era nosso futuro e sobreviv\u00eancia. Hoje, os que vivem de escrever, espalhados pelo Brasil \u00e1grafo e bruto, s\u00e3o o poema humano de um barro brindado pelo sopro imortal: a voca\u00e7\u00e3o e o talento, esse mist\u00e9rio da sabedoria, que sobrevive a todas as mudan\u00e7as e atinge o tempo como a seta envenenada de Cupido, o deus travesso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso dizer essas coisas, pois ir\u00e3o se perder e ningu\u00e9m vai mais atinar como tudo funcionava. Os teclados faziam o som das profiss\u00f5es em plena atividade. Os locais de trabalho era os escrit\u00f3rios, lugares onde se escrevia. Trabalhar, durante toda minha vida, sempre foi escrever. Se voc\u00ea est\u00e1 escrevendo no escrit\u00f3rio, est\u00e1 trabalhando. Havia pose nos veteranos, que teclavam com a espinha reta, quase olhando para o infinito. Era um jeito cool de se mostrar, exclusivo para quem era observado, estrelas do of\u00edcio.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=440"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1869,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440\/revisions\/1869"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=440"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=440"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=440"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}