{"id":446,"date":"2009-12-10T14:21:13","date_gmt":"2009-12-10T16:21:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=446"},"modified":"2009-12-22T00:30:43","modified_gmt":"2009-12-22T02:30:43","slug":"o-que-deve-ser-substituido","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-que-deve-ser-substituido","title":{"rendered":"O QUE DEVE SER SUBSTITU\u00cdDO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nSoube que est\u00e3o demolindo os viadutos e que no seu lugar \u00e1reas urbanas deterioradas ressurgem, livres dos monstrengos que por um tempo foram confundidos com progresso \u2013 parece que o Minhoc\u00e3o de S\u00e3o Paulo est\u00e1 na lista. Recentemente, um radioamador deu um furo internacional em todos os novos recursos da m\u00eddia no caso da Air France. Nada mais obsoleto do que a id\u00e9ia de \u201cprogresso\u201d. O erro \u00e9 o mesmo que alimenta o preconceito contra a idade. O que era velho \u2013 bonde, trem, radioamador \u2013 n\u00e3o prestava. O chamado novo sim \u00e9 que era uma maravilha.Essa besteira est\u00e1 fazendo \u00e1gua, pois o mundo n\u00e3o se divide entre velho e novo e sim entre o que \u00e9 adequado e o que n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p>Por exemplo: os jornais impressos. O que n\u00e3o vale mais n\u00e3o \u00e9 o fato de serem de papel, mas o de insistirem em serem a \u00fanica m\u00eddia que conta, como aconteceu com o acidente da Air France. Todo mundo j\u00e1 sabia, comenta o ombudsman da Folha deste domingo, mas a manchete do jornal nada acrescentava o que a internet e o r\u00e1dio divulgaram no dia anterior. Outro exemplo: bandas de rock. At\u00e9 quando v\u00e3o tirar as fotos fazendo cara de mau, em planos diferentes, olhando de maneira cool para a c\u00e2mara, normalmente cruzando os bra\u00e7os? At\u00e9 quando v\u00e3o fazer aquelas piruetas com guitarras? O p\u00fablico j\u00e1 demonstra cansa\u00e7o tentando bandas de rapazes bonzinhos, mas o esquema continua o mesmo.<\/p>\n<p>Mais um exemplo. Programa de audit\u00f3rio. Diante da quantidade de atra\u00e7\u00f5es que a internet mostra, para que serve as merdas (nunca serviram) apresentadas nessas jo\u00e7as? Agora querem mostram v\u00eddeos, como se pudessem imitar o you tube. Ou fingem que navegam tocando em telas imagin\u00e1rias, a clonar o internauta. As grades da TV aberta est\u00e3o completamente defasadas. Se colocassem no ar os maravilhosos filmes dos anos 40 e 50, como faz a TCM, canal pago, haveria uma sa\u00edda. Mas n\u00e3o precisa ser isso. Pode ser outra coisa. Mostrar uma banda que n\u00e3o seja metida a cool, por exemplo.<\/p>\n<p>No fundo, os programas de audit\u00f3rio est\u00e3o repetindo o Chacrinha. No Faust\u00e3o, as chacretes est\u00e3o chegando aos 40 anos. O pessoal que faz coreografia l\u00e1 atr\u00e1s firmou no emprego, garantido pelo monop\u00f3lio, e ocupa o lugar das garotas de 20. Deveria acabar com esse esquema fajuto e inventar outra coisa. Um programa cultural de massa, que tal? Sem celebridades instant\u00e2neas e com gente da pesada falando, atuando, dan\u00e7ando, cantando, tocando? Ainda temos esses talentos no Brasil? Aos potes, de todas as gera\u00e7\u00f5es. Est\u00e3o sumidas, muitos morrendo. \u00c9 uma l\u00e1stima. Voc\u00ea viu alguma vez o Z\u00e9 Gomes em hor\u00e1rio nobre? Jamais! Nem em hor\u00e1rio nenhum.<\/p>\n<p>O que deve ser substitu\u00eddo s\u00e3o as f\u00f3rmulas inadequadas, n\u00e3o o que \u00e9 velho. Uma id\u00e9ia recente pode ser uma droga. \u00c9 preciso somar tudo o que h\u00e1 e houve de bom em um s\u00e9culo de ind\u00fastria cultural. Vi\u00a0 <em>Sorry, wrong number <\/em>(1948), de Anatole Litvak, com Burt Lancaster e Barbara Stanwyck (foto) baseado numa pe\u00e7a escrita para o r\u00e1dio por Lucille Fletcher, considerada a melhor e mais importante pe\u00e7a radiof\u00f4nica do mundo pelo Orson Welles, que era do ramo. Mulher inv\u00e1lida pega linha cruzada e ouve o plano do seu pr\u00f3prio assassinato. Filmado em tempo real, \u00e9 de arrepiar. Depois foi imitado at\u00e9 mesmo pelo roteirista de Hitchcock, Frederick Knott, em Disque M para Matar. Pe\u00e7a de qualidade para radio, eis algo que n\u00e3o poderia ser deixado de lado.<\/p>\n<p>Escritores profissionais produzindo para as empresas de comunica\u00e7\u00e3o, h\u00e1bito americano que jamais imitamos. No Brasil, pegam os talentos para fazer bobagem. Eu fui anexado ao copy desde o primeiro emprego, como se corrigir o texto alheio fosse mais importante do que produzir textos para a pr\u00f3pria m\u00eddia que me empregava. Tive que fazer tudo \u00e0 revelia, paralelamente. Produzi muito e publiquei pouco, menos mal. Poupa os leitores de erros.<\/p>\n<p>Mas agora produzi um trilh\u00e3o de caracteres, que est\u00e3o na rede. Quem quiser, acessa. Est\u00e1 dispon\u00edvel. N\u00e3o esque\u00e7am de dar o cr\u00e9dito. Sou m\u00eddia e nunca escrevi tanto. Tamb\u00e9m estou envolvido em projetos para produtos impressos. Sinal que h\u00e1 espa\u00e7o para a cria\u00e7\u00e3o, que deve romper as comportas do que \u00e9 defasado. E filme noir \u00e9 atual, de hoje. Assim como a rabeca de Z\u00e9 Gomes. Eterna.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que deve ser substitu\u00eddo s\u00e3o as f\u00f3rmulas inadequadas, n\u00e3o o que \u00e9 velho. Uma id\u00e9ia recente pode ser uma droga. \u00c9 preciso somar tudo o que h\u00e1 e houve de bom em um s\u00e9culo de ind\u00fastria cultural. Vi  Sorry, wrong number (1948), de Anatole Litvak, com Burt Lancaster e Barbara Stanwyck (foto) baseado numa pe\u00e7a escrita para o r\u00e1dio por Lucille Fletcher, considerada a melhor e mais importante pe\u00e7a radiof\u00f4nica do mundo pelo Orson Welles, que era do ramo. Mulher inv\u00e1lida pega linha cruzada e ouve o plano do seu pr\u00f3prio assassinato. Filmado em tempo real, \u00e9 de arrepiar. Depois foi imitado at\u00e9 mesmo pelo roteirista de Hitchcock, Frederick Knott, em Disque M para Matar. 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