{"id":448,"date":"2009-12-10T14:22:02","date_gmt":"2009-12-10T16:22:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=448"},"modified":"2009-12-21T23:53:43","modified_gmt":"2009-12-22T01:53:43","slug":"kar-wai-wong-arte-e-transgressao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/kar-wai-wong-arte-e-transgressao","title":{"rendered":"KAR-WAI WONG: ARTE E TRANSGRESS\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nAcho \u201cAmor \u00e0 flor da pele\u201d (2000), assim como \u201cUm beijo roubado\u201d (2007), ambos desse fen\u00f4meno que \u00e9 o chin\u00eas Kar-Wai Wong, filmes de transgress\u00e3o. \u00c9 quando a arte transborda das formas conhecidas, ou quando usa formas conhecidas para dar um salto qu\u00e2ntico, para fazer outra coisa. Wong trabalha a ind\u00fastria cultural, ou cultura pop, ou seja o nome que se d\u00ea ao mundo visto por Andy Warhol, ou algu\u00e9m parecido, com um toque pessoal. Ele submerge na tralha de luz estourada, de cores quentes, c\u00e2maras que espiam, para narrar sobre personagens que se escondem e amores que n\u00e3o se consumam.<\/p>\n<p>Antigamente, antes que a esquerda mostrasse o que \u00e9, ou seja, antes de aparecer essa pseudo esquerda de resultados, que te obriga a votar nela te assustando com o bicho pap\u00e3o (real) da direita, era moda acusar algu\u00e9m de \u201ccomercial\u201d. Era no tempo em que o capitalismo n\u00e3o fazia parte a natureza humana. Descobrimos que faz. Hoje, comercial \u00e9 um conceito prec\u00e1rio para bater ou qualificar algu\u00e9m. Wong \u00e9 arte em alta voltagem e seu filme americano, o do beijo roubado, pode ser considerado uma \u201cconcess\u00e3o\u201d ao mercado, o que n\u00e3o me parece.<\/p>\n<p>Por exemplo: Wong faz do boler\u00e3o uma refer\u00eancia de arte conceitual, para incorporar um amor proibido e que por isso vive de esperas e talvezes (quiz\u00e1s, quiz\u00e1s, quizas). No seu filme totalmente chin\u00eas, o do amor \u00e0 flor da pele, ele virou alvo das cr\u00edticas dos consumidores confort\u00e1veis, os que acham chatice tudo o que n\u00e3o explode ou vira tiroteio. \u00c9 mortal o efeito conseguido por Wong ao fazer seus personagens ensaiarem cenas limite, como a confiss\u00e3o de um adult\u00e9rio ou a separa\u00e7\u00e3o definitiva.<\/p>\n<p>A mulher sempre dan\u00e7a e chora, pois leva a s\u00e9rio o que foi ensaiado s\u00f3 para evitar drama. Ela sabe que o treino \u00e9 real, assim como o cinema, que \u00e9 pura fantasia, \u00e9 mais real do que nossas rotinas e h\u00e1bitos. O casal, abandonado por seus respectivos c\u00f4njuges (que est\u00e3o sempre trabalhando ou viajando) se rodeiam o tempo todo sem chegar \u00e0 cama e acabam construindo um amor imposs\u00edvel, que se arrasta pela terra e pelo tempo como uma ferida aberta. Revisitar o lugar onde se encontraram pela primeira vez \u00e9 a penit\u00eancia dos quase amantes que n\u00e3o conseguiram driblar o cerco sinistro das conven\u00e7\u00f5es e dos compromissos sociais.<\/p>\n<p>Parece obsoleto, mas n\u00e3o \u00e9. H\u00e1 uma ilus\u00e3o de que tudo \u00e9 f\u00e1cil em rela\u00e7\u00e3o ao sexo, amor e casamento. Esquece-se que a complexidade permanece, que o ser humano \u00e9 o mesmo e que os sentimentos, a raz\u00e3o e a carne nem sempre s\u00e3o datados. Vejam o caso de David Carradine, cheio de casamentos destru\u00eddos, solit\u00e1rio num quarto de hotel de luxo, aos 72 anos, depois de se tornar c\u00e9lebre primeiro como o substituto de Bruce Lee na s\u00e9rie Kung Fu (um chin\u00eas n\u00e3o podia ser o astro principal de uma produ\u00e7\u00e3o televisiva americana). E depois de ter sido \u201cressuscitado\u201d pelo Quentin Tarantino. O que aconteceu com David?<\/p>\n<p>Soubemos pelo site (imperd\u00edvel) de Renzo Mora, que matou a charada em primeira m\u00e3o. David estava num exerc\u00edcio autoer\u00f3tico, que na fronteira tem um nome mais chulo (mas vamos deixar para l\u00e1). Ele se amarrou todo para ter o prazer que n\u00e3o encontrava ao seu redor, logo ele, estrela da TV e do cinema (o que resta para os outros?). Morreu por asfixia, num acidente provocado pela sua fantasia. Ou talvez tenha mesmo se suicidado, preferindo gozar at\u00e9 morrer, nunca se sabe.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil, para qualquer artista, equilibrar tradi\u00e7\u00e3o e ruptura, deixar sua marca e sair ileso. David, admirado por tanta gente, provocou sofrimento com seu gesto, involunt\u00e1rio ou n\u00e3o. Mas ele n\u00e3o foi submisso. Participou de rupturas importantes. A vida, que n\u00e3o faz gra\u00e7a com ningu\u00e9m, exige do artista sua melhor performance, o seu v\u00f4o mais alto. Somos o que deixamos de heran\u00e7a. E o nosso tempo \u00e9 a sobreviv\u00eancia do que criamos em meio \u00e0 escassez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acho \u201cAmor \u00e0 flor da pele\u201d (2000), assim como \u201cUm beijo roubado\u201d (2007), ambos desse fen\u00f4meno que \u00e9 o chin\u00eas Kar-Wai Wong, filmes de transgress\u00e3o. \u00c9 quando a arte transborda das formas conhecidas, ou quando usa formas conhecidas para dar um salto qu\u00e2ntico, para fazer outra coisa. Wong trabalha a ind\u00fastria cultural, ou cultura pop, ou seja o nome que se d\u00ea ao mundo visto por Andy Warhol, ou algu\u00e9m parecido, com um toque pessoal. 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