{"id":461,"date":"2009-12-10T14:30:23","date_gmt":"2009-12-10T16:30:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=461"},"modified":"2009-12-22T00:28:09","modified_gmt":"2009-12-22T02:28:09","slug":"o-mergulho-do-voo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-mergulho-do-voo","title":{"rendered":"O MERGULHO DO V\u00d4O"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Num acidente, trag\u00e9dia, cat\u00e1strofe, a primeira v\u00edtima \u00e9 a linguagem. Como escrevem mal os jornalistas das hard news! Isso seria frivolidade diante do luto, o desespero, a perda? N\u00e3o, seria a parte que nos toca, a dos m\u00eddia. Primeiro, algumas considera\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; Talvez milh\u00f5es de vezes por dia a tripula\u00e7\u00e3o dos v\u00f4os repete que no caso de pouso na \u00e1gua a poltrona flutua. Foi a primeira coisa que apareceu nas buscas: uma poltrona flutuante! Vazia, naturalmente. Por que perdem tempo dizendo essas bobagens?<\/p>\n<p>&#8211; Nesta \u00e9poca de twitter, internet, blogs, microblogs, tv digital, celular, e que sei eu mais, o furo foi dado por um bom e velho radioamador, que descobriu a conversa entre pilotos da FAB. Eles faziam a varredura e diziam ter encontrado algo. O radioamador deu imediatamente a not\u00edcia. Nada fica obsoleto, tudo \u00e9 soma.<\/p>\n<p>&#8211; Os franceses deram um banho de procedimentos corretos. Jogaram pesado. Foram totalmente transparentes com os parentes das v\u00edtimas, que souberam de tudo o que ocorria antes de qualquer novidade chegar \u00e0 m\u00eddia, evitando assim surpresas. O presidente franc\u00eas foi imediatamente para o aeroporto. O maior n\u00famero de vitimas era de brasileiros. N\u00f3s, fomos a reboque, capitaneados por aquele que fez quest\u00e3o de dizer que n\u00e3o sabia o que dizer. H\u00e1 vaga de ghost writer no Planalto.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 perguntaram mil vezes. Se avi\u00e3o n\u00e3o foi feito para bater, j\u00e1 que se desmancha no primeiro crash (at\u00e9 um p\u00e1ssaro na turbina \u00e9 capaz de causar estrago) porque n\u00e3o fabricam avi\u00f5es com o material da caixa preta? Ok, deve ser pesado. Mas n\u00e3o pensam nisso? Em alguma blindagem? Destro\u00e7os de avi\u00e3o lembram peda\u00e7os de papel\u00e3o.<\/p>\n<p>O ACIDENTE E A MIS\u00c9RIA DA LINGUAGEM<\/p>\n<p>Vamos pegar uma nota da Folha de S. Paulo que tem como titulo \u201cGoverno franc\u00eas minimiza mas n\u00e3o descarta possibilidade de atentado contra Airbus\u201d. Voc\u00ea alguma vez minimizou sem descartar? A s\u00e9rie de verbos usados diz tudo sobre a capacidade claudicante de dar uma not\u00edcia simples, direta, limpa. Al\u00e9m do j\u00e1 cl\u00e1ssico \u201cminimiza mas n\u00e3o descarta\u201d temos aos potes \u201cconsiderou, n\u00e3o se pode dizer, se deva, insistiu, n\u00e3o se pode excluir, precisou, corrobore, n\u00e3o seja poss\u00edvel, comentou, destacou, antes de acrescentar, reiterou, assegurou\u201d.<\/p>\n<p>Na linha fina, logo abaixo do t\u00edtulo: \u201cSecret\u00e1rio de Transportes considerou que tese de queda ter sido causada por raio \u00e9 incompleta\u201d. \u00c9 dose \u201ctese de queda ter sido causada\u201d. O pessoal n\u00e3o tem mais ouvido. Destru\u00edram a melodia, a harmonia, os arranjos e puseram no lugar o baticum e o vibrato intermin\u00e1vel da pop musica (aquele esgani\u00e7amento sem fim, que vibra). O resultado fica claro no texto. N\u00e3o se atenta mais para a m\u00fasica do encadeamento das palavras. \u201cRaio como causa do acidente n\u00e3o convence Secret\u00e1rio dos Transportes\u201d seria uma forma mais amena, direta, sonora.<\/p>\n<p>Continua a mat\u00e9ria: \u201cO governo franc\u00eas ressaltou nesta ter\u00e7a-feira que n\u00e3o se pode dizer que o desaparecimento do avi\u00e3o da Air France, ocorrido na segunda-feira, se deva a um atentado terrorista. Insistiu, por\u00e9m, em que tamb\u00e9m n\u00e3o se pode excluir essa hip\u00f3tese.\u201d Ou seja, n\u00e3o se pode dizer e ao mesmo tempo insistiu. Onde est\u00e3o esses jornalistas com a cabe\u00e7a? A falta de sentido desse trecho tem a ver com a incapacidade absoluta diante das palavras. \u201cAtentado terrorista \u00e9 considerado improv\u00e1vel, mas essa \u00e9 uma hip\u00f3tese que n\u00e3o pode ser totalmente descartada, segundo o governo franc\u00eas\u201d ficaria muito melhor.<\/p>\n<p>Mais do mesmo: \u201cO ministro da Defesa, Herv\u00e9 Morin, precisou \u00e0 emissora de r\u00e1dio Europe 1 que por enquanto n\u00e3o h\u00e1 \u00b4nenhum elemento` que corrobore esta hip\u00f3tese como a causa do acidente, embora \u00b4por defini\u00e7\u00e3o` n\u00e3o seja poss\u00edvel exclu\u00ed-la.\u201d Meu Deus, corrobore! Voc\u00ea j\u00e1 corroborou alguma vez, n\u00e3o corroborou? Eu jamais corroborei o que quer que fosse. Corroborar hip\u00f3tese \u00e9 de lascar. Sobre o sentido do trecho: tudo \u00e9 improv\u00e1vel, mas o ministro \u201cprecisou\u201d \u00e0 emissora de r\u00e1dio. Que coisa precisa! O que precisa \u00e9 um pouco de forma\u00e7\u00e3o escolar.<\/p>\n<p>Mais n\u00e3o digo porque at\u00e9 aqui j\u00e1 trabalhei de gra\u00e7a o que chega. E n\u00e3o me venham dizer que \u00e9 preciosismo caprichar em textos pontuais, urgentes. Besteira. Quem sabe escrever desova num jato o texto certo. Quem n\u00e3o sabe, como \u00e9 o caso aqui, cai em todas as armadilhas. V\u00e3o corroborar a hip\u00f3tese numa tuna.<\/p>\n<p>TODA VIDA EM QUINZE MINUTOS<\/p>\n<p>Sorte que a Folha tem Ruy Castro, que nesta quarta-feira publicou o texto \u201cQuatorze minutos de eternidade\u201d. Achei que Ruy iria se referir ao filme de 1953, Toda Vida em 15 minutos, do Pereira Dias (que mais tarde filmou o Teixeirinha), com Mara Rubia, Renata Fronzi, Rodolfo Arena e Jardel Filho, entre outros. Lembro que fiquei bem impactado com este filme. Mas n\u00e3o foi isso o que aconteceu. Ruy n\u00e3o citou o filme. Talvez esteja enterrado demais na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Vamos aos primeiros par\u00e1grafos de Ruy, para esclarecer o assunto: \u201cEntre a hora presumida de entrada do Airbus A330 da Air France na zona de turbul\u00eancia sobre o Atl\u00e2ntico e a \u00faltima mensagem enviada pelo equipamento do avi\u00e3o, na noite de domingo, passaram-se 14 minutos. Se fosse s\u00f3 isso, j\u00e1 seria aterrorizante. Mas o tempo de apreens\u00e3o, ang\u00fastia e pavor a bordo pode ter sido ainda maior para os 228 passageiros e tripulantes. \u00c9 tempo de sobra para que, diante da imin\u00eancia de morte, a vida -tudo que se fez e se disse, ou o que deixou de ser feito ou ser dito- passe v\u00e1rias vezes pela cabe\u00e7a de uma pessoa, com uma defini\u00e7\u00e3o de cinema. E com uma crueldade de Ju\u00edzo Final, porque n\u00e3o h\u00e1 mais tempo para dizer ou fazer o que faltou.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente isso o que acontece no filme. A c\u00e2mara d\u00e1 um close em cada passageiro, que faz um balan\u00e7o de sua vida. Trata-se de uma refilmagem, com boas mudan\u00e7as e adapta\u00e7\u00f5es, de Phone Call from a Stranger (1952), de Jean Negulesco, escrito por Nunnally Johnson e I.A.R. Wylie, segundo o site IMDB, e que tem Bette Davis e Shelley Winters no elenco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num acidente, trag\u00e9dia, cat\u00e1strofe, a primeira v\u00edtima \u00e9 a linguagem. Vamos pegar uma nota da Folha de S. Paulo que tem como titulo \u201cGoverno franc\u00eas minimiza mas n\u00e3o descarta possibilidade de atentado contra Airbus\u201d. Voc\u00ea alguma vez minimizou sem descartar? A s\u00e9rie de verbos usados diz tudo sobre a capacidade claudicante de dar uma not\u00edcia simples, direta, limpa. 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