{"id":465,"date":"2009-12-10T14:31:58","date_gmt":"2009-12-10T16:31:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=465"},"modified":"2009-12-21T23:50:55","modified_gmt":"2009-12-22T01:50:55","slug":"rubem-braga-e-os-contemporaneos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/rubem-braga-e-os-contemporaneos","title":{"rendered":"RUBEM BRAGA E OS CONTEMPOR\u00c2NEOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nQuem veio antes? Rubem Braga ou a realidade encantat\u00f3ria que ele capturou em suas cr\u00f4nicas? Teria o mundo alimentado Braga ou o que lemos nele \u00e9 tudo inven\u00e7\u00e3o? Houve mesmo um pa\u00eds em que Sergio Buarque de Holanda, depois de tomar umas e outras, disse que iria acender um f\u00f3sforo na Lua? Seria mesmo real o momento em que dois correspondentes de guerra brasileiros e um chofer nascido em Bag\u00e9, vestindo uniforme militar dos Aliados, foram recebidos como libertadores nos confins da It\u00e1lia? Ser\u00e1 mesmo verdade que Gilberto Freyre foi preso por atentado ao pudor, tendo feito amor nas trincheiras sagradas de Guararapes, local onde os brasileiros surraram os holandeses?<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Rubem Braga faz um acordo com o outro correspondente do front da II Grande Guerra, Joel Silveira, de se respeitarem suas vers\u00f5es mutuamente para n\u00e3o haver conflito. Assim combinados, estariam livres para dizer o que bem entendessem. Essa liberdade narrativa era a manifesta\u00e7\u00e3o do g\u00eanio dos nossos escritores, que perdemos? Eles eram fruto do Brasil que ao descambar, perder o foco, ruir, deixou ao Deus dar\u00e1 os que vieram depois?<\/p>\n<p>Ter\u00edamos n\u00f3s, os que nasceram mais tarde, perdido o rastro ou nunca o tivemos? A exist\u00eancia de tantos autores que nos grudam em seus livros at\u00e9 hoje teria sido obra dos astros, de um jogo coletivo de cria\u00e7\u00e3o, que teria feito uma barreira \u00e0s nossas mis\u00e9rias e nos levado para um Xangril\u00e1 liter\u00e1rio dif\u00edcil de superar? Por que tudo soa maravilhoso mesmo quando eles falam de solid\u00e3o e morte? \u201cO Brasil \u00e9, principalmente, uma certa maneira de sentir\u201d nos diz o velho Braga ao comentar a solidariedade entre a lavadeira que sofria com a chuva no morro, mas dizia que isso era bom para a lavoura. E que adorava as frases suntuosas de autores mais antigos e que o deslumbravam pelos detalhes, pela abund\u00e2ncia, pela for\u00e7a. Brasil, mist\u00e9rio que nos invoca, sumiu bem na nossa vez, quando pegar\u00edamos o bast\u00e3o para chegar ao p\u00f3dio, ou n\u00e3o nascemos para isso, para transcender nossa realidade como tantos fizeram antes de n\u00f3s?<\/p>\n<p>Uma coisa recorrente nos escritores que nos abandonaram, pela idade ou morte s\u00fabita, quando chegamos \u00e0 vida adulta, \u00e9 que tinham considera\u00e7\u00e3o pela intelig\u00eancia do leitor. Uma das provas \u00e9 que limparam a l\u00edngua de todo o estorvo e nos legaram um texto enxuto, brilhante, eterno, sem as seq\u00fcelas do provincianismo, dos anacronismos, da pomposidade, da ostenta\u00e7\u00e3o e da tautologia. Rubem Braga escrevia assim: \u201cMeu caro Vinicius de Moraes. Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma not\u00edcia grave: a Primavera chegou. Voc\u00ea partiu antes. \u00c9 a primeira Primavera, de 1913 para c\u00e1, sem a sua participa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 Antonio C\u00edcero, na Folha deste s\u00e1bado, escreve: &#8220;Contempor\u00e2neo&#8221; quer dizer &#8220;do mesmo tempo&#8221; ou &#8220;do mesmo tempo que&#8221;. Quando dizemos, por exemplo, &#8220;M\u00e1rio e Oswald foram contempor\u00e2neos&#8221;, queremos dizer: &#8220;M\u00e1rio e Oswald foram do mesmo tempo&#8221;; e quando dizemos &#8220;Leonardo foi contempor\u00e2neo de Michelangelo&#8221;, queremos dizer: &#8220;Leonardo foi do mesmo tempo que Michelangelo&#8221;.<\/p>\n<p>Depois n\u00e3o sabem porque hoje jornal sobra na banca e naqueles idos, que tinha informa\u00e7\u00e3o de sobra nas r\u00e1dios e muito lazer e cultura nos cinemas, as pessoas faziam fila para assegurar seu exemplar. N\u00e3o \u00e9 culpa da internet nem nada. A culpa \u00e9 dessa indig\u00eancia mental dos bem nutridos, que se acham superiores e n\u00e3o enxergam o pa\u00eds e sua grandeza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma coisa recorrente nos escritores que nos abandonaram, pela idade ou morte s\u00fabita, quando chegamos \u00e0 vida adulta, \u00e9 que tinham considera\u00e7\u00e3o pela intelig\u00eancia do leitor. Uma das provas \u00e9 que limparam a l\u00edngua de todo o estorvo e nos legaram um texto enxuto, brilhante, eterno, sem as seq\u00fcelas do provincianismo, dos anacronismos, da pomposidade, da ostenta\u00e7\u00e3o e da tautologia. Rubem Braga escrevia assim: \u201cMeu caro Vinicius de Moraes. Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma not\u00edcia grave: a Primavera chegou. Voc\u00ea partiu antes. \u00c9 a primeira Primavera, de 1913 para c\u00e1, sem a sua participa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/465"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=465"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/465\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1859,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/465\/revisions\/1859"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}