{"id":467,"date":"2009-12-10T14:33:00","date_gmt":"2009-12-10T16:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=467"},"modified":"2009-12-22T02:59:56","modified_gmt":"2009-12-22T04:59:56","slug":"a-nos-a-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-nos-a-liberdade","title":{"rendered":"A N\u00d3S, A LIBERDADE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nTenho visto v\u00e1rios filmes de pris\u00e3o, como <em>For\u00e7a Bruta,<\/em> do grande Jules Dassin, um cineasta que ainda n\u00e3o destaquei devidamente aqui e \u00e9 autor de algumas obras-primas, como <em>The Night and the City<\/em>, uma Londres americana filmada sob influ\u00eancia do neo-realismo, e, pelo menos, a sequ\u00eancia final de seu cl\u00e1ssico <em>Rififi,<\/em> feito na Fran\u00e7a, quando se exilou do macartismo (sempre ele, o lacerdismo original do primeiro mundo).<\/p>\n<p>Como <em>Rififi <\/em>\u00e9 muito antigo, de 1952, posso contar essa seq\u00fc\u00eancia: o ladr\u00e3o, aqui protagonista e her\u00f3i, ferido de morte, leva no seu carro o menino que tinha sido seq\u00fcestrado. Paris jamais foi filmada com tanto desespero, de baixo para cima, com os edif\u00edcios e monumentos famosos rodopiando conforme o carro \u00e9 dirigido nas curvas das ruas. O garoto, libertado da m\u00e3o da quadrilha, est\u00e1 vestido de cow-boy. Ri e brinca apontando seu rev\u00f3lver de brinquedo enquanto seu salvador agoniza. \u00c9 de matar. \u00c9 cinema para empolgar quem v\u00ea em qualquer \u00e9poca. \u00c9 arte-paradigma, que p\u00f5e no chinelo as \u00faltimas d\u00e9cadas de bobagens comerciais.<\/p>\n<p>Os filmes dos anos 30 a 50 focam a pris\u00e3o como um lugar de v\u00edtimas do sistema que tudo fazem para escapar. Torcemos pelos condenados e lamentamos quando s\u00e3o pegos. Era um tempo de cr\u00edtica ao capitalismo, n\u00e3o como agora, em que o capitalismo faz parte da natureza humana. Hoje, as pris\u00f5es do cinema s\u00e3o nichos de fortudos que se amam e acabam de engalfinhando em p\u00e1tios sujos de lama, como vi in\u00fameras vezes. N\u00e3o h\u00e1 mais justificativas para quem est\u00e1 na cela, a n\u00e3o ser pelo fato de haver o her\u00f3i que vai se vingar (e normalmente consegue) dos bandidos no poder. Carandiru \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o interessante, pois flagra o colapso do sistema, a brutalidade cega e suicida da repress\u00e3o e a culpa abra\u00e7ada \u00e0 doen\u00e7a, num reflexo poderoso do Brasil em ru\u00ednas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m poder\u00e1 ver nos prisioneiros do Carandiru um her\u00f3i, como aconteceu com <em>O Homem de Alcatraz <\/em>ou mesmo os dois protagonistas do impressionante <em>A nous la libert\u00e9<\/em>, de <strong>Ren\u00e9 Clair,<\/strong> que faz, de dois condenados, modelos da luta pela liberta\u00e7\u00e3o. Naquela \u00e9poca, o foco eram os princ\u00edpios. A pris\u00e3o era o retrato do sistema. A obra de Ren\u00e9 Clair, de 1931, foi claramente plagiada por Chaplin em <em>Tempos Modernos<\/em>, de 1936. Houve um processo da produtora do filme de Clair que se arrastou por dez anos. Chaplin cedeu, a mando dos seus advogados, mas jamais admitiu o pl\u00e1gio, not\u00f3rio e expl\u00edcito. Clair n\u00e3o quis entrar no rolo, disse que era uma homenagem e acabou amigo de Chaplin.<\/p>\n<p>As imagens de A nous la libert\u00e9 n\u00e3o mentem: n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre a f\u00e1brica e a pris\u00e3o. A hist\u00f3ria \u00e9 uma utopia fundada na esperan\u00e7a da ci\u00eancia como instrumento de reden\u00e7\u00e3o. Um dia, diz essa lenda, as m\u00e1quinas far\u00e3o tudo e seremos livres para sempre. A sequ\u00eancia final (feita h\u00e1 80 anos, posso contar), em que as esteiras desovam produtos enquanto os oper\u00e1rios bebem vinho e jogam cartas e a popula\u00e7\u00e3o faz pic-nic no parque ou dan\u00e7a ao ar livre, \u00e9 a corporifica\u00e7\u00e3o dessa utopia. Os dois ex-condenados reencontram a liberdade pegando a estrada como dois vagabundos, numa premoni\u00e7\u00e3o dos anos 60 (for\u00e7ando um pouco o anacronismo).<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m, antes do fim, a sequ\u00eancia do vendaval que joga o dinheiro para o ar e surra o velho que faz um discurso obsoleto. Capitalistas e oper\u00e1rios lutam pela grana, sem ver o que o filme mostra: o final dos tempos e o in\u00edcio de uma era de liberta\u00e7\u00e3o. Ren\u00e9 Clair inclusive coloca todo um aparato que lembra muito a rede de computadores. Tudo \u00e9 feito pelo modo anal\u00f3gico, claro, mas a cena em que o patr\u00e3o consegue a foto e o perfil de dois funcion\u00e1rios em poucos segundos \u00e9 uma previs\u00e3o com grande margem de acerto.<\/p>\n<p>Visto hoje, quando a rob\u00f3tica avan\u00e7a na ind\u00fastria, a inform\u00e1tica libera as pessoas de ficarem em seus ambientes profissionais, podendo trabalhar em casa, sabemos que falta algo \u00e0 utopia de Clair: a de que a exclus\u00e3o continua e aumenta, e a tecnologia muitas vezes \u00e9 usada para gerar mais mis\u00e9ria, como acontece com a especula\u00e7\u00e3o financeira on-line.<\/p>\n<p>Considero contempor\u00e2neos todos os filmes feitos nestes mais de cem anos de hist\u00f3ria do cinema. N\u00e3o existe filme antigo. \u00c9 tudo hoje. Duvido que consigam mais impacto visual do que em Aurora, de Murnau. Duvido que reflitam melhor a desumaniza\u00e7\u00e3o no trabalho do que A nous la libert\u00e9. Duvido que haja trag\u00e9dia maior do que Burt Lancaster em For\u00e7a Bruta: depois de peitar meio mundo na pris\u00e3o, e jogar o algoz de cima da torre de comando, ele n\u00e3o consegue abrir o port\u00e3o que estava trancado por um caminh\u00e3o jogado ali exatamente para romper aquela barreira.<\/p>\n<p>Temos de ter acesso o tempo todo aos milh\u00f5es de filmes de mais de um s\u00e9culo de S\u00e9tima Arte. Todos eles s\u00e3o de hoje. Precisamos do cinema para libertar nossa percep\u00e7\u00e3o. Para n\u00f3s, escravos, a liberdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m poder\u00e1 ver nos prisioneiros do Carandiru um her\u00f3i, como aconteceu com O Homem de Alcatraz ou mesmo os dois protagonistas do impressionante A nous la libert\u00e9, de Ren\u00e9 Clair, que faz, de dois condenados, modelos da luta pela liberta\u00e7\u00e3o. Naquela \u00e9poca, o foco eram os princ\u00edpios. A pris\u00e3o era o retrato do sistema. A obra de Ren\u00e9 Clair, de 1931, foi claramente plagiada por Chaplin em Tempos Modernos, de 1936. Houve um processo da produtora do filme de Clair que se arrastou por dez anos. Chaplin cedeu, a mando dos seus advogados, mas jamais admitiu o pl\u00e1gio, not\u00f3rio e expl\u00edcito. 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